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quinta-feira, 15 de março de 2012

O Jesus dos Evangelhos: Mito ou Realidade? - Resenha do Debate entre Craig e Crossan


“Em 1994, a Chicago Tribune Magazine publicou um artigo sobre os pontos de vista do dr. Crossan intitulado “Gospel Truth” [“A Verdade do Evangelho”] com o subtítulo “Will Christians accept a revolucionary portrait of Jesus that is based on scholarship, not on faith?” [“Os cristãos aceitarão um retrato revolucionário de Jesus que se baseie na erudição, e não na fé?”]” foi com essas palavras que William L. Craig iniciou seu pronunciamento final no debate com John Dominic Crossan.

As palavras do dr. Craig expressam o espírito de nossa época, tanto lá quanto aqui no Brasil. Faça uma análise da história das capas das revistas Superinteressante, Galileu, História Viva ou quaisquer outras que tratem sobre ciência, religião, história, etc. A sua conclusão não poderá ser outra a não ser: “O Cristianismo é um engodo”. A tendência às visões progressistas, liberais, modernas, ou seja, a tendência a toda e qualquer visão antitradicional é incontestável.

Você nunca – jamais! – verá na capa das referidas revistas ainda que apenas uma pequena nota que corrobore sequer o ponto mais insignificante da tradição cristã. Isso, obviamente, gera no inconsciente coletivo da sociedade a petulante crença de que o Cristianismo foi testado... e fracassou. A história cristã seria tão somente de densas trevas. Suas crenças, então, um exemplo de ingenuidade pré-moderna (pesquise na Wikipédia sobre a “Teoria do Agendamento”).

Este livro prova o embuste que é o subtítulo do artigo publicado na Chicago Tribune Magazine. Que nos perdoem os editores de tal revista, bem como das revistas brasileiras de ciência, história, filosofia, etc, mas sinto lhes informar que, talvez, a verdade não seja tão evidente quanto pensam. William L. Craig apresenta uma defesa sólida da historicidade da ressurreição de Jesus, tão sólida que o dr. Crossan sequer ousou refutá-la – enrolou, enrolou, mas os pontos levantados pelo dr. Craig foram suficientes para provar que, se alguém aqui tem fé dogmática em algo, esse alguém é – pasmem! – o dr. John Dominic Crossan, que, diga-se de passagem, já esteve aqui em nosso país, falou na UFRJ e tem uma legião de fãs nas academias de história e teologia brasileiras.

Por que, então, nas academias de história e teologia não ouvimos nem falar das visões de William L. Crag, Craig Blomberg, Gary Habermas e, pior, Wolfhart Pannenberg e N.T. Wright sobre a ressurreição de Cristo? Ora, porque o magistério encontram-se tão imerso e cego pelos seus dogmas seculares (dogmas seculares? Sim, senhor! Veja aqui: http://ultimato.com.br/sites/guilhermedecarvalho/2012/02/14/todo-mundo-e-crente/  ) que a priori excluem qualquer possibilidade de seus pressupostos estarem equivocados. Pior, para eles a menor aproximação ao que tacham pejorativamente de “fundamentalismo” é vexante. Deste modo, associar-se à posição “fundamentalista” (há-há-há) da crença na literalidade e historicidade da ressurreição de Cristo é algo que não se pode fazer.

Mas o que fazer, então, se tudo indica que a posição do dr. Crossan é um engodo escravo de seus pressupostos dogmáticos e arbitrários, a saber, o naturalismo? Desmascará-la como o engodo que é, mostrando seu falso caráter acadêmico e expondo seu caráter puramente ideológico-dogmático. Resta saber, por fim, estará a academia pronta para aceitar um retrato revolucionário de Jesus que se baseie em fatos, e não em ideologias seculares? Na razão, e não em dogmas? Na história e não em preconceitos “progressistas”? Estará a academia pronta para aceitar um retrato revolucionário de Jesus, que é baseado na erudição e não na fé? Apresente este livro ao seu professor e verá quem é o fundamentalista da história.


quarta-feira, 29 de julho de 2009

Resenha de "The Testimony of the Beloved Disciple"



Tradução: Rodrigo Gonçalves de Souza

Anglicano da IEAB, Missão Santo Agostinho de Cantuária
Blogueiro: informadordeopiniao.blogspot.com
defideorthodoxa-informadordeopiniao.blogspot.com
colabora como convidado em adcummulus.blogspot.com


Muitas coleções de artigos de um estudioso bíblico publicados anteriormente sobre um tópico não parecem merecer ainda mais um livro em uma indústria já saturada. Ninguém pode com imparcialidade, acusar este volume de cair nesta categoria. Richard Bauckham, recentemente aposentado da Universidade de St. Andrews, tem uma distinta carreira como um escritor prolífico sobre uma incrível variedade de temas, sem dúvida nenhum deles mais importantes do que suas obras sobre o Evangelho de João. Apesar de que o oferecido neste volume são reimpressões ou revisões de ensaios que tenham surgido noutras ocasiões (e um é uma reformulação de uma seção de um livro recente de Bauckham), muitos foram disponibilizados em fontes pouco conhecidas e todos merecem a maior audiência e contexto que a sua apresentação neste volume irá proporcionar.

O Capítulo "Características Historiográficas do Evangelho de João" apresenta elementos que ligam este documento mais com história do que biografia, ou, pelo menos, mais do que no Sinóticos. Estes elementos incluem informações precisas de topografia e cronologia e a utilização de testemunhas oculares e numerosos discursos ou diálogos Nada disso torna o Evangelho necessariamente preciso em tudo que apresenta, mas deixa a porta aberta para tal conclusão dado gênero literário que resulta deste estudo. O Capítulo "A Audiência do Evangelho de João" demonstra quão pobremente as influências da abordagem de J..L Martyn, de uma leitura de dois níveis da narrativa (algumas poucas coisas reais da vida de Jesus, mas mais transparecendo as realidades do final do primeiro século) realmente funcionam. As passagens de excomunhão podem não refletir qualquer vasto emprego da Birkath-ha-Minim [ Bênção dos hereges, que fora promulgada na liturgia judaica a partir do Concílio de Jamnia – final do séc.I - para excomungar alguns considerados hereges, como os cristãos, que até então incluíam alguns que buscavam participar dos ritos comunais judaicos – N. do T.], numerosos personagens obviamente não representam alguém da comunidade de João ou sua oposição, e o uso geral da Patrística via a audiência de João como a mais ampla e não sectária.

A comparação entre o dualismo, nos Rolos do Mar Morto, especialmente no que diz respeito à luz e as trevas, mostra que os paralelos com o João não estão tão perto quanto às vezes se tem mantido. Estudiosos foram corretos ao balançar o pêndulo para longe do pano de fundo greco-romano para judaicos para esses fenômenos e correlacionados, mas o caso de fazê-lo pode ser ainda melhor visualizado simplesmente pelos paralelos do Antigo Testamento. A literatura rabínica e Josefo referem-se a pelo menos dois poderosos e ricos líderes judaicos pelo nome de Nicodemos na elite da família Gurion. Provavelmente não há nenhuma combinação com o de João, mas dada a freqüente prática do reaproveitamento de alcunhas familiares e a raridade deste nome particular fora desta família, tudo no Quarto Evangelho sobre Nicodemos reverbera verossimilhança. .

Lázaro, Marta e Maria, por outro lado, eram nomes judeus extremamente comuns. Portanto, o aparecimento do Lázaro ressurreto, em João 11 não requer as hipóteses de empréstimos da parábola de Lucas 16:19-31. Afinal, nenhuma ressurreição é requisitada lá, apenas uma aparição temporária a partir do reino dos mortos. Por outro lado, os retratos das duas irmãs que mostram a combinação certa de semelhanças e diferenças entre Lucas 10:38-42 e João 11/12 sugerem que João pode muito bem fornecer retratos historicamente precisos sem simplesmente tomar emprestado de Lucas. Semelhante lógica apóia a autenticidade da cena do caminhar sobre as águas em João 13- a coerência com a logia [Na erudição do Novo Testamento, o termo logia refere-se primariamente à suposta coleção dos ditos de Jesus que se acredita ter sido mencionada por Papias. N. do T.] empregada sem paralelismo íntimo o suficiente para sugerir dependência em qualquer ponto.

Em um estudo do messianismo judaico, no Quarto Evangelho, Bauckham mostra como os vários retratos de Jesus como Cristo, profeta como Moisés, e Filho do Homem todos refletem o justo equilíbrio da coerência com os substratos judaicos e encaixam com a “progressiva auto-revelação” de Jesus, como para ser credível nos contextos aos quais João atribuiu-os. Em seu enfoque sobre monoteísmo e Cristologia neste Evangelho, Bauckham mostra como os ditos de Jesus referentes a "unidade com o Pai”, o “Eu-Sou” e outros exemplos deste exercício das suas prerrogativas divinas nunca são redigidas de forma a sugerir um comprometimento para com o monoteísmo. Na verdade, os relevantes substratos do Antigo Testamento mostram que o que se traz de Jesus é justamente que a sua relação com o Pai "é parte integral para que Deus seja O Único" (p. 252).

A santidade de Jesus no Quarto Evangelho é para ser espelhada na santidade dos discípulos, com exceção de que ela não é absoluta para eles, e (portanto) eles não são expiadores dos pecados do mundo, como Cristo foi. Mas os separa do mundo para que possam ser portadores de sua mensagem para o mundo. O misterioso número 153 para a quantidade de peixes capturados em João 21:11 deve ser entendido como altamente simbólico, dada a característica prevalecente do simbolismo algébrico judaico nos dias de João. Além de endossar algumas sugestões anteriores, Bauckham observa que o equivalente numérico do grego das quatro palavras-chave no primeiro "término" do Evangelho de João 20:30-31 para "assinar", "crer", "Cristo" e "vida" são 17, 98, 19 e 36, respectivamente. 153 é o "triângulo" de número 17 (a soma dos números de 1 a 17, e a soma de 98, 19 e 36 também é 153). O que quer que tudo isso mais implique, certamente sugere que a mesma pessoa por trás do capítulo 21 escreveu o restante do Evangelho [ Paul S. Minear, em “The Original Functions of John 21”, 1985, já havia feito uma vigorosa defesa dessa posição – N. do T.] !

Uma breve resenha dificilmente pode avaliar cada uma destas contribuições pormenorizadamente. Pergunto-me se para Bauckham, “João, o Ancião”, que tão estreitamente se assemelha ao filho de Zebedeu em perfil, teria sido tão facilmente reconhecido como distinto dele, especialmente desde que o único personagem chamado João no Quarto Evangelho é o Batista, mas a ele nunca é dado este epíteto. Alguém que não seja João, filho de Zebedeu, foi capaz de fazer isto sem temer ambigüidades, especialmente quando o Evangelho circulou para muito além dos seus iniciais destinatários efésios - como Bauckham salienta? É preciso escolher entre Bauckham e Larry Hurtado, por exemplo, o qual salienta a segregação parcial do monoteísmo em várias vertentes de judaísmos periféricos em binitarianismo? Apesar das notáveis coincidências de somas numéricas, temos qualquer controle sobre tais especulações algébricas para dar-nos alguma confiança que João realmente pretendeu isto?

Mas estas são bagatelas menores. Globalmente, este é uma coleção de ensaios extraordinariamente meticulosa, criativa, e que mesmo rompe paradigmas, sendo que cada um merece um estudo cuidadoso, e quase todos merecem aceitação generalizada. Adquira este livro, maravilhe-se com ele e digira-o. Bauckham deve ser tão mais esclarecido e lúcido na sua aposentadoria quanto ele fora durante a sua ilustre carreira!

Craig L. Blomberg, Ph.D.
http://www.denverseminary.edu/

Distinguished Professor of New Testament
Denver Seminary
December 2007




domingo, 19 de julho de 2009

Resenha de Making Sense of the New Testament

Resenha do livro Making Sense of the New Testament: Three Crucial Questions - Craig Blomberg
Tradução livre: Obtendo o Sentido do Novo Testamento: Três Questões Cruciais


Este livro explora três aspectos controversos da pesquisa do Novo Testamento a partir de uma perspectiva cristã conservadora. Foi concebido para ser um volume companheiro para o de Longman Tremper, Making Sense of the Old Testament: Three Crucial Questions , que faz parte de uma série maior de Baker que aborda o tema "três questões fundamentais" em fervorosamente contestadas questões bíblicas e teológicas (13). Longman divide seu estudo em três grandes questões sobre hermenêutica, teologia, e de aplicação, enquanto Blomberg divide seu estudo em três grandes perguntas sobre Jesus, Paulo, e aplicação. No primeiro capítulo Blomberg avalia a confiabilidade histórica do Novo Testamento. No segundo ele compara os ensinamentos de Jesus e Paulo e pergunta se Paulo foi o segundo ou o verdadeiro fundador do cristianismo. No terceiro capítulo ele delineia vários princípios para a aplicação judiciosa dos textos para um contexto contemporâneo. Estes três locus de heurística, ele adverte, abrangem a maior parte da literatura do Novo Testamento e concentra o estudo sobre os debates mais importantes na pesquisa neotestamentária e teologia da Igreja. Esta revisão irá analisar o tratamento de Blomberg destas três questões cruciais e avaliar a contribuição do livro para o campo.

Capítulo 1 pergunta: "Será que o Novo Testamento é Historicamente Confiável" (17)? O interlocutor oculto neste capítulo e em todo o livro é o pesquisador liberal moderno, que subestima a histórica credibilidade do Novo Testamento, conclui Blomberg. Seu primeiro alvo é o Jesus Seminar. Eles são culpados, ele argumenta, do círculo vicioso, uma vez que pressupõem as suas conclusões. Uma vez que a impossibilidade de milagres é pressuposto, por exemplo, então, naturalmente, as histórias de milagres dos Evangelhos serão julgadas fictícias. Além disso, o novo Acts Seminar é culpado das mesmas "abordagens imperfeitas" (19). Inversamente, porém, a Terceira Busca para o Jesus histórico é mais otimista sobre a possibilidade de obter conhecimento seguro da vida de Jesus a partir do Novo Testamento, e Blomberg compartilha desse otimismo.Ele reúne evidências históricas para a confiabilidade do Novo Testamento, do harmonioso retrato de Jesus que surge a partir do Evangelho e da sua confirmação por escritos de não-cristãos (judeus e historiografia greco-romana), a arqueologia, e os pais apostólicos. Blomberg admite que nem todos os argumentos individuais que ele encaminha serão incontornáveis, mas as suas forças combinadas são convincentes: "Cumulativamente, no entanto, um caso impressionante pode ser feito para a grande confiabilidade dos Evangelhos e Atos, através de critérios históricos por si só" (70). Mas seu subdeterminado uso de "história" é precisamente o problema. Embora Blomberg utilmente distingue entre contemporâneas e antigas "convenções para escrever história e biografia" (29 - 30), ele nunca articula explicitamente sua concepção da "história" e em que sentido exato do Novo Testamento é e não é "historicamente" preciso. O debate depende da concepção de um emprego de história.

Capítulo 2 pergunta: "Foi o Paulo o verdadeiro fundador do cristianismo?" (71). Subjacente a esta questão são as diferenças prima facie entre os ensinamentos de Jesus e Paulo e da suposta falta de conhecimento deste dos pormenores biográficos de Jesus. Neste capítulo Blomberg refuta este persistente equívoco da pesquisa liberal (representada por Baur, Wrede, Bultmann, e Lüdemann). Ele começa por apontar amplos conhecimentos paulinos dos ensinamentos de Jesus (73-81). Atos e as epístolas paulinas indiscutíveis revelam a significativa profundidade de conhecimento de Paulo, e ele certamente sabia mais do que ele cita ou alude à, nestas cartas. Em seguida ele traça o conhecimento paulino de outros elementos na tradição do Evangelho (81-84). A razão para Paulo não clamar mais sobre seu conhecimento de Jesus é porque sua audiência já teria sido familiarizada com o básico dos detalhes biográficos. Por fim, ele enumera seis decisivas semelhanças teológicas entre Jesus e Paulo: justificação pela fé e do reino de Deus, o papel da lei, a missão e Gentios na igreja , o papel das mulheres (sobre o qual muitos acirrariam uma disputa), cristologia e escatologia . Em resposta à pergunta que ele colocou no início do capítulo, Blomberg declara que Paulo foi "de nenhuma forma" o verdadeiro ou o segundo fundador do Cristianismo (105). Pelo contrário, Paulo baseia-se na tradição que ele recebeu de Jesus, os apóstolos e seu encontro com Cristo, que ele transmitiu ao mundo gentio.

Embora Blomberg reconheça as diferenças entre os seus ensinamentos, ele argumenta que eles são muito mais afins do que "modernos céticos" têm sugerido: "As linhas de continuidade entre Paulo e do Jesus Histórico novamente superam as diferenças" (78). Mas, como na primeira seção, Blomberg rejeita muitos argumentos sem lhes dar um amplo e avançado questionamento e sem muitos argumentos que justificam-no plenamente.

Ele apela constantemente à limitação de espaço e refere-se a outras obras quando alega que não teria tido muito mais espaço para aprofundar a argumentação central em maior detalhe.


Capítulo 3 pergunta: "Como o cristão aplica o Novo Testamento à vida?" (107). Esta seção é direcionada para os cristãos que desejam incorporar os ensinamentos do Novo Testamento em suas vidas. Blomberg lamenta que os cristãos encontram frequentemente subaplicações do Novo Testamento que são, por vezes, apenas humorísticas e por vezes extremamente perigosas. Desde que subaplicações se baseiam em interpretações erradas, ele pretende sistematizar princípios hermenêuticos e procedimentos que irão facilitar a interpretação. Ele define quatro etapas para a "legítima aplicação bíblica" na tentativa de transferir a sua aplicação original do texto para um contexto contemporâneo (108). Em seguida ele trata os principais gêneros de textos do Novo Testamento e orienta o leitor a especificidade de cada um dos livros e gêneros que devem nortear exegese. Ele prossegue explicando específicos princípios de hermenêutica. Grande parte do seu conselho poderia ser reduzido ao princípio da contextualização: saber como subseções se encaixam dentro de um texto maior e como é a sua localização entre um particular parágrafo ou livro, impactos e significado. Por último, Blomberg engaja-se no problema difícil de determinar se o ensino de Paulo sobre um determinado assunto ou situação é específico- normativo, dada a "ocasional" natureza das epístolas e seu status como escritura (133). Nesta parte e em toda a seção suas sugestões são perspicazes e úteis, mas o seu âmbito é limitado pelo seu viés protestante conservador [???]. Um cristão ortodoxo ou católico, por exemplo, poderá formular os problemas e enunciar soluções hermenêutica muito diferente [Não se diria o mesmo no caso de papéis trocados? – N. do T.].


O mérito do estudo de Blomberg é a sua acessibilidade. Introduz e sintetiza os principais debates e métodos dos estudos do Novo Testamento sem saturar o leitor com minúcias. Os não-especialistas irão se beneficiar o seu amplo alcance, e especialistas irão se beneficiar de sua apresentação concisa das questões. Nem todos vão concordar com suas conclusões, especialmente os estudiosos liberais contra quem ele abre polêmica, mas todos irão apreciar o seu domínio sobre o terreno. Argumentos de Blomberg refletem um viés cristão evangélico conservador, e aqueles que não compartilham seus compromissos podem se sentir alienados quando lerem a terceira seção, em particular. É preciso não esquecer que este livro é destinado aos leitores simpatizantes, e por isso tem um tom apologético e polêmico. A principal falha no livro é um subproduto da sua brevidade. Em muitas ocasiões a crítica de Blomberg falha em desenvolver seus argumentos suficientemente. Suas restrições de espaço resultam em argumentações subdesenvolvidas, que é o preço pago pela concisão e acessibilidade. O estudo de Blomberg vai servir como uma útil introdução a essas questões contenciosas para igrejas cristãs conservadoras e seminários. Para as universidades e seminários menos conservadores, a melhor introdução seria de Raymond E. Brown, Uma Introdução ao Novo Testamento. O livro de Blomberg, porém, é uma contribuição positiva para a pesquisa do Novo Testamento.

Mark S. M. Scott
Harvard University
Cambridge, MA 02138

segunda-feira, 29 de setembro de 2008

Eu li... Jesus e o Império: O Reino de Deus e a Nova Desordem Mundial - Richard Horsley


Richard Horsley, professor de Línguas Clássicas e Religião na Universidade de Massachusetts, nos apresenta uma análise do movimento iniciado por Jesus à luz dos fatos sociais da época. Ele mostra como Jesus se opôs ao opressor Império Romano. Naqueles tempos, César era visto como Senhor e o Salvador do povo, as pessoas eram "salvas" pela fé em César. Jesus ao reinvidar o senhorio para si estava, em outras palavras, afirmando que César não é Senhor, é claro que o Império não deixaria isso passar em branco. Aqueles primeiros cristãos tinham total ciência de que ao aceitar o senhorio de Cristo eles estavam se posicionando contra o poder da época. Enquanto o Estado reinvindicava total servidão de seus cidadãos, inclusive decidindo sobre a educação de filhos e passando por cima dos direitos dos cidadãos quando disso dependia a estabilidade do Estado, que tinha prioridade máxima, Cristo reinvindica o mesmo senhorio, nós somos Seus servos de modo que o que prevalece são os propósitos d'Ele mesmo quando isso custa os nossos. O que mais aprendemos lendo Horsley, na minha opinião, é a dimensão das reivindicações Cristãs e do senhorio de Cristo. Ou Cristo ou César. Ou Cristo ou o Mundo. Não há meio termo.

domingo, 7 de setembro de 2008

Questões Introdutórias Sobre a Canonicidade do Novo Testamento


Essa é uma cópia de um texto que um amigo meu pediu para eu escrever sobre a questão da canonicidade do NT, e por ser pertinente ao blog eu aproveito e posto aqui. Fiquem livres para debater, já que eu não domino o assunto.

Certamente, uma das questões mais polêmicas e controversas quando falamos da fé cristã é a questão da formação do cânon neotestamentário. Apesar do fato de nenhum grande acadêmico do novo testamento, independente de sua (des)crença, acreditar ou corroborar as questões que o público leigo levanta, como aquelas levantadas pelo O Código Da Vinci, ainda assim paira uma nuvem de dúvida na cabeça de todos: Como se deu a formação do Cânon do Novo Testamento? Por que foram 4 os evangelhos aceitos e não mais (ou menos)? Por que Marcos, Mateus, Lucas e João e não Maria Madalena, Filipe ou Tomé?

Quando alguém, com aquele ar de triunfo na face, levanta tais questões eu gosto de fazer três perguntas:

1) Você já leu os Evangelhos?
2) Você já leu os Textos Apócrifos?
3) Por que você acha que os textos apócrifos deveriam entrar no Cânon Neotestamentário?

A resposta dificilmente será positiva para as 2 primeiras questões e para a 3º no máximo será um incômodo silêncio. Isso por si só já é suficiente para revelar as bases fragéis sobre as quais repousam essas críticas e também revela que o motivo para rejeitar o Novo Testamento e a fé cristã tem suas origens mais na vida emocional do incrédulo leigo, ou seja, na sua rebeldia contra o cristianismo, do que em formulações intelectuais.

A questão é que quando as pessoas levantam tais questões, elas sequer sabem do que estão falando! Quem faz a afirmação é que detêm o ônus da prova, mas para essa questão faltam argumentos sólidos e sobram "achismos" e divagações infundadas.

Mas vamos assumir o ônus da prova e apresentar os fatos.

O consenso no meio acadêmico é que os textos do Novo Testamento foram todos escritos entre 59 - 90 d.C. alguns ainda colocam o Evangelho de Marcos no ano 40 d.C., ou seja, apenas 7 anos após a morte de Cristo. Esse período de tempo é muito breve para que os textos se tornem vitimas de desenvolvimento legendário ou que os fatos históricos se deturpem a ponto de perderem seu valor histórico. Só como comparação, a biografia de Alexandre, O Grande foi escrita 300 anos após sua morte e justamente por esse longo espaçamento de tempo sua biografia apresenta um alto nível de desenvolvimento legendário. Mas com Cristo não, sua primeira biografia foi escrita entre 10 a 30 anós após a sua morte, em outras palavras, estamos falando de um documento de altissimo valor histórico por ser incrivelmente próximo dos fatos impossibilitando qualquer deturpação substancial


É isso que faz com que os textos do Novo Testamento sejam historicamente confiaveis de modo que sua confiabilide não têm paralelos com nenhum outro texto antigo seja de Platão, Aristóteles, Homero, Flávio Josefo etc...

Mas e o Evangelho de Maria Madalena? Filipe? Tomé? Pedro? Todos eles datam de meados do século II, ou seja, de 150 d.C. em diante. Aproximadamente 120 anos após o fatos. Tardios demais para descreverem os fatos com precisão e relevância para o conhecimento histórico. Além do fato de que é impossível que os autores a quem se atribui a autoria de tais "evangelhos" ainda estivessem vivos. Quando o Cânon Neotestamentário foi decidido pela Igreja um dos principais critérios de canonicidade era a apostolicidade ou seja, ter sido escrito por um dos apóstolos (Mateus, João, Paulo...) ou por alguma pessoa próxima destes (Marcos, Lucas...) critério a que nenhum texto apócrifo pôde resistir. Deveríamos inclui-los no cânon? Seria uma incrível besteira colocarmos textos tão historicamente pobres ao mesmo lado dos textos do Novo Testamento. Curiosamente, segundo os historiadores da era antiga, as lendas costumam se desenvolver a partir de 2 gerações (80 anos) após a ocorrência dos fatos, ou seja, exatamente o período em que começaram a surgir os textos apócrifos! Eles não passam de lendas. Mas não pára por ai, diferentemente dos Evangelhos Canônicos que apresentam inúmeras citações de locais geográficos, sacerdotes, pessoas importantes, detalhes que podem ser comprovados a partir do estudo da histórica antiga, os textos apócrifos são apenas coleções de idéias de mestres do gnosticismo do segundo século, não há nada que possa ser comparado com o que conhecemos da história antiga, nenhuma citação de local ou de alguma figura pública da época, nada. E, talvez o mais importante, diferente do que se imagina esses livros jamais foram aceitos pelos cristãos antigos como alguns acreditam, nem sequer por líderes eclesiásticos ou algum dos Pais da Igreja. Não temos citações desses livros nos escritos dos Pais da Igreja (90 - 180 d.C.), mas temos inúmeras citações dos textos canônicos, para ser mais preciso, praticamente 95% do NT é citado pelos Pais da Igreja. O Fragmento Muratório, que é um papiro datado de 180 d.C., é uma das primeiras tentativas de estabelecer o Cânon das Escrituras Neotestamentárias, nele encontramos 22 livros contidos no nosso NT atual, incluindo os 4 Evangelhos. É possível que algum outro texto seja citado mas pela deterioração do manuscrito não é possível saber, mas a grande questão é cadê os textos apócrifos? Não aparecem...

Para selar de vez a sepultura dos textos apócrifos aqui vai uma citação do Evangelho de Tomé:

"Simão Pedro disse a eles: 'Maria deveria deixar-nos, pois as mulheres não são dignas da vida'. Jesus disse: 'Eu a guiarei para fazer dela homem, de modo que também ela possa tornar-se espírito vivo semelhante a vocês homens. Pois toda mulher que se tornar homem entrará no reino do céu".
 

Em outras palavras, a menos que as mulheres se tornem homens elas terão como destino eterno o inferno.

Recapitulando, os textos do Novo Testamento têm um valor histórico muito maior do que qualquer texto apócrifo por serem mais próximos dos fatos, terem sido escritos por testemunhas oculares ou pessoas próximas a estas, apresentarem inúmeros dados que podem ser acessados através da história e desde sempre terem sido aceitos pelos cristãos primitivos. Já os textos apócrifos não resistem a nenhum desses critérios. Por que deveríamos atribuir historicidade à tais textos? Não resta motivo algum.

sábado, 6 de setembro de 2008

Eu li... Jesus Cristo e Mitologia - Rudolf Bultmann

Jesus Cristo e Mitologia
Rudolf Bultmann


Rudolf Karl Bultmann foi um teólogo alemão muito influente no século passado e ainda hoje. A questão mais importante levantada por Bultmann foi a questão da desmitologização do Novo Testamento, ou seja, visto o Novo Testamento ter sido escrito por escritores que viviam numa época onde a cosmovisão era profundamente sobrenatural e "mitológica" o que devemos fazer hoje é atualizar a mensagem neotestamentária para torná-la compatível com a cosmovisão do homem moderno que exclui o sobrenatural.

É justamente esse o intento de Bultmann neste livro, desmitologizar Jesus "Cristo". Não é mais possível para o homem moderno acreditar no "Cristo" e portanto devemos remover todos os elementos mitológicos presentes no Novo Testamento e reinterpretar a mensagem cristã sob uma nova ótica. A empreitada de Bultmann é frustrada desde seu ínicio, tentar remover o sobrenatural do cristianismo é, em outras palavras, descristianizar o cristianismo, isto é, remover do cristianismo um elemento essencial à sua própria sobrevivência. É impor nossas pressuposições sobre o texto do Novo Testamento impedindo que o texto fale qualquer coisa que não seja o que já fora definido a priori. É difícil entender porque teólogos como Bultmann não assumem logo sua descrença e não descartam de uma só vez todo o cristianismo e suas implicações. Por que igualar o cristianismo a qualquer coisa que o "mundo" oferece? Parece que há teólogos que deixam de crer mas não conseguem reconhecer isso para si mesmo e insistem em fazer um imenso contorcionismo intelectual para adaptar o velha crença à atual descrença.

Como sabiamente colocou o sociólogo Peter Berger no livro A Rumour of Angels, "modernizar" o cristianismo é colocá-lo ao lado do secularismo, é colocar tudo no mesmo saco. E se, como afirmam tais teólogos, tudo é a mesma coisa, se ambos são relativistas, pluralistas, naturalistas e tudo o mais que o pós-modernismo implica, porque raios alguém aceitaria o cristianismo se o que ele "vende" nada mais é do que um secularismo infantil que tem medo de assumir seu próprio secularismo? Pra que ser cristão se continuar secular não fará a menor diferença? Uma religião conformada com o espirito da época não tem absolutamente nada de novo a oferecer. Berger afirma: "Porque alguém adotaria psicoterapia ou liberalismo racial numa roupagem "cristã", quando as mesmas coisas estão disponíveis sob rótulos puramente seculares e por essa mesma razão muito mais modernos?... Em outras palavras, a rendição teológica ao desprezo pelo sobrenatural se auto-destrói na sua própria medida de sucesso. Representa a auto-liquidação da teologia e das instituições que se revestem da tradição teológica"

É por essa insistência dos teólogos "descolados" em se prostituírem ao espírito da época que a empreitada teológica é tão indigna de crédito no mundo secular. Porque levar a sério esse parasita que vive de se render ao secularismo? Porque levar a sério uma "ciência" que na verdade nada mais faz do que imitar e correr atrás daqueles que dominam o pensamento secular? Que valor tem essa ciência frouxa que se envergonha de si mesmo? Que valor tem a mulher que está sempre correndo atrás do homem e se entregando a tudo que ele diz? Deve ser o "mundo" que guia a Igreja e a empreitada teológica ou o contrário? Quando aprenderemos a não ter vergonha de nós mesmos e enfrentaremos de igual para igual o secularismo?

É justamente o fato da teologia ser uma "ciência" frouxa que a religião cristã é tão criticada como uma ilusão, uma projeção do nosso eu (Freud), pois na verdade é justamente isso que a teologia é, um molde de Deus ao formato do homem. É por isso que ela é tão criticada como uma ciência sem sentido (Antony Flew), uma ciência que não diz nada e cujos conceitos são tão amplos que podem abranger virtualmente qualquer crítica. Se é Marxismo, nos moldemos ao Marxismo. Se é naturalismo, nos moldemos ao naturalismo. Se é relativismo ou pluralismo, nos moldemos também. Enfim, nada pode falsear a fé cristã, isso é patético! Rídiculo! E por isso que o teólogo é um ser irrelevante neste mundo. Novamente Berger, "O teólogo que barganha com o mundo moderno sai com um mau negócio, isto é, ele provavelmente entregará muito mais do que receberá". Não precisamos de teologia, o secularismo oferece as mesmas coisas e num rótulo muito mais "in".

Voltando ao livro de Bultmann, o pressuposto dele parece muito lógico, mas no fundo não passa de um raciocinio falacioso auto-refutável. Bultmann pressupõe que pelo fato da cosmovisão dos autores bíblicos estarem profundamente marcadas pela cosmovisão da época (sobrenaturalista, mitológica e, portanto, irracional e inaceitável ao homem moderno) nós devemos remover os elementos "mitológicos" dos evangelhos e atualizá-los de acordo com a cosmovisão moderna mas, será que ninguém avisou à Bultmann que a cosmovisão dele é, da mesma forma que a dos autores bíblicos, moldadas de acordo com o espírito da época em que ele viveu? Amanhã tudo se renova e a cosmovisão bultmanniana se torna obsoleta, e então, tudo se perde, tudo vira lixo. O cristão não pode se render ao espirito da época - "Aquele que se casa com o espirito da época, logo, logo, se tornará viúvo" - é triste ver teólogos "cristãos", aqueles que supostamente seriam a voz de Deus na terra, se rendendo à tal espirito e pregando valores seculares com uma eloquência de fazer inveja à qualquer pensador humanista. Triste e Satânico! o espirito da época passa e, como diria Chesterton, a carruagem da Ortodoxia segue através dos tempos. Não crer no sobrenatural é não crer no cristianismo, é declarar que não há ressurreição, é declarar que não resta mais esperança.

segunda-feira, 11 de agosto de 2008

Eu li... The Historical Jesus - Gary Habermas


Como já disse no texto abaixo, Gary Habermas é um dos maiores especialistas conservadores em Jesus histórico, poderíamos colocá-lo ao lado de N.T.Wright, seu companheiro nos congressos sobre a ressurreição de Cristo, apresentado por ambos e o maior apologista contemporâneo William L. Craig. Habermas começa o livro discorrendo sobre a história das pesquisas sobre o Jesus histórico - o movimento das "Vidas de Jesus" onde cada "estudioso" escrevia sua própria biografia de Cristo, sempre bastante imaginativa, o movimento de racionalização do Jesus histórico, onde cada fato miraculoso narrado nos Evangelhos era interpretado de forma naturalista, o desprezo pela historicidade de Jesus de Karl Barth até os estudos contemporâneos onde se têm enfatizado a relevância da história para a fé, movimento cujo teólogo alemão Wolfhart Pannenberg é um dos expoentes. Habermas faz boas críticas das visões liberais do Jesus histórico, em especial, de John Dominic Crossan e suas pressuposições históricas. Mas o foco do livro são as evidências históricas antigas sobre Jesus, credos antigos descritos nas páginas do Novo Testamento (1Co15 merece destaque), e fontes cristãs e pagãs, Habermas cita Josefo, Suêtonio, Tácio, Plinio e diversas outras fontes (39 no total). O número de fontes além de fundamentar a existência de Jesus, e até mesmo de fatos específicos de sua vida, impossibilitam qualquer tentativa de reconstruir um Jesus que não seja no mínimo semelhante ao Jesus dos Evangelhos. O apêndice sobre historiografia também é muito bom, ainda mais por ser justamente devido à pressuposições infundadas e preconceituosas que hoje vemos tanta confusão em relação ao Jesus histórico, por isso a leitura desse apência é um dos pontos altos do livro. Recomendado!

quinta-feira, 7 de agosto de 2008

ALEGAÇÕES DE RESSURREIÇÃO EM RELIGIÕES NÃO-CRISTÃS - DR. GARY HABERMAS

Gary Habermas é professor do departamento de Teologia e Filosofia da Universidade de Liberty. Junto com N.T. Wright é um dos maiores especialistas em Jesus histórico do mundo e grande apologista, autor de The Historical Jesus: Ancient Evidence for the Life of Christ. Nesse artigo acadêmico, Habermas investiga as alegações de deificação e ressurreição que existem fora do Cristianismo. Excelente



Por Gary R. Habermas
Tradução: Vitor Grando
http://despertaibereanos.blogspot.com
Fonte: www.GaryHabermas.com

Publicado em:
Religious Studies v25.n2 (June 1989): pp167(9).
Cambridge University Press

Conteúdo:

Introdução
1. Alegações Não-Cristãs de Apotheosis (Deificação) e Ressurreição
2. Critica Histórica das Alegações Não-Cristãs de Ressurreição
3. Conclusão
________________________________________

Introdução

Apesar das crenças cristãs serem, de um modo geral, amplamente conhecidas, especialmente no mundo ocidental, alguns adeptos de grandes religiões não-cristãs também alegam que alguns de seus rabinos, profetas, gurus ou “messias” ressurgiram da morte. A julgar pela relevante literatura religiosa, parece que tais alegações não-cristãs são geralmente ignoradas, talvez porque haja pouco conhecimento delas. Mesmo quando a existência de tais crenças é percebida, quase nunca há algum tipo de resposta detalhada à questão da possibilidade dessas alegações serem fundamentadas em eventos sobrenaturais da história.

Esse ensaio é um exame de algumas alegações de ressurreição em religiões não-cristãs desde os tempos antigos até os tempos modernos. A ênfase primária será colocada na questão da possibilidade desses eventos serem historicamente baseados em fatos sobrenaturais. Para alcançar esse objetivo, critérios históricos como também outros critérios críticos serão aplicados a essas crenças religiosas. Depois, alguns comentários serão feitos em relação à questão da possibilidade dessas alegações de ressurreição fornecer alguma base apologética para sistemas religiosos não-cristãos.


1. ALEGAÇÕES NÃO-CRISTÃS DE DEIFICAÇÃO E RESSURREIÇÃO

Como parte do diálogo entre ateus e teístas, (1) Robert Price recentemente alertou que não têm sido dada atenção suficiente aos fenômenos religiosos não-cristãos. Em particular, Price cita os relatos de fenômenos póstumos encontrados em outros sistemas de crenças, citando casos onde antigos heróis eram tidos como tendo sido deificados (que consiste em ascender aos céus ou ser divinizado) ou onde eles supostamente apareceram aos seus seguidores após a morte, geralmente para confortá-los. (2)

Tais alegações não são raras, especialmente desde o surgimento da disciplina História das Religiões no final do século dezenove, que freqüentemente focava a atenção na mitologia antiga e nas religiões de mistério em especial. (3)

Mas tanto devido a esse fenômeno ter sido demasiadamente discutido no último século e especialmente devido ao fato de ser difícil avaliar dados referentes a personagens mitológicos em termos históricos, nós focaremos nossa atenção nas alegações que envolvem personagens reais. (4) Até mesmo Price considera a hipótese mitológica como ‘insustentável’. (5) Por tais razões, pouco será dito, nesse ensaio, em relação a personagens não-históricos (mitológicos) que foram relatados como tendo sido deificados ou ressurgido dos mortos. (6) Para cada um desses casos encontramos inúmeros problemas, como uma séria escassez de dados históricos, relatos que são muito posteriores aos fatos ou histórias sobre personagens mitológicos que jamais existiram.

Nossa atenção será colocada nas relativamente poucas alegações de personagens históricos que foram deificados ou ressurgiram dos mortos. Exemplos da primeira categoria (deificação) incluem Júlio César, Augusto César, Apolônio de Tiana e Antinous. Exemplos da última categoria (ressurreição) incluem o Rabino Judah, Kabir, Sabbatai Sevi, Lahiri Mahasaya e Sri Yukteswar.

Deificação parece ser mais comum no mundo antigo, onde personagens históricos eram tidos como assuntos aos céus e deificados. No período Romano, esse processo era freqüentemente retratado pela visão de um cometa ou estrela no céu onde se acreditava que a alma do herói estava. Por exemplo, Suetônio relata que após a morte de Júlio César,

...um cometa apareceu aproximadamente uma hora antes do por do sol e brilhou por sete dias seguidos. Acreditava-se que isso era a alma de César, elevada aos céus; e, portanto, uma estrela, agora posicionada acima da imagem de sua face divina. (7)

Curiosamente, cometas eram tidos como sinais das mortes dos Imperadores Cláudio e Vespasiano. (8) Durante a cremação de Augusto César, Suetônio relata que “um ex-centurião jurou ter visto o espírito de Augusto subir aos céus em meio às chamas”. (9) Outro exemplo diz respeito à Antinous, o escravo favorito do Imperador Adriano. Quando Antinous morreu, Adriano aceitou o ensinamento de que uma certa estrela foi criada a partir da alma de seu escravo. Adriano construiu uma cidade no local da morte de Antinous e ergueu diversas estátuas em sua honra por todo o Império Romano. (10) Uma antiga estátua de Antinous proclamava sua glorificação aos céus e que ele era Osíris. (11)

Por último, e talvez o principal exemplo de deificação, diga respeito a Apolônio de Tiana, um filósofo neopitagórico do primeiro século que se acreditava possuir diversos poderes especiais, incluindo o poder de realizar milagres. A longa vida de Apolônio foi relatada em detalhes pelo seu principal biógrafo, Filóstrato, que concluiu seu relato alegando que Apolônio desapareceu de um templo e foi, portanto, provavelmente transportado aos céus e divinizado. Também nos é dito que ele apareceu posteriormente em sonhos para um jovem para convencê-lo da realidade da imortalidade. (12)

Em relação aos personagens históricos aos quais se atribui uma ressurreição, cinco casos serão mencionados rapidamente. O Rabino Judah I foi um mestre Judeu expoente que foi o grande responsável pela compilação final da Mishnah por volta de 200 A.D. É relatado nas Gemaras (N.T, uma espécie de comentário da Mishnah.) que, após sua morte em 220 A.D., “Ele costumava voltar para sua casa ao pôr-do-sol todos os Sábados”. Em uma ocasião, um vizinho se aproximou da porta da casa, mas foi logo dispensado pela empregada. Quando o Rabino Judah soube desse incidente, ele parou de voltar para sua casa para não se sobrepor a outras pessoas piedosas que não retornavam às suas casas após a morte. (13)

Kabir foi um mestre religioso que viveu entre os séculos XV e XVI que tentou combinar algumas facetas do Hinduísmo e do Islamismo. Após sua morte, geralmente datada em 1518, foi relatado que os seguidores de Kabir argumentavam entre si se deveriam cremar seu corpo de acordo com os costumes Hindus ou sepultá-lo de acordo com os hábitos Muçulmanos. Para acabar com a controvérsia, o próprio Kabir apareceu aos seus seguidores e mandou que tirassem o tecido que cobria seu corpo. Quando fizeram isso, ao invés do corpo de Kabir encontraram flores. Os Hindus queimaram metade destas flores enquanto os Muçulmanos enterraram a outra metade. (14)

Sabbatai Sevi foi um mestre Judeu do século XVII que alegou ser o Messias, uma alegação que, posteriormente, foi corroborada por um profeta chamado Nathan, um contemporâneo Judeu. Depois da morte de Sabbatai em 1676, foi relatado que seu irmão, Elias, foi ao túmulo e se deparou com um dragão guardando a entrada. Sendo permitido passar, Elias não encontrou o corpo, mas encontrou apenas a caverna totalmente iluminada. Também foi relatado que Sabbatai não morreu realmente, ele apenas pareceu ter morrido, esse ensinamento ganhou grande aceitação entre seus seguidores. Nathan concordou que Sabbatai não havia morrido, e afirmou que ele apareceria em breve. (15)

Um guru Hindu do século XIX chamado Lahiri Mahasaya morreu em 1895 e foi cremado após dizer aos seus seguidores que ressurgiria. Depois, foi dito que ele apareceu a três seguidores, cada um individualmente. Esses encontros foram breves, ocorrendo em três diferentes cidades praticamente ao mesmo tempo. Também foi dito que o corpo de Mahasaya foi transfigurado. (16)

Por último, outro guru Hindu, chamado Sri Yukteswar, morreu e foi sepultado em 1936. Um dos seus principais discípulos, Paramhansa Yoganda, nos conta que uma semana após ter uma visão de Krishna e mais de três meses após a morte de seu mestre, ele testemunhou uma aparição em carne e osso do falecido Yukteswar enquanto ele meditava. Ele relata que tocou o corpo de seu mestre e que conversou durante duas horas sobre a natureza do pós-vida. Yoganda também relata um incidente que ocorreu por volta de três meses antes, onde uma mulher idosa também relatou ter visto Yukteswar após sua morte. (17)

Se tais casos de deificação e ressurreição forem relatos de forma que não tenham passado pelo crivo da investigação crítica (como geralmente acontece) podemos ficar com a idéia de que alegações de fenômenos pós-morte são comuns e podemos até pensar que tais eventos ocorrem com certa freqüência. Alguns pesquisadores, como Price, parecem incentivar o ceticismo em relação a qualquer dado como esse devido aos vários paralelos existentes. (18) Outros, como Yoganda, concluem que houve vários líderes espirituais no mundo religioso que ressurgiram da morte. O interessante é que Yoganda ilustra essa afirmação se referindo à ressurreição de Jesus. (19)

2. CRÍTICA HISTÓRICA DAS ALEGAÇÕES NÃO-CRISTÃS DE RESSURREIÇÃO

Acredito que pesquisadores como Price e Yoganda não são suficientemente críticos de tais alegações. Curiosamente, todo esforço de Price, ao qual nós nos referimos acima, é dirigido à aplicação da critica histórica às crenças cristãs, ainda assim os paralelos não-Cristãos, que ocupam boa parte de seu ensaio, quase nunca são submetidos a críticas similares. (20)

Entretanto, e estranhamente, a abordagem de Price é duplicada por alguns outros estudiosos críticos. Enquanto há, frequentemente, um estudo aprofundado das alegações cristãs, as mesmas pessoas parecem ser bem menos críticas das crenças não-cristãs. John A.T. Robinson discutindo a possibilidade da ressurreição de Jesus, relata uma alegação Budista de deificação. Ele conta a história de um piedoso homem budista cujo corpo, poucos dias após sua morte em 1953, desapareceu de um lençol deixando para trás apenas suas unhas e cabelos. E já que um arco-íris foi visto sobre a casa na qual o corpo estava trancado, os habitantes locais presumiram que ele tinha sido “absorvido e transmutado” para a vida vindoura. E mesmo assim, não há praticamente nenhuma interação crítica com as inúmeras possibilidades críticas que podem ser aplicadas a tal relato. (21)

Mais um exemplo é dado por Charles Hartshorne que, ao discutir a ressurreição de Jesus, relata que todas as religiões relatam milagres. Por causa disso, Hartshorne declara, “Eu não penso que penso que posso escolher entre tais relatos...”. (22) Mas essa última declaração parece presumir que, só porque relatos de milagres existem aos montes, eles estão no mesmo patamar. Entretanto, tal visão (sem levantar a questão se milagres algumas fez já ocorreram) ignora o processo de interação crítica. Será que eles devem ser todos aceitos ou rejeitados en masse simplesmente porque existe uma enorme variedade de tais relatos?

Mas como afirmado anteriormente, temos que ser críticos tanto do ceticismo de Price em relação a todos os relatos como da aceitação de Yoganda da maioria deles, precisamente porque tais conclusões são, com freqüência, assumidas sem analisar os dados. Para ser mais especifico, Price, Yoganda, Robinson e Hartshorne todos estes se negam a aplicar críticas rigorosas as alegações não-cristãs.

Começando com os relatos de deificação, inúmeros problemas intransponíveis surgem imediatamente. Primeiro, as fontes que relatam os dados são relativamente tardias e, portanto questionáveis. Apesar de Suetônio realmente ter tido acesso a alguns relatos oficiais de Roma, ele escreveu 150 anos após Júlio César e aproximadamente 200 anos após Augusto. Apesar disso já ser o bastante para invalidar sua obra, inclusões de para-normalidade são comuns nos seus escritos históricos. (23) Além disso, a crença Romana na adoração do imperador ajuda a explicar as referências à deificação, quase metade dos doze imperadores citados por Suetônio foram tidos como tendo sido deificados após a morte. Dio Cassius também escreveu após aproximadamente 200 anos depois de Adriano.

Segundo, e mais importante, relatos em que se alega que um espírito ascendeu aos céus ou que afirmam que estrelas e cometas indicam a alma glorificada de uma pessoa não contam como evidência histórica de maneira alguma. No máximo, são testemunhos subjetivos que não podem ser expostos, de nenhuma maneira, a verificação.

Terceiro, relatos de deificação, sejam verdadeiros ou falsos, não necessariamente envolvem ressurreição. Em outras palavras, a crença na vida após a morte é totalmente diferente da alegação de que um personagem histórico foi ressuscitado dos mortos e apareceu a seus seguidores, que é o objeto desse estudo.

Como teste, vamos analisar o testemunho de Filóstrato em relação a Apolônio de Tiana, que é provavelmente a maior alegação de deificação. De fato, Price coloca bastante ênfase no relato desse antigo filósofo. (24) E, em particular, encontramos uma incrível série de problemas com qualquer tentativa de validar o relato de Filóstrato. (25)

1. Filóstrato escreveu depois de 100 anos após a morte de Apolônio. Novamente, isso não chega a ser um grande espaço de tempo, mas é suficiente para nos tornar cautelosos ao avaliar as fontes desse autor e o conteúdo de seus relatos.

2. Estudiosos críticos têm julgado a obra de Filóstrato como ficção romântica, uma das formas literárias mais populares do segundo século d.C. Existem diversas indicações de que o objetivo primário do autor não era produzir uma cronológica histórica exata da vida de Apolônio. (26)

3. Existem também sérias imprecisões históricas em sua obra, como as longas excursões de Apolônio para terras não-existentes como Nínive e Babilônia (que tinham sido destruídas centenas de anos antes). Da mesma forma, os diálogos com reis desses locais jamais poderiam ter ocorrido, no mínimo na forma em que são formulados. Isso também leva a questionarmos outras partes de sua obra. (27)

4. Filóstrato era comissionado para escrever sua obra por Júlia Domna, esposa do Imperador Romano Sétimo Severo, e é popularmente crido entre os estudiosos que ela o fez como “oposição a Jesus”. (28) Aqui temos indicações que as similaridades com Jesus eram mais do que coincidência.

5. Alguns duvidam se Damis, o discípulo de Apolônio a quem se atribui a autoria das principais fontes usadas por Filóstrato, sequer tenha existido. (29) E se Damis sequer existiu (diz-se que ele veio da não-existente Nínive, por exemplo), o material de Filóstrato é anônimo e, portanto certamente questionável.

6. Em relação às alegações sobrenaturais, Damis (ou o verdadeiro autor desse relato) “não é digno de crédito” como fonte e sabe-se que ele modificou a vida de Apolônio, especialmente os alegados milagres. Filóstrato adicionou muitos itens fictícios à vida de Apolônio e, novamente, milagres estão entre esses itens. (30)

7. Filóstrato admite abertamente que o relato de Damis termina antes da morte de Apolônio e, portanto nem sua morte nem qualquer alegação posterior são relatadas na única fonte substancial. Então Filóstrato se contenta em relatar “histórias” a respeito da morte de Apolônio explicitamente contraditórias que foram formuladas um século depois da morte dele. (31)

8. Por último, o desaparecimento de Apolônio do templo não fornece evidência para nenhum fato sobrenatural, especialmente deificação. E o sonho de um cético não fornece nenhuma evidência para uma possível ressurreição, especialmente quando sabemos que outros que estavam presentes não viram nada. (32)

Nós concluímos, então, que os relatos antigos de deificação são bastante problemáticos em relação aos seus fundamentos históricos, a falta de qualquer verificabilidade e o fato de que não existe nenhum relato substancial de ressurreição sequer. No nosso exemplo de Apolônio, inúmeros problemas sérios, incluindo o fato de a fonte usada por Filóstrato terminar antes da morte de Apolônio, invalidam a tentativa de afirmar qualquer evidência histórica para fenômenos pós-morte.

Em relação às alegações não-cristãs de ressurreição, a investigação crítica revela outros diversos problemas. Em relação ao relato de aparições pós-ressurreição do Rabino Judah, a questão mais importante é a data do testemunho. Enquanto o Rabino morreu em 220 A.D., a Gemara na qual o incidente está relatado é datada por volta do 5º século, (33) um espaço de tempo muito grande. Adicionalmente, parece haver apenas uma testemunha do evento (a empregada) e não há nenhuma tentativa de fornecer evidências. Isso não é dizer que o fenômeno não poderia ter ocorrido, mas apenas que seria virtualmente impossível sequer começar a comprová-lo.

No caso de Kabir, o principal problema é também a falta de evidências antigas e a falta de documentação de testemunhas oculares. (34) Assim, em relação aos dados históricos, nenhum relato relevante está disponível para exame. E, ao tentar reconstruir os eventos em torno da morte de Kabir surgem ainda mais problemas. Pode ser demonstrado que o desenvolvimento legendário se deu rapidamente nos relatos, especialmente em relação aos pontos envolvendo alegações sobrenaturais, como o nascimento milagroso, os milagres realizados durante sua vida e sua aparição aos discípulos após a morte. De fato, foi descoberto que isso é um processo muito comum e esperado na formação de uma lenda Indiana. (35) Outras críticas (especialmente formulações alternativas) poderiam ser niveladas no caso de Kabir, como faremos depois com outro relato. Mas a presença demonstrada de lendas especialmente nas porções cruciais dos relatos e a ausência de qualquer documentação histórica verificável são, em minha opinião, suficientemente decisivas nesse ponto da nossa investigação visto que isso nos impede de checar essas alegações posteriores de ressurreição.

Agora, o ponto principal nessa investigação não é uma rejeição a priori dos milagres. Nossas críticas do Rabino Judah e de Kabir não são por serem alegações de milagres e, portanto legendárias, mas sim que não há nenhum dado histórico confiável de uma fonte antiga e de testemunha ocular através das quais podemos avaliar tais alegações e compará-las com os testemunhos antigos. Em outras palavras, o ponto crucial não é as alegações de ressurreição. Isso certamente não é nenhuma anomalia. O que é importante é que há uma escassez de verificabilidade para tais alegações. E na ausência dessa documentação crucial, tais conclusões são necessárias.

Outra dos casos favoritos de Price é Sabbatai Sevi, (36) mas esse exemplo, como o de Apolônio de Tiana, revela inúmeros problemas para qualquer um que tente argumentar a favor de uma ressurreição ou qualquer elemento sobrenatural. Histórias de milagres em relação à Sabbatai se disseminaram quase que imediatamente após sua aparição em várias cidades, com cartas da Palestina sendo enviadas para várias comunidades no Norte da Europa. As cartas, que foram enviadas para lugares distantes e diversos, contêm muitos rumores e relatos não substanciados. Como Stephen Sharot afirma:

Havia, frequentemente, largos espaços de tempos entre os ensinamentos de Nathan, os eventos concernentes a Zvi no Oriente Médio, e o conteúdo das noticias. ... As cartas e rumores que relatam milagres e eventos mitológicos e apocalípticos ocorrendo no presente... . (37)

Alguns desses relatos continham algumas alegações estranhas de que as dez desaparecidas tribos de Israel reapareceram na Arábia, que Meca foi destruída e que algumas Igrejas Cristãs tinham sido absorvidas pela terra. (38)

Além disso, 2. Relatos Cristãos, dependentes de relatos judaicos, “adicionaram suas próprias distorções, exageros, e embelezamentos”. (39)

3. Nathan, precursor de Sabbatai, argumentou contra tais relatos milagrosos dizendo que somente a fé era suficiente. (40) Surgem outros problemas em relação às alegações de Sabbatai de ser o Messias.
4. Algumas das atividades e alegações de Sabbatai podem ser explicadas pelo fato de ser sabido que ele era um maníaco depressivo. (41) 5. Mas ainda mais devastador, Sabbatai foi aprisionado por Muçulmanos Turcos e lhe foi dada a escolha de morrer ou se converter ao Islã. Sabbatai não só negou que tivesse feito qualquer alegação messiânica, mas se converteu ao Islã e encorajou alguns de seus discípulos a fazerem o mesmo! A maioria de seus seguidores admitiu que estivessem errados, e alguns ainda se converteram ao Cristianismo. (42)

E em relação à morte de Sabbatai e os fatos posteriores? Novamente, encontramos diversos problemas ainda mais sérios. 6. Apesar de Sabbatai ter morrido em 1676, o principal ensinamento dos Sabbatianos foi que ele apareceu apenas para morrer. Em principio, essa visão pode estar próxima a deificação descrita anteriormente, principalmente em relação aos Imperadores Romanos. (43) 7. Em relação ao incidente no qual Elias, irmão de Sabbatai, encontrou o túmulo vazio, Scholem nota os estágios específicos através dos quais essa lenda se desenvolveu, evidenciado pelos documentos internos do próprio grupo. (44) 8. Enquanto uma carta relata o ensinamento de Nathan de que Sabbatai ainda estava vivo e que Nathan iria encontrá-lo em breve, Scholem aponta que mesmo quando essa carta foi escrita, Nathan já estava morto um mês antes e sem ter encontrado Sabbatai. (45) 9. Por último, aparentemente não havia nenhuma alegação de que Sabbatai apareceu após sua morte, especialmente quando vemos que foi oficialmente ensinado por Nathan que ele sequer tenha morrido! De qualquer forma, não há nenhuma evidência histórica para a ressurreição de Sabbatai.

Em relação às alegações de que Lahiri Mahasaya e Sri Yukteswar ressurgiram dos mortos, novamente precisamos aplicar o mesmo tipo de questionamento critico que nos propomos anteriormente. Apesar de nos ser dito que Mahasaya apareceu a três individuos e Yukteswar é dito como tendo aparecido a dois, um dos quais o tocou, inúmeras perguntas têm de ser feitas.

Por exemplo, todos os cinco relatos de aparição aconteceram para certos indivíduos, enquanto tais indivíduos estavam sozinhos. Especialmente a luz desse fato e a possibilidade de luto na maioria dos casos, alucinação é certamente uma conclusão bem plausível (se não provável). E em relação a outras teorias subjetivas como auto-sugestão, especialmente com pessoas que estavam tão ansiosas por aceitar a crença em tais fenômenos? (46) E fenômenos para-psicológicos como atividades ocultistas não poderiam também ser um fator, o que é certamente possível, se não indicado, na maioria dos casos? (47)

Relatos embelezados através dos tempos é fato conhecido na literatura religiosa, como apontado anteriormente nesse ensaio, mas os relatos acima certamente não eliminam tal possibilidade.

A prática de meditação oriental também precisa ser mencionas como um possível fator contribuinte, no mínimo no exemplo onde Yoganda alega ter visto e tocado seu ex-guru Yukteswar enquanto meditava. Isso é ainda mais provável por Yoganda nos informar que isso aconteceu “uma semana depois da visão de Krishna”, quem ele viu sobre o telhado de uma casa próxima “acenando para mim, sorrindo e acenando a cabeça em forma de saudação”. (48) Para mim, no mínimo, essa última declaração sozinha é suficiente para abalar a credibilidade do testemunho dado no relato da ressurreição. (49) E não devemos descartar a possibilidade de uma plena confusão de diversos tipos em alguns desses relatos. Price aponta um flagrante caso disso na tradição muçulmana. (50) Deve ser relembrado que nenhuma teoria alternativa tem que responder por todas as aparições relatadas. Teorias diferentes (ou até mesmo combinadas) podem ser a resposta.

Novamente, como fizemos antes, devemos também notar que não é o bastante simplesmente relatar um milagre. Tal relato tem que ser substanciado e provado para fundamentar a crença de alguém. E o ônus da prova pertence a quem alega, nesse caso, que uma ressurreição ocorreu. Uma alegação milagrosa requer fortes evidências já que, por definição, tais eventos não são corriqueiros. (51) Mas a prova necessária não é apresentada em nenhum desses casos não-cristãos que nós avaliamos. Simplesmente apresentar um relato de ressurreição não é o mesmo que substanciar ou provar tal caso e, sem evidência para estabelecer o relato, o milagre não pode servir como prova para um sistema de crença religiosa ou teológica.

3. CONCLUSÃO

É um fenômeno interessante o fato de alguns estudiosos que são críticos na sua abordagem as alegações cristãs (52) seja bem menos críticos quando avaliam as alegações não-cristãs de deificação e ressurreição. Mas é necessário dizer que tais alegações não passam satisfatoriamente pelo crivo da investigação histórica. Agora isso não desmente tais crenças; apenas revela que elas não podem ser estabelecidas (ou conhecidas) pela metodologia histórica.

Mas e se mais evidências surgirem no futuro para algumas dessas alegações não-cristãs ou se surgirem casos totalmente novos? E se surgiram evidências antigas para os relatos de Kabir? Ou e se surgiram evidências de diversas testemunhas oculares de uma só vez envolvendo as ressurreições Indianas?

Inicialmente, deve ser mencionado que tais suposições são arbitrárias já que alguém poderá sempre postular a possibilidade de evidências futuras para qualquer proposição. Mas mesmo além disso, nos exemplos de Kabir e dos gurus Indianos (como outros analisados nesse ensaio) tais evidências podem ajudar a eliminar a principal alternativa naturalista, mas não descartariam algumas das outras possíveis hipóteses como as que mencionamos. Mas todas as possíveis teorias naturalistas têm que ser abordadas, simplesmente inúmeros dados seriam exigidos.

Então para concluir, alegações não-cristãs de ressurreição não são provadas pelas evidências. Qualquer das diversas hipóteses naturalistas é possível e, em alguns casos, uma ou mais podem ser postuladas como causa provável. Simplesmente relatar um milagre não é suficiente para estabelecê-lo, especialmente se o milagre for usado para fundamentar um sistema religioso. E para responder uma questão apresentada no inicio desse ensaio, religiões não-cristãs não podem usar suas alegações de ressurreição para fornecer evidências para o sistema em questão se tais alegações não são substanciadas.

Liberty University
Lynchburg
Virginia, U.S.A.



1. 'Christianity Challenges the University: An International Conference of Theists and Atheists', que ocorreu em Dallas, Texas on 7-10 Fevereiro 1985.
2. Robert Price, 'Is There a Place for Historical Criticism?' especialmente pp. 2-3, 14-25.
3. Por exemplo, veja Otto Pfleiderer, The Early Christian Conception of Christ: Its Significance and Value in the History of Religion (London: Williams and Norgate, 1905)
4. Até mesmo Pfleiderer, por exemplo, é critico de sua próprias obras (ibid. pp. 153—9) e concorda que tais relatos mitológicos não podem explicar as origens Cristãs primitivas (ibid. pp. 157-8).
5. Price, pp. 19-20.
6. Exemplos disso são as histórias de Rômulo que foi assunto aos céus e glorificado, aparecendo posteriormente à Julio Proculo (Ovid, Metamorphoses 14.805-51; Fasti 2.481-509). Relatos conflitantes são descritos por Livio, que afirma que Rômulo ou desapareceu num trovão, sendo declarado como deus posteriormente ou que ele foi morto pelos senadores (The History of Rome 1.16). (Curiosamente e similar a outros problemas apontados abaixo, Ovidio e Livio escreverem cerca de 700 anos depois de Rômulo supostamente viveu. Esse grande buraco de tempo se junta a questões quanto a existência de Rômulo.) Hércules, um herói da mitologia Grega, é tido como tendo sido queimado até a morte numa pira funeral, depois sendo assunto aos céus e glorificado por Júpiter. Veja Thomas Bullfinch, Mythology (New York: Dell Publishing Company, Inc., 1959), pp. 122-3. Mas Rouse relata o conto conflitante de que Hércules morreu depois de vestir um manto encantado, depois disso sua alma foi para o céu. Veja W. H. D. Rouse, Gods, Heroes and Men of Ancient Greece (New York: New American Library, 1957), p. 70. Enéias, herói da Iliada de Homero e o personagem principal da obra Aneida de Virgilio, é tido como tendo se estabelecido próximo ao rio Tibre. Tendo desaparecido após uma batalha, foi relatado que ele se juntou aos deuses (Price, pp. 28-9). Aristeu é tido como se tivesse entrado na casa de fuller, onde morreu. Quando seus parentes chegaram, ele não se encontravam em lugar algum. Então passaram a crer que ele foi assunto aos céus. Ele depois, supostamente, reapareceu sete anos depois, desapareceu, e reapareceu de novo, 340 anos depois (Origen, Contra Celso 3.26). Orígenes descreve inúmeras criticas a essas histórias (Contra Celso 3.27-9). Por último, Asclépio era um médico que curava através de medicamentos e óleos. Ele foi morto por Júpiter (Zeus) mas ressuscitou e se colocou entre as estrelhas (Rouse, p. 87) ou entre os deuses (Bullfinch, p. 106). Para os relatos dos deuses de mistério ver Pfleiderer, especialmente pp. 91-100.
7. Suetonius, The Twelve Caesars, traduzido por Robert Graves (Baltimore: Penguin Books, 1957), 1.88.
8. Ibid. v.46 and x.23, respectivamente.
9. Ibid. II.100.
10. Dio Cassius, Roman History, 69.11.2. See David R. Cartlidge and David L. Dungan, Documents for the Study of the Gospels (Cleveland: William Collins, 1980), p. 199.
11. Ibid. p. 198.
12. Philostratus, The Life of Apollonius of Tyana, translated by F. C. Conybeare, two volumes, Loeb Classical Library (Cambridge: Harvard University Press, 1969), especially vm.3i.
13. Israel W. Slotki, editor, The Babylonian Talmud (Seder Nashim, Kethuboth), translated by S. Daiches (n.p.: The Rebecca Bennett Publications Inc., 1959), Vol. III, XII.103A.
14. James Hastings, editor, Encyclopedia of Religion and Ethics, s.v. 'Kabir, Kabirpanthis', pp. 632-4.15.
15. Veja especialmente Gershom Scholem: The Mystical Messiah (Princeton: Princeton University Press, 1973), 00. 917-29.
16. Paramhansa Yoganda, Autobiography of a Yogi (Los Angeles: Self Realization Fellowshi, 1956), pp. 348-50
17. Ibid. pp. 413-33
18. Price, especialmente pp. 14-25, 28-30
19. Yoganda, p. 3131; cf. p .349
20. Price, pp. 2-3
21. John A.T. Robinson, The Human Face of God (Philadelphia: Westminster Press, 1973), pp. 138-9.
22. Veja a resposta de Charles Harshorne no livro Did Jesus Rise From the Dead? The Resurrection Debate (San Francisco: Harper and Row, 1987), p.137.
23. Veja o prefácio de Robert Graves ao livro The Twelve Caesars, p. 7 de Suetônio
24. Price, pp. 19, 23, 28-9
25. Deve ser cautelosamente observado aqui que Price não duvida que tenha muita lenda nos relatos de Filóstrato, como ele diz (pp. 23,29). Ainda assim, ele não submete os relatos de Filostratos ao mesmo tipo de critica histórica que ele aplica ao Cristianismo.
26. Para detalhes, veja Howard Kee, Miracle in the Early Christian World New Heaven (Yale University Press, 1983), p. 253; Hastings, p. 699; S.A. Cook, editor, The Cambridge Ancient Histon. xn Cambridge: Cambridge University Press, 1965), p.611.
27. Por exemplo, também é reconhecido pela maioria dos estudiosos que Filóstrato colocou palavras na boca de Apolônio que este jamais poderia ter dito, como é indicado pelo fato de algumas dessas porções são tiradas de outras obras do próprio Filóstrato (como por exemplo Lives of the Sophists).
28. James Ferguson, The Religions of the Roman Empire (Ithaca: Cornell University Press, 1970), p.51. Cf. Cook, p.613; Hastings, p.610.
29. Ferguson, p. 182; Kee, p. 25; Charles Bigg, The Origins of Christianity (Oxford: Clarendon Press, 1910), p. 306.
30,. Para esses problemas, veja a Introduction to Philostratus Work de Conybeare, páginas vii-x. Cf. Carlidge and Dungan,p.206.
31. Philostratus, VIII.29
32. Ibid, VIII.31.
33. Conversa pessoal com Asher Finkel, Seton Hall University, 24 de Maio de 1988.
34. Enquanto alguns dos dizeres de Kabir foram copiados por volta de 50 anos depois de sua morte, os estudiosos contemporâneos não estão certos sobre exatamente quais desses ensinamentos foram dele e quais foram acrescentados após a vida de Kabir, , especialmente desde que os poemas e versos são frequentemente misturados com os de outros autores. Mas de qualquer forma, esses escritos não incluem os dados históricos em questão. Veja, por exemplo, John Clark Archer, The Sikhs (Princeton: Princeton University Press, 1946), pp. 50, 52-
35. Mohan Singh, Kabir and the Bhagti Movemtn (Lahore, 1934). Ver Archer (pp. 63-4) que sumarizou a demarcação de Singh dos passos através dos quais as lendas se desenvolveram nos ensinamentos sobre Kabir.
36. Price, pp. 4-5, 9-10, 27
37. Stephen Sharot, Messianism, Mysticism and Magic: A Sociological Analysis of Jewish Religious Movemtns (Chapel Hill: University of North Carolina, 1982), pp. 87-8,90.
38. Ibid. p.88.
39. Ibid.
40. Ibid. pp. 87-8
41. Ibid. p.91; Gernshom G. Scholem, Major Trend in Jewish Mysticism (New York: Schocken Books), p. 90.
42.Para ver o relato de Sharot desses eventos, ver pp. 115-17
43.Scholem, Sabbatai Sevi, pp. 920, 922-4; Sharot, p. 122.
44. Scholem, ibid. pp. 919-20
45. Ibid. p. 925.
46. Yoganda, pp. 313, 349.
47. Por exemplo, um ex-guru Indiano afirma: “Meu mundo estava cheio de espíritos e deuses e poderes ocultos, e minha obrigação desde a infância era dar-lhes o que lhes era devido.” Ver Rabindranath R. Maharaj (with Dave Hunt) Escape in to the Light (Eugene: Harvest House Publishers, 1984), p. 24. Esse volume foi pela publicado pela primeira vez com o nome de “ Death of a Guru (Philadelphia: H.J.Holman, 1977).
48. Yoganda, p. 413.
49. A simples incrivel natureza da alegação de ter visto Krishna, atrevo dizer, já perturbaria muitos pesquisadores. Mas além disso (pois não devemos rejeitar alegações a priori), como Yoganda poderia ter reconhecido e identificado Krishana mesmo se o tivesse visto? E se há um problema aqui, o que falar da visão de Yukteswar? Em outras palavras, se Yoganda não pode positivamente identificar Krishna com certeza (ou no mínimo num sentido evidencialista), o que pode ser dito em relação a outra alegação de aparição, que também foi bastante subjetiva? De fato, eu diria, no mínimo, que Yoganda comprometeu seriamente seu testemunho.
50. Price, p.13.
51. De forma geral, eu penso que é verdadeiro que as pessoas precisam de mais evidência para aceitar um evento extraordinário do que aceitar uma ocorrência corriqueira. Apesar de discordar da posição de David Hume de que nenhuma evidência pode estabelecer um milagre. (Para entender a posição de Hume em relação a isso veja a seção “Of Miracles”, parte 10 de An Enquiry Concerning Human Understanding.)
52. Estranhamente, apesar de Price ser critico das alegações cristãs, ele conclui sua discussão sobre a ressurreição de Jesus com este comentário intrigante: “...não é necessário presumir que não houve ressurreição. De fato, foi precisamente por experiências de algum tipo... que alguém ser importou em glorificar Jesus” (p.20).

segunda-feira, 4 de agosto de 2008

O NT foi adulterado pelos copistas?

Comentário sobre as alegações de Bart D. Ehrman, autor de "O Que Jesus Disse o Que Jesus Não Disse?"



Créditos: Maximiliano Mendes

quinta-feira, 26 de junho de 2008

Eu li... The New Testament and Criticism - George Eldon Ladd


Outro bom livro sobre Crítica Bíblica, este cobre não só a Crítica Textual mas, também outras áreas da Crítica como Literária e Histórica. Ladd foi professor de Exegese do Novo Testamento no seminário Fuller, neste livro, mais do que explicar os métodos da Crítica Bíblica, Ladd faz uma filosofia da crítica, questionando as pressuposições e preconceitos dos liberais para com os conservadores. Ser crítico não é mostrar quantos versículos do NT são interpolados, mas, avaliar imparcialmente as evidências e se posicionar aonde elas apontam, mesmo quando as evidências apontam para conclusões super-naturais, não devemos deixar com que nossas pressuposições filosóficas contaminem nossas conclusões. Leitura recomendada.

terça-feira, 24 de junho de 2008

Eu li... Crítica Textual do Novo Testamento - Wilson Paroschi


Sem muito tempo para atualizar o blog e resenhar livros, serei breve. Wilson Paroschi é um Teólogo brasileiro especializado em Crítica Textual (CT), atualmente está concluindo seu Ph.D na Andrews University, USA. Este livro é uma ótima introdução à CT, assunto este tão controverso e fascinante. Ele explica os principais métodos da CT, a história do texto do NT, os manuscritos e traduções. Imparcial e conservador. O conhecimento de CT é essencial para o apologeta e, por que não, para o Cristão comum, pelo menos no nível básico, visto ser assunto bastante controverso e que levanta muitas dúvidas. É um livro útil para ser usado como base para estudos nas Escolas Bíblicas de nossas Igrejas. Após ler o livro, ficamos com aquele sensação cuja qual todo àquele acostumado com a apologia do Cristianismo está acostumado: "Mais uma vez a ortodoxia prevalece". As modernas descobertas da CT apoiam a visão conservadora do Cristianismo, o livro deixa isso claro e de forma bem imparcial. Paroschi comenta sobre a descoberta do papiro 7Q5 nas cavernas de Qumran que data do ano 52-53 d.C. e provavelmente é trecho de Marcos 6.52-53, o que colocaria o Evangelho numa posição de confiabilidade inquestionável. Eu recomendo o livro, aliás, não somente eu, mas, o livro também conta com o endosso do renomado Crítico de Princeton, Bruce M. Metzger: "Felicito o Prof. Paroschi pelo preparo desta excelente obra. Estou certo de que muitos estudantes vão achá-la extremamente útil".

terça-feira, 27 de maio de 2008

Eu li... Merece Confiança o Novo Testamento? - F.F. Bruce

Merece Confiança o Novo Testamento?
F.F. Bruce


Essa é uma obra clássica de F.F.Bruce no campo da apologética histórica do Novo Testamento. Livro pequeno e fundamental para a atividade apologética. Mas será necessário mesmo investigarmos a validade histórica do Novo Testamento? Não é suficiente a ética e a mensagem positiva do Sermão do Monte e dos evangelhos? F.F. Bruce responde a essas objeções dizendo que isso pode valer para qualquer religião ou sistema filosófico, mas, o cristianismo tem sua validade profundamente arraigada na história, o Cristianismo é mais do que os ensinamentos de Cristo, é a história da Salvação que começou na Queda e culmina em um fato histórico - a ressurreição do Filho de Deus. "Uma vez que se arroga o Cristianismo o caráter de revelação histórica" diz o autor "longe está de ser irrelevante a consideração de seus documentos básicos no enfoque da crítica histórica". A linha de argumentação de Bruce é demonstrar que as bases para a fidedignidade do Novo Testamento em geral e os Evangelhos em particular, é muito superior quando comparado com as bases para a fidedignidade de textos clássicos da antiquidade. Por exemplo, A Íliada de Homero que tem 643 manuscritos antigos e 500 anos separam o original da primeira cópia, o que é muito frágil se comparado com o Novo Testamento e suas 5600 cópias e 50 anos entre os originais e a primeira cópia. E nessa comparação o autor é sem dúvidas bem sucedido. Se o crítico quiser rejeitar os textos do Novo Testamento como lendários ou não confiáveis terá que emitir o mesmo julgamento em relação a praticamente todos os textos antigos - é esse o dilema que Bruce derruba sobre os ombros dos criticos.

Mas o que acontece na realidade é um julgamento bastante injusto. De dois pesos e duas medidas. O que se exige do Novo Testamento não se exige de nenhum outro texto antigo, tudo isso é baseado num pressuposto naturalista não justificado. Se relata milagres, logo, é falso, pressupõe arbitrariamente os criticos. E contra isso não há evidência textual e histórica que possa vencer. A raíz do problema, como demonstra Bruce, não está na história, mas sim em pressupostos filosóficos injustos e arbitrariamente aplicados à teologia. É claro, não podemos ser ingênuos a ponto de acreditar que cada vírgula do Novo Testamento pode ser comprovada historica e textualmente. Mas o que importa na avaliação de um texto histórico são os pontos centrais, e nesses pontos o Novo Testamento passa por qualquer prova. E são a partir desses particulares que inferimos quanto ao universal. Para aqueles que têm fé há base segura para se crer na inerrância, ainda que certos pontos conflitam com algumas descobertas da história, porém, a partir dos particulares podemos conceder o benefício da dúvida ao texto como um todo. Para aqueles que não crêem na inerrância, é certo que confiam em outros historiadores mesmo sendo não inerrantes, mas que nem por isso deixam de ser confiáveis. Se confiamos em um historiador qualquer por observarmos que suas conclusões são coerentes com a realidade, podemos igualmente confiar nos autores do Novo Testamento, pois estes são igualmente - senão mais - coerentes com os fatos históricos.

Apesar de ser um livro antigo, as suas informações ainda são sólidas. Conta Bruce de uma ocasião em que Hegel estava dando uma aula de filosofia da história e um aluno lhe replicou "Mas, Professor, os fatos lhe são contrários". A resposta de Hegel? "Tanto pior para os fatos!" Isso exemplifica o tipo de atitude que os criticos têm para com a Bíblia que nada têm de racional. Se um cético analisar imparcialmente a história dos textos neotestamentários terá duas opções, ou admitir a confiabilidade destes ou negar a sua própria racionalidade.

sábado, 3 de maio de 2008

Eu li... Por que 4 Evangelhos? - David A. Black

Por que 4 Evangelhos? - David A. Black

Resolvi ler esse pequeno livro como fonte para um trabalho para a faculdade. É um livro breve e simples, não tem muito conteúdo. A tese do autor é que Mateus precede os outros três Evangelhos, e Marcos teria sido escrito baseado em uma série de palestras do Apóstolo Pedro que teve como fonte de referência o Evangelho de Mateus e de Lucas. Essa teoria é fruto do estudo e da crença na confiabilidade dos pais da Igreja. É um livro interessante, mas não é um livro indispensável.

terça-feira, 1 de abril de 2008

Eu li... O Que Jesus Disse? O Que Jesus Não Disse? Quem Mudou a Bíblia e Por Quê - Bart Ehrman

...e gostei!
O Que Jesus Disse? O Que Jesus Não Disse? Quem Mudou a Bíblia e Por Quê
Bart. D. Ehrman



Nem só de Richard Dawkins vivem os céticos. Bart D. Ehrman, Ph.D em Teologia pela Princeton University, também provê munição aos questionamentos do cristianismo ortodoxo. A diferença é que ele ataca justamente aquilo que pode destruir a fé cristã – o Novo Testamento. Nesse livro sua intenção é justamente mostrar que o Novo Testamento, como nós o conhecemos não é confiável por ter sido vitima de milhares de alterações voluntárias e involuntárias nas mãos dos copistas ao longo dos séculos.


Antes de começar a ler esse livro eu já tinha uma “conclusão” em mente. "É mais um ataque ridículo e infundado à fé cristã". Ao longo da leitura o livro me surpreendeu positivamente pela sua qualidade e fundamentação. Embora, eu acredite que o objetivo do autor passou longe de ser alcançado.


Bart começa seu livro narrando sua história de conversão, seu processo de nascer-de-novo, o preenchimento do vazio interior, que segundo o próprio era simplesmente devido ao fato de ser um adolescente. Para ele esse vazio é natural na fase da adolescência. O autor interpreta criticamente sua história de conversão e a atribui a persuasão de seu líder Bruce da Youth For Christ e de sua capacidade de citar a Bíblia espontaneamente. Tudo era muito persuasivo. Bart decidiu entrar para o Moody Bible Institute, seu objetivo inicial era se tornar uma voz ativa do meio cristão entre os pesquisadores seculares. Mas ao ter contato com a língua grega, ele começa a perceber a diferença os “originais” em grego e as traduções modernas da Bíblia. Ele então começa a ser perguntar se a doutrina da inspiração não é exclusividade da elite acadêmica, visto que dos manuscritos gregos às traduções há grandes divergências que não permitem uma compreensão precisa do sentido dos textos bíblicos. Até que em Princeton, depois de argumentar numa monografia, tentando justificar um erro textual de Marcos 2 onde diz “Quando Abiatar era sumo sacerdote” (Que na verdade era Abimeleque, seu pai. 1Sm 21.1-6) recebe como resposta de seu professor um “Talvez Marcos simplesmente tenha errado.” Essa resposta fez as comportas se abrirem, provavelmente haveriam outros erros nas Escrituras.


Bart então nos mostra a importância do livro para o cristianismo, não só dos textos sagrados, mas também martirológios, apologias, tratados e regras eclesiásticas. O segundo capitulo é sobre a ignorância dos copistas antigos que muitas vezes sequer sabiam ler (!) mas apenas copiavam o que “liam” por imitação, isso aliado ao estado em que se encontravam os textos gregos – muitos deles eram escritos em scriptuo continua, ou seja, sem pontuação e as vezes sequer espaço entre as palavras – tornavam a tarefa de reproduzir um texto altamente problemática. Bart cita o fato de as primeiras cópias dos livros do Novo Testamento serem produzidas não por copistas profissionais, mas sim pelos membros ricos e instruídos das Igrejas como um motivo a mais para descrermos na precisão das cópias. O curioso é que no capitulo anterior, Bart diz que os copistas profissionais muitas vezes sequer sabiam ler, ora, se essa era a realidade não seria então de se esperar que as cópias produzidas pelos membros mais instruídos das Igrejas fossem ainda mais precisas?


Vamos agora analisar alguns dos problemas textuais que Ehrman nos mostra.


A Epístola de Paulo aos Gálatas. “
Provavelmente esta carta foi não escrita pelo próprio Paulo, mas sim ditada por ele a um copista-secretário. A prova disso vem no fim da carta, onde Paulo acrescentou um pós-escrito de próprio punho, para que os destinatários pudessem saber que ele era o responsável pela carta (uma técnica comum em cartas ditadas na Antiguidade): “Vejam por essas letras grandes que eu estou escrevendo a vocês de próprio punho” (Gl 6,11). Em outras palavras, sua escrita de próprio punho era maior e provavelmente de aparência menos profissional que a do copista a quem ele ditara a carta. Assim sendo, se ditou a carta, Paulo a teria ditado palavra por palavra? Ou teria exposto os pontos básicos e permitido ao copista preencher o resto? Ambos os métodos eram comumente usados por aqueles que escreviam cartas na Antiguidade. Se o copista preenchia o restante, como podemos ter certeza de que o fazia exatamente como Paulo queria? Se não, temos realmente as palavras de Paulo, ou serão elas palavras de um copista desconhecido? Mas, suponhamos que Paulo ditasse a carta palavra por palavra. É possível que em algumas passagens o copista tenha escrito palavras erradas? As coisas mais estranhas podem ter acontecido. Se foi assim que se deu, então o autógrafo da carta (isto é, o original) já teria um “erro” em si, de modo que todas as cópias subseqüentes não seriam cópias das palavras de Paulo (nos lugares onde seu copista cometera erros.)” (EHRMAN, p. 68-9). Muita argumentação mas pouca eficiência. Bart tenta desqualificar não só as cópias mas sim já o próprio original! Toda sua argumentação pode ser destruída com um pouco de raciocínio. Oras, não é de se esperar que após ditar uma carta o autor a releia para saber se o que foi escrito condiz com o que ele ditou? Mas é óbvio! Mesmo se na releitura alguma alteração passasse despercebida aos olhos de Paulo certamente não seria uma alteração de conseqüências catastróficas a fé cristã! Isso mostra a necessidade que os céticos têm de enxergar problemas onde eles simplesmente não existem. Muito barulho por nada.


1Corintios 5-8.
Paulo nessa passagem nos adverte contra a perversidade. Isso pelo menos é o texto ao qual nós temos acesso pelas nossas traduções. Mas em alguns manuscritos não é contra a perversidade (PONERAS) que Paulo nos adverte, mas sim contra a imoralidade sexual (PORNEIAS). Mas será que isso alteraria alguma regra de conduta do cristianismo? Tanto a imoralidade sexual quando a perversidade não são condenadas em inúmeras outras passagens das Escrituras? O fato de (talvez) não sabermos o que Paulo escreveu realmente em nada altera a fé que nós conhecemos e praticamos.


Apocalipse 1.5.
Também aconteciam erros com palavras homófonas, isto é, com fonia idêntica, isso acontecia quando um copista copiava um texto que estava sendo ditado. No caso de Ap 1.5 onde o autor diz “nos livrou de nossos pecados”. O termo grego para “livrou” (LUSANTI) soa exatamente como o termo “lavou” (LOUSANTI). Portanto, não é de surpreender quem em certo número de manuscritos medievais o autor ore àquele que “nos lavou de nossos pecados”. Mais uma vez, quais são as conseqüências da divergência entre “livrou” ou “lavou”? Absolutamente nenhuma! O sentido permanece o mesmo seja qual for a palavra utilizada


Romanos 12.11.
Muitas vezes, para ganhar tempo e espaço, os copistas abreviavam certas palavras. Abreviaturas muito comuns envolviam o que os pesquisadores chamam de nomina sacra (nomes sagrados), um grupo de palavras como Deus, Cristo, Senhor, Jesus e Espírito, que vinham abreviadas ou porque ocorriam muito freqüentemente ou para mostrar que elas deviam ser objeto de atenção especial. Por vezes, essas várias abreviaturas levavam copistas posteriores a uma espécie de confusão, porque eles confundiam uma abreviatura com outra ou tomavam uma abreviatura por uma palavra inteira. Por exemplo, em Romanos 12.11, Paulo exorta seu leitor a “servir ao Senhor”. Mas a palavra Senhor, KURIOW, geralmente era abreviada nos manuscritos por KW (com uma linha em cima), o que levou alguns copistas antigos a entendê-lo como abreviatura de KAIRW, que significa “tempo”. Desse modo, nesses manuscritos, Paulo exorta seu leitor a “servirem ao tempo”. Mais uma vez não resta dúvidas sobre qual palavra constava no texto original de Paulo, o próprio Bart explica o motivo da confusão.


Existem outras controvérsias textuais citadas pelo autor como a dúvida em relação autenticidade da história da mulher adúltera em João 8, os 12 últimos versículos de Marcos, a passagem de 1 João que afirma explicitamente a Trindade entre outras. Mesmo se tais passagens não forem autenticas elas não têm a capacidade de alterar nada do que os cristãos crêem, visto que a misericórdia de Jesus Cristo não é exclusividade da história de João 8, a ressurreição de Jesus Cristo não é exclusiva dos versículos finais de Marcos (vide o credo de 1Co15!), e a Trindade pode ser deduzida de outras passagens da Escritura além da passagem de 1 João. O sentido pleno das Escrituras não é ameaçado por controvérsias textuais, não é a toa que Bruce Metzger, mentor de Bart Ehrman, afirmou que o Novo Testamento é 99.5% puro em relação ao original. Não é de se surpreender que em alguns manuscritos existam alterações grosseiras ao texto bíblico, já que é de se esperar que assim como muitos deturpam o sentido das Escrituras hoje, o mesmo acontecesse no passado. Pode ser verdade que não possamos ter certeza de 100% das palavras contidas no Novo Testamento (Pensem em quantas pregações são baseadas em uma única palavra das Escrituras!), mas podemos ter certeza da confiabilidade do conjunto. Termino o livro com uma sensação de “era só isso?”. É um excelente livro para o primeiro contato com a critica textual e as controvérsias do texto do NT, abre nossa mente e na minha opinião edifica a nossa fé, mas não é suficiente para destruir o fundamento da nossa fé – o Novo Testamento.



 
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