Sorteio do livro "A Ameaça Pagã"
O livro “A ameaça pagã”, escrito pelo Dr. Peter Jones, professor no Westminster Seminary da Califórnia, foi-nos presenteado para ser sorteado.
Argumentum ad Religiosum
Cresce o uso de uma nova falácia. Aquela que busca invalidar a posição de um adversário devido à sua religião.
A Guerra Global Contra os Cristãos no Mundo Muçulmano - Ayaan Hirsi Ali
Ayaan Hirsi Ali, autora de 'Infiel', retrata o perigo que sofrem as minorias religiosas em países de maioria muçulmana.
O Jesus dos Evangelhos: Mito ou Realidade?
Resenha do debate entre William L. Craig e John Dominic Crossan

Estou cansado! - Robert Hall
Neste artigo o veterano da marinha americana Robert Hall desabafa sobre o atual estado de coisas da cultura e política norteamericana.
A Esquerda e o Prenúncio de um Embate com os Evangélicos
A esquerda tem se preparado para um embate com os evangélicos. O Ministro Gilberto Carvalho (PT) já alertou quanto à "ameaça" evangélica. Agora, em certo blog, deparo-me com um texto onde a rivalidade com os evangélicos é mais uma vez incitada.
quinta-feira, 18 de novembro de 2010
UNIVERSIDADE MACKENZIE: EM DEFESA DA LIBERDADE DE EXPRESSÃO RELIGIOSA
sábado, 17 de janeiro de 2009
Quando Cosmovisões Colidem: C.S.Lewis e Freud - Parte II de II
Armand Nicholi
Dr. Armand Nicholi é professor da Escola de Medicina de Harvard há 20 anos. Ele também ministra um curso popular na Universidade de Harvard sobre as cosmovisões contrastantes de Sigmund Freud e C.S.Lewis.
C.S. Lewis e Sigmund Freud: uma comparação de seus pensamentos e de suas visões sobre a vida, a dor e a morte.
Parte Dois
O seguinte artigo é adaptado de uma preleção do Dr. Armand Nicholi em uma reunião de alunos e professores promovido pela Dallas Christian Leadership na Southern Methodist University em 23 de Setembro de 1997. Na parte um , Nicholi explicou as visões de Freud sobre Deus e o Sofrimento.
Essas são algumas das influências que pressionaram Lewis a mudar sua cosmovisão: Primeiro, Lewis gradativamente se tornou ciente de que a maioria dos grandes autores que ele vinha lendo por anos, eram crentes. Isso começou a fazê-lo pensar. Então, ao reler Eurípedes e Space, Time and Deity de Samuel Alexander, Lewis foi forçado a pensar sobre um profundo anseio dentro de si mesmo; ele reconheceu que era um tipo de anseio que ele experimentava periodicamente mas não conseguia entender bem. Ele chamou isso de "alegria" e escreveu bastante sobre isso. Ele percebeu que essa alegria não era um fim em si mesmo, mas um lembrete de algo ou alguém maior. Posteriormente, ele veio a crer que esse alguém é o Criador.
Segundo, Lewis ficou chocado durante uma conversa com um dos seus colegas professores de Oxford ao ouvir ele, um ateu declarado, afirmar que as evidências para a autenticidade dos evangelhos eram muito boas. As evidências eram persuasivas e as histórias dos Evangelhos pareciam ser verdadeiras. Lewis disse que é impossível compreender o impacto que isso teve nele vindo desse membro específico da faculdade.
Terceiro, ele leu O Homem Eterno de G. K. Chesterton e finalmente passou a crer em Deus. Ele escreve sobre isso de forma sucinta em Surpreendido pela Alegria:
Você tem que me imaginar sozinho naquele quarto em Magdalene, noite após noite, sentindo, a todo momento que minha mente se desviava do meu trabalho, a permanente, e persistente aproximação dEle, o qual eu não queria encontrar de maneira alguma. O que eu temia, finalmente, me sobreveio. No Trinity Term de 1929 eu finalmente desisti, e admiti que Deus era Deus, e me ajoelhei e orei: talvez, aquela noite, o mais relutante e desapontado convertido de toda Inglaterra.
Nesse momento Lewis era um teísta, não um Cristão. Ele se ocupou por muitos longos meses para entender a história do Evangelho e as doutrinas da redenção e ressurreição. Ele chegou a ler o Evangelho de João em Grego.
A conversão de Lewis revolucionou sua vida. Ele se tornou um prolifíco autor, vendendo milhões de cópias de livros e influenciando muitas pessoas em universidades, especialmente nesse país e na Europa. Devido ao fato dele mesmo ter sido ateu pela primeira metade de sua vida, ele conhecia os argumentos muito bem. Por exemplo, Lewis concordava com Freud em crer que nós, de fato, possuímos um profundo desejo por Deus, mas ele discordava com a noção de Freud de que Deus, portanto, era nada mais do que produto da satisfação de um desejo. O que nós desejamos, Lewis apontou, não tem nada a ver com a questão de se Deus existe ou não. De acordo com a teoria de Freud, o desejo da não-existência de Deus seria tão forte quando o desejo de sua existência. Lewis, portanto, disse que tudo que isso nos diz é algo sobre nossos sentimentos, mas muito pouco sobre a existência ou inexistência de Deus. Então Lewis tendia a responder a maioria dos argumentos formulados por Freud.
A Questão da Mortalidade
Vamos mudar agora para nosso segundo assunto, a questão da mortalidade, a qual Freud se referiu como "o doloroso mistério da morte." Sócrates disse que o verdadeiro filósofo está sempre negando a morte e o ato de morrer. E, de fato, a maioria dos grandes escritores escreveram continuamente sobre isso.
Uma questão fundamental da nossa existência, uma que aprendemos ainda cedo na vida, é que nós estamos aqui na terra por um curto período. Nós somos as únicas criaturas na terra que podem prever nossa própria morte. Ao mesmo tempo, nós temos um profundo anseio pela permanência e um profundo e penetrante medo de sermos separados daqueles que nós amamos sendo abandonados. O medo de ser abandonado é o primeiro medo que experimentados quando crianças, um bebê chora quando sua mão sai do quarto. Pesquisas no Hospital Geral de Massachusetts mostraram que, em pacientes terminais, isso é o que eles mais temem, o medo de serem deixados sozinhos, de serem abandonados. É um medo temos em mente por toda nossa vida. Ainda assim não podemos escapar da cruel realidade de que cada respiro que damos, cada batida do coração, cada hora do dia nos aproxima ainda mais da hora em que deixaremos para trás aqueles que nós amamos.
Agora, como você processa essa informação? Como você entra em acordo com isso? Os psiquiatras dizem que essa questão é tão importante que você não pode realmente viver sua vida até que entre em um acordo com essa informação. Mas como você processa isso sem se encher de ansiedade ou e medo? Isso é o que Freud chamou de "o doloroso mistério da morte."
Freud e o Mistério da Morte.
Freud escreveu frequentemente sobre a morte. Eu mencionarei apenas uns poucos comentários que ele escreveu e como ele frequentemente se confrontava com sua própria morte.
Em 1932, numa obra chamada Totem e Tabu, Freud fez a interessante observação de que a morte não existe na nossa mente inconsciente: "Nosso inconsciente não acredita em sua própria morte. Ele se comporta como se fosse imortal. Nós não conseguimos imaginar nossa própria morte e quando tentamos fazê-lo nos apercebemos que somos, de fato, ainda espectadores, assim, ninguém crê em sua própria morte." Freud evitou dar qualquer interpretação filosófica dessa observação provocadora de que nas profundezas de nossas mentes, "todos nós estamos convencidos de nossa imortalidade."
Em O Futuro de uma Ilusão, Freud falou frequentemente sobre o doloroso mistério da dor. Ele terminou um ensaio com a curiosa sugestão de que se você quer suportar a vida você deve estar preparado para a morte. Ele pareceu perceber o que as pessoas na minha área tem falado durante anos, que nós não podemos realmente começar a viver nossas vidas até, de alguma forma, resolver o problema da nossa própria morte. E quando isso permanece não resolvido, gasta-se uma energia excessiva ou negando a morte ou se tornando obcecado com ela.
Freud não deixou dúvidas sobre como ele lidava com o problema. Ele se tornou obcecado com a morte. Seu colega Ernst Jones, seu biografo oficial, escreveu:
Pelo que sabemos da vida de Freud, ele parece ter sido possuído por pensamentos de morte. Mais do que qualquer grande homem que eu posso imaginar. Mesmo na época que estávamos nos conhecendo ele tinha o desconcertante hábito de partir dizendo "Adeus. Você talvez não me verá nunca mais." E então haviam os repetidos ataques do que ele chamava de "o pavor da morte". Ele odiava envelhecer. Mesmo quando ele tinha quarenta anos e a cada ano que se passava, os pensamentos de morte se tornavam cada vez mais despóticos. Ele disse uma vez que ele pensava sobre isso cada dia de sua vida, o que é bastante incomum.
Freud sonhava com a morte continuamente, e desde cedo em sua vida ele era obcecado em prever sua morte. O médico de Freud descreveu sua preocupação com a morte como supersticiosa e obsessiva. Freud estava certo que morreria aos 41, depois aos 51, depois 61, depois 62, depois aos 70. Ele entrava num hotel e se lhe fosse entregue o quarto 63. Ele saia e permanecia, por meses, convencido de que morreria aos 63 anos. Quando Freud perdeu um ente querido, ele se sentiu totalmente desesperançoso. Numa carta para Jones, ele escreveu, "Eu tinha a sua idade quando meu pai morreu e isso revolucionou minha alma. Você consegue se lembrar de um tempo tão cheio de morte quanto esse?" Quando tinha 64 anos, Freud perdeu uma jovem e linda filha, e ele se perguntava quando chegaria a sua hora. Ele desejava que fosse logo. Ele disse, "Eu não sei o que resta dizer depois de um evento paralizante como esse que não gera nenhuma dúvida posterior para quem não é crente" . Em outra carta ele escreveu, "Como um descrente, eu não tenho ninguém para acusar e não há lugar onde fazer uma queixa." Três anos depois o neto favorito de Freud morreu de tuberculose. Ele escreveu para um amigo, "Isso é difícil de suportar. Eu acho que jamais experimentei tamanha dor. Talvez minha própria doença contribua para isso. Eu trabalho por pura necessidade. Tudo perdeu o sentido para mim." E em outra carta ele afirmou, "Para mim, essa criança tomou o lugar de todos os meus filhos e netos já que eu não me importo com nenhum dos meus netos. Eu não encontro nenhuma alegria na vida."
Freud morreu aos 83 anos depois de uma batalhar contra um câncer que durou 16 anos. Seu livro favorito era o Fausto de Goethe, a história de Fausto fazendo um pacto com o diabo. Logo antes de Freud morrer, ele foi até a estante da livraria e pegou um livro de Balzac entitulado The Fatal Skin, no qual o personagem principal também faz um pacto com o diabo. O livro termina quando o herói não consegue controlar seu medo da morte e morre em estado de pânico. Estranho, como último livro. Depois de ler o lviro, Freud lembrou seu médico da promessa que ele havia feito de facilitar sua passagem quando o tempo tivesse chegado. Seu médico injetou dois centigramas de morfina que o fizeram dormir, então 12 horas depois ele injetou mais dois centigramas. Freud morreu às três da manhã do dia 12 de Setembro de 1939.
C.S. Lewis e a Morte
C.S. Lewis também escreveu sobre a mortalidade. Em O Problema do Sofrimento, Lewis descreve como, quando ateu, o problema do sofrimento humano, especialmente a capacidade humana de prever sua morte enquanto intensamente deseja permanecer, foi uma barreira para ele crer num Deus bom e todo-poderoso. Após sua conversão, ele entendeu a morte como um resultado da queda, uma transgressão das leis de Deus, e que a morte não era parte do plano original. (Talvez essa seja a razão de não termos símbolo para a morte no nosso inconsciente, e termos tamanha dificuldade em aceitar nossa mortalidade.)
Lewis fez referência frequente ao principio básico que a morte ilustra. Quando tinha 31 anos, antes de sua conversão, Lewis escreveu uma carta que afirmava, "Eu penso que eu entendo isso todo ano no Outono, assim como a simples natureza e a exuberante vida do mundo está morrendo, de que algo mais está acordando. Será que isso é significante? A morte do homem natural sempre significa o nascimento do espiritual; será que algo jamais dorme se não para que algo mais acorde?"
Então alguns anos depois numa outra carta, ele escreveu, "Pode alguém acreditar que não havia nada de persistente naquele motivo de sangue, morte, e ressurreição que aparece e todos os grandes mitos?" Ele estava começando a notar enquanto estudava toda a literatura antiga que mesmo nas culturas pagãs haviam essas estranhas histórias de um deus vindo à terra, morrendo, e ressuscitando. Ele se perguntava o que isso significava. E quando você olha para a natureza, de fato você vê coisas mesmo na vida vegetal onde uma semente cai na terra, morre e volta a vida na forma de uma planta ou uma grande árvore. Será que isso pode estar apontando para o que ele eventualmente chamava de "o grande milagre," a ressurreição? Ele disse, "Certamente a história da mente humana se encaixa muito melhor se você supor que tudo isso eram as primeiras sombras de algo cuja realidade veio em Cristo mesmo se nós não conseguirmos compreender isso completamente no presente."
Tragédia Pessoal
Em sua vida pessoal, C. S. Lewis se confrontou com a morte quando era criança. Aos nove anos ele perdeu, em poucos meses, seu avô paterno, um tio, e sua linda mãe. Numa autobiografia, Surpreendido pela Alegria, ele se lembra de sempre estar confinado no seu quarto, doente com dor de cabeça e de dente. Ele estava profundamente triste por sua mãe não ter ido vê-lo. Ele não conseguia compreender a razão disso
Isso era por que ela estava doente, também: e o que era estranho é que haviam diversos médicos no seu quarto, e vozes e gente indo e vindo por toda a casa, portas se abrindo e fechando. Parecia ter durado por horas. E então meu pai, às lágrimas, entrou no meu quarto e começou a tentar explicar para a minha mente apavorada coisas que eu jamais havia concebido antes.
Disseram a ele que sua mãe estava morrendo de câncer. Ele chamou isso de "toda a existência mudando em algo estranho e ameaçador, enquanto a casa se enchia de aromas estranhos e barulhos durante a madrugada e conversas murmuradoras sinistras."
"Meu pai jamais se recuperou dessa perda," ele observou. Talvez Lewis também não, no sentido de que ele foi enviado para um colégio interno, pois seu pai estava muito deprimido para cuidar dele. Numa idade muito precoce, ele perdeu pai e mãe.
Quando tinha 18 anos e era estudante em Oxford, Lewis se juntou ao exército. Ele se feriu durante manobras na França e, numa preleção em Oxford muitos anos depois, ele fez a interessante observação de que a guerra não torna a morte mais frequente, 100 por cento de nós morremos e essa percentagem não pode ser aumentada." Ele afirmou que a guerra coloca diversas mortes mais cedo e um dos aspectos positivos da guerra é que ela nos alerta de nossa mortalidade. Quando ele tinha 23 anos ele escreveu uma carta para seu pai sobre a morte de um velho professor, amigo de ambos. Ele afirmou:
Eu vi a morte com bastante frequência [na guerra] e mesmo assim não consigo deixar de vê-la como extraordinária e incrível. Uma pessoa real é tão real e tão obviamente viva e diferente do que o corpo morto. Não é possível crer que que aquele algo se tornou em nada, que alguém pode subitamente se transformar em nada.
Isso me lembra de dos meus estudantes de medicina que acabam de iniciar a prática médica; muito frequentemente eles me chamam para falar de suas experiências na residência. Uma das coisas que os estudantes mencionam com frequência é quão diferente uma pessoa é antes e depois da morte, quão diferente um corpo é de uma pessoa viva. Eles sentem que há algo que desaparece, que não está lá após a morte, e que nós somos muito mais do que nossos corpos. Lewis pareceu reconhecer isso quando ainda era muito jovem.
A Morte Importa
Em Anatomia de uma Dor, Lewis escreveu sobre a morte de sua esposa que era para ele tudo de importante. Como eu mencionei, muitos psiquiatras consideram esse livro um clássico no entendimento do luto. Lewis faz você sentir raiva, ressentimento, solidão, e medo. Sua raiva se torna palpável quando ele imagina que Deus é um "sádico cósmico, o imbecil odioso". Ele escreveu, "É difícil ter paciência com pessoas que dizem que não há morte ou que a morte não importa. A morte existe," ele continua, "e o que quer que importa. Poderíamos também dizer que o nascimento não importa."
Lewis nunca perdeu seu senso de humor. Quando ele tinha 59 anos de idade, uma mulher escreveu para ele e disse quão terrível era ter acabado de perder um amigo. Lewis escreveu de volta, "Não há nada de desonroso em morrer. Eu conheço pessoas respeitáveis que morreram." Em outra carta, alguns anos depois, ele escreveu, "Que estado nós chegamos para não conseguir dizer, 'Estarei feliz quando Deus me chamar' sem ter medo disso, é mórbido. Apesar de tudo, o próprio São Paulo disse o mesmo. Porque não deveríamos pensar mais para a frente, no advento?"
Lewis concluiu que nós podemos apenas fazer três coisas em relação a morte: desejá-la, temê-la, ou ignorá-la. Ele afirmou que a terceira tentativa, a qual o mundo moderno chama de saúde, certamento é a mais dificil e precária de todas.
Lewis sofreu um ataque cárdiaco em 15 de Junho de 1963, e entrou em coma. Ele se recuperou apesar disso, e viveu as poucos meses seguintes calmo e feliz. Seu último biografo nota que antes de sua conversão, Lewis era extraordinariamente ansioso em relação a morte, mas após sua conversão ele parecia ter uma maravilhosa calma quanto a isso, até mesmo uma antecipação. Relatos de seus últimos dias atestam a calma e paz interior.
Durante esse tempo, ele escreveu para um amigo de longa dada afirmando, "Apesar de eu não estar infeliz de maneira alguma, eu não consigo deixar de lamentar o fato de ter revivido em Julho". Ele continuou, "Quero dizer, tendo sido levado tão suavemente até os portões, parece duro ter o portão fechado na cara e saber que todo o processo tem que recomeçar um dia. Pobre Lázaro." E para um outro amigo ele perguntou, "Deve-se honrar Lázaro ao invés de Estevão como primeiro mártir. Ter sido trazido de volto e ter que passar por tudo de novo deve ter sido bem difícil." E então ele disse, "Quando você morrer, me procure. É tudo tão divertido, solenemente divertido, não é?"
Duas semanas antes de sua morte, Lewis almoçou com um colega da faculdade. Ele disse que Lewis estava alerta de que o fim estava próximo e que jamais houve um homem tão bem preparado. Em 22 de Novembro de 1963, às 4 da tarde, o irmão de Lewis lhe trouxe seu chá da tarde. Ele observou que Lewis estava sonolento, mas calmo e alegre. As 5h30, ele estava morto.
Nós estudamos as cosmovisões contrastantes de duas mentes prolíficas. Uma visão alega que o universo é um acidente e que nossa existência é uma questão de pura chance. A outra vê o universo como resultado de um projeto e nossa existência como parte desse projeto. Um vê a morte como um mistério doloroso que causa grande ansiedade, desespero e amargura. O outro vê a morte como o passo final do projeto para o qual sua vida foi criada, um passo que pode ser experimentado com calma e até antecipação por causa do que Lewis chamou de "o grande milagre", a ressurreição.
terça-feira, 30 de dezembro de 2008
Quando Cosmovisões Colidem: C.S.Lewis e Freud - Parte I de II
Armand Nicholi
Dr. Armand Nicholi é professor da Escola de Medicina de Harvard há 20 anos. Ele também ministra um curso popular na Universidade de Harvard sobre as cosmovisões contrastantes de Sigmund Freud e C.S.Lewis.
C.S. Lewis e Sigmund Freud: uma comparação de seus pensamentos e de suas visões sobre a vida, a dor e a morte.
As cosmovisões de Sigmund Freud e C.S. Lewis, ambas predominantes na nossa cultura hoje, apresentam interpretações diametralmente opostas de quem nós somos, nossa identidade, de onde viemos, de nossa herança cultural e biológica e de nosso destino. Primeiro, vamos arrumar as bases para nossa discussão fazendo três perguntas. Quem é Sigmund Freud? Quem é C.S.Lewis? E o que é uma cosmovisão?
Poucos homens influenciaram mais a estrutura moral de nossa civilização do que Sigmund Freud e C.S. Lewis. Freud foi o médico Vienense que desenvolveu a psicanálise. Muitos historiadores colocam suas descobertas ao lado das de Plank e Einstein. Suas teorias proveram um novo entendimento sobre como nossas mentes funcionam. Suas idéias permeiam diversas disciplinas incluindo a medicina, literatura, sociologia, antropologia, história e o direito. A interpretação do comportamento humano no direito e na crítica literária é profundamente influenciada pela suas teorias. Seus conceitos estão tão permeados na nossa linguagem que nós usamos termos como repressão, complexo, projeção, narcisismo, ato falho e rivalidade fraterna sem sequer nos apercebemos de sua origem.
Devido ao inegável impacto de seu pensamento na nossa cultura, os estudiosos se referem a esse século como o "século de Freud". Por que isso? À luz do que sabemos hoje, Freud é continuamente criticado, desacreditado, e difamado; ainda assim sua figura continua a aparecer em capa de revistas e artigos de primeira página em jornais como o The New York Times. As recentes pesquisas históricas intensificaram o interesse nas controvérsias em torno de Freud e seu trabalho. Como parte de seu legado intelectual, Freud defendeu veementemente uma filosofia de vida secular, materialista e ateísta.
Apesar do fato de C.S.Lewis ter conquistado reconhecimento intelectual muito antes de sua morte em 1963, seus livros acadêmicos e populares continuaram a vender milhões de cópias por ano e sua influência continua a crescer. Durante a Segunda Guerra Mundial, os pronunciamentos de Lewis no rádio fizeram sua voz a segunda mais reconhecida na BBC perdendo apenas para Churchill. Nos anos que se seguiram, a foto de Lewis apareceu na capa da Times e outras revistas importantes.
Hoje, a grande quantidade de livros pessoais, biográficos e literários sobre Lewis, o grande número de sociedades sobre C.S.Lewis em universidades; os periódicos e jornais sobre C.S.Lewis; como também o recente filme e peça sobre sua vida confirmam o sempre crescente interesse nesse homem e na sua obra. Como um jovem membro da universidade de Oxford, Lewis mudou de uma visão secular e ateísta para uma espiritual; uma cosmovisão que Freud frequentemente atacava, mas a qual Lewis abraçou e definiu em muitos de seus escritos após a conversão. Tanto Lewis quanto Freud possuíam dons literários extraordinários. Freud ganhou o prêmio Goethe de literatura em 1930. Lewis, que ensinou em Oxford e foi catedrático de Literatura Inglesa na Universidade de Cambridge, produziu alguns dos maiores criticismo literários e possui uma grande quantidade de livros acadêmicos e de ficção vastamente lidos.
Cosmovisões conflitantes.
Agora, sobre a questão da definição de "cosmovisão". Em 1933, numa preleção chamada "A questão da Weltanschauung," Freud definiu cosmovisão como "uma construção intelectual que resolve todos os problemas de nossa existência, uniformemente, sobre o fundamento de uma hipótese dominante."
Todos nós, quer nos apercebamos ou não, temos uma cosmovisão; temos uma filosofia de vida, nossa tentativa de fazer nossa existência ter sentido. Ela contêm nossas respostas às principais questões que dizem respeito ao sentido de nossas vidas, questões que nos perturbam em algum período de nossas vidas, e que nós frequentemente pensamos apenas quando acordamos às três da manhã. O resto do tempo que estamos sozinhos nós temos o rádio e a televisão ligados que impedem que fiquemos sozinhos com nós mesmos. Pascal dizia que a única razão de nossa infelicidade é que nós não conseguimos ficar sozinhos num quarto. Ele alegou que nós não gostamos de confrontar a realidade de nossas vidas; a condição humana é tão basicamente infeliz que nós fazemos de tudo para nos distrair de pensar nisso.
O vasto interesse e permanente influência das obras de Freud e Lewis se originam nem tanto de seus estilos literários singulares, mas mais do apelo universal que tem as questões que eles trabalharam; questões que permanecem extraordinariamente relevantes às nossas vidas pessoais e à nossa crise social e moral contemporânea.
A partir de visões diametralmente opostas, eles falaram sobre questões como, "Há sentido e propósito para a existência?" Freud diria, "Certamente não! Não podemos nem, do nosso ponto de vista científico, abordar a questão de se há ou não sentido para a vida." Mas ele afirmaria que se você observar o comportamento humano, perceberá que o principal propósito da vida parece ser a conquista da felicidade e do prazer. Assim Freud delineou o "principio do prazer" como uma das principais características de nossa existência.
Lewis, por outro lado, disse que o sentido e propósito são encontrados na compreensão do porquê estamos aqui em relação ao Criador que nos fez. Nosso propósito principal é estabelecer um relacionamento com esse Criador. Freud e Lewis também discutiram as fontes da moralidade e da consciência. Todos os dias nós acordamos e fazemos uma série de decisões que nos sustentam ao longo do dia. Essas decisões são geralmente baseadas no que nós consideramos que é certo: o que nós valorizamos, nosso código moral. Decidimos estudar com afinco e não usar as idéias de outras pessoas, por que de alguma forma isso é parte de nosso código moral. Já Freud disse que nosso código moral vem da experiência humana, como nossas leis de tráfego. Nós fazemos os códigos por que eles são convenientes para nós. Em algumas culturas você dirige na esquerda, em outras você dirige na direita.
Mas Lewis discordaria disso. Ele disse que apesar das diferenças culturais, há um código moral básico que transcende a cultura e o tempo. Essa lei não é inventada, como as leis de tráfego, mas é descoberta, como as verdades matemáticas. Então, Freud e Lewis tinham um entendimento completamente diferente da fonte da verdade moral.
Lewis e Freud também falaram sobre a existência de uma inteligência além do universo; Freud disse "Não", Lewis disse "Sim". Suas visões os levaram a discutir o problema dos milagres na era científica. Freud alegou que os milagres contradizem tudo que aprendemos através da observação empírica, eles não ocorrem de fato. Entretanto, Lewis perguntaria; "Como sabemos que eles não ocorrem? Se há alguma evidência, a filosofia que você trás para interpretar a evidência determina como você interpretará." Então, de acordo com Lewis, nós precisamos entender se nossa filosofia exclui os milagres e, portanto, afeta nossa interpretação da evidência.
Tanto Freud quanto Lewis falaram muito sobre a sexualidade humana. Freud considerava todo tipo de amor uma forma de sexualidade sublimada, até mesmo o amor entre amigos. Lewis disse que qualquer um que pense que a amizade é baseada em sexualidade nunca teve um amigo realmente.
Eles também discutiram o problema da dor e do sofrimento. Freud era extremamente perturbado por esse problema, e Lewis escreveu alguns maravilhosos livros que ajudam a explicar o problema do sofrimento que todos nós experimentamos. O Problema do Sofrimento [Editora Vida] é uma discussão bastante intelectual da questão. Quando a mulher de Lewis morreu, ele escreveu Anatomia de uma dor [Editora Vida], que eu recomendo enfaticamente. As pessoas da minha área dizem que esse é o melhor trabalho sobre o processo de luto.
E, é claro, ambos discutiram o que Freud chamou de "O doloroso mistério da morte". Mas eu voltarei a isso mais tarde. Cada uma das questões que eu abordei são filosóficas por natureza. É significante notar que os trabalhos filosóficos de Freud tiveram mais influência na secularização da cultura do que seus trabalhos científicos. Eu vou discutir dois desses temas.
Deus em Questão
Primeiro, a existência de uma inteligência para além do universo, o que os cientistas modernos chamam de "A questão de Deus". Norman Ramsay, professor de física de partículas em Harvard, ganhou o Prêmio Nobel de Fìsica em 1989. Ele me disse recentemente que mesmo em seu campo, os cientistas tem se tornado interessados na questão de se há ou não uma inteligência para além do universo. Ele disse que é uma área de interesse relativamente recente para eles e que tem sido provocada principalmente pela aceitação da teoria do Big Bang. Eu repliquei dizendo que eu não entendi bem a relação. Ele disse, "Bem, quando acreditava-se que o universo não tinha começo era mais fácil, pois ninguém tinha que se preocupar com o que veio antes. Mas desde que alguém aceita a idéia de que o universo teve um inicio num ponto especifico do tempo, tem que pensar também sobre o que ocorreu antes. Então os físicos agora estão pensando sobre questões que somente teólogos e filósofos pensaram no passado."
Ao olharmos para o mundo ao nosso redor, nós fazemos uma de duas suposições: ou vemos o mundo como um acidente e nossa existência neste planeta como uma questão de pura chance, ou presumimos alguma inteligência para além do universo que não só provê ao universo um desenho e ordem, mas também provê sentido e propósito à vida. Como vivemos nossas vidas, como terminamos nossas vidas, o que percebemos, como interpretamos o que percebemos, tudo é formado e influenciado consciente ou inconscientemente por uma dessas duas suposições básicas.
Tendo isso em mente, Freud dividiu todas as pessoas entre "crentes" e "descrentes". Descrentes incluem todos aqueles que se consideram cínicos, céticos, escarnecedores, agnósticos ou ateus. Crentes incluem o resto, cuja crença varia desde um mero assentimento intelectual de que há algo ou alguém além deste mundo até aqueles como Lewis, Agostinho, Tolstoy e Pascal que tiveram uma experiência transformadora depois da qual sua fé se tornou o principal princípio motivador e organizador de suas vidas.
Freud foi de encontro, clara e enfaticamente, à noção de que há "Alguém" além deste mundo. Ele descreve sua cosmovisão como secular e a chama de "cientifica", e ele alegou que não há nenhuma outra fonte de conhecimento do universo que não seja "a cautelosa observação, o que chamamos de pesquisa." Logo, nenhum conhecimento, ele disse, pode ser derivado de revelação ou intuição. Ele afirmou que a noção do universo criado por um ser "parecido com o homem mas exaltado em cada aspecto, um super homem idealizado, reflete a grotesca ignorância dos povos primitivos." Ele afirmou que nenhuma pessoa inteligente pode aceitar os absurdos da cosmovisão religiosa.
Freud descreveu o conceito de Deus como uma simples projeção do desejo infantil de proteção por um pai todo-poderoso. Ele acrescentou que "a religião é uma tentativa de controlar o mundo sensorial, no qual estamos situados, por um mundo que desejamos que é desenvolvido dentro de nós como um resultado de anormalidades biológicas e psicológicas."
Ele concluiu que a visão religiosa é "tão patética e absurda e... infantil que é humilhante e vergonhoso pensar que a maioria das pessoas jamais se sobreporão a isso." Apenas por um breve período quando era estudante sob a orientação de um brilhante filósofo chamado Franz Brentano, um crente devoto, Freud duvidou de seu ateísmo, mas ele afirmou que continuou descrente pelo resto de sua vida. Um ano antes de sua morte, Freud escreveu para Charles Sanger, "Nem na minha vida privada nem nos meus escritos eu deixei em segredo o fato de ser um completo descrente."
Quando examinamos o relato cuidadosamente nós descobrimos que Freud talvez não estivesse tão certo de seu ateísmo quanto ele proclamava. Certamente ele se referia a si mesmo frequentemente como "um Judeu infiel" e ele rejeitou completamente a visão religiosa do universo, especialmente a visão Judaico-Cristã. Ele certamente atacou essa visão com todo seu poderio intelectual e de todas as perspectivas possíveis. Mas ainda assim, por alguma razão ele permaneceu ocupado com estas questões; ele simplesmente não conseguia deixá-las de lado. Ele passou os últimos trinta anos de sua vida escrevendo sobre tais questões.
Num estudo autobiográfico ele disse que essas questões filosóficas e religiosas o interessaram por toda sua vida desde sua juventude. Um grande número de evidências revelam que a cosmovisão de Freud não o deixavam confortável. A fé, de forma alguma, era caso concluído para ele, e ele era extremamente ambivalente quanto à existência de Deus.
Anna Freud, filha e Freud que faleceu há alguns anos atrás, me explicou a única forma de conhecer seu pai: "Não leia suas biografias;" ela instruiu, "leia suas cartas." Por todas suas cartas, Freud faz afirmações como, "Se algum dia nós nos encontrarmos lá em cima", "minha única, e secreta oração," e afirmações sobre a graça de Deus. Durante os últimos trinta anos de sua vida, Freud manteve uma constante troca de centenas de cartas com o teólogo Suiço, Oskar Pfister. É interessante notar que sua correspondência mais longa foi exatamente com este teólogo. Ele admirava Pfister e escreveu, "Você é um verdadeiro servo de Deus... que sente a necessidade de fazer um bem espiritual para todos que você encontra. Você fez isso por mim também." Ele, posteriormente, disse que Pfister estava, "na honrosa posição de poder levar homens à Deus."
Será isso apenas formas de expressão? Poderíamos dizer isso de qualquer um, menos de Freud, que alegava que mesmo um ato falho da fala tem um sentido.
O Problema da Dor e do Sofrimento
Eu tenho estudado os escritos de Freud como também suas cartas por muitos anos e eu concluí que o principal obstáculo que Freud tinha com a idéia de um ser inteligente além do universo era sua incapacidade de conciliar um Deus bom e todo-poderoso com o sofrimento que todos nós experimentamos em certa intensidade. Numa carta para Pfister, em 1928, Freud escreveu, "E por último, deixe-me ser indelicado. Como diabos você concilia tudo que experimentamos e esperamos nesse mundo com sua suposição de um ordem moral mundial?" E depois, numa preleção em 1944, ele disse: "Não parece ser o caso de haver um poder no universo que observa o bem-estar dos indivíduos com cuidado paternal e dirige seus interesses em direção à um final feliz. Pelo contrário, os destinos da raça humana não podem ser harmonizados nem com a hipótese de uma benevolência universal nem com a parcialmente contraditória hipótese de justiça universal. Terremotos, tsunamis, complicações que não fazem nenhum distinção entre os virtuosos e piedosos e os imorais e descrentes. Mesmo quando o que está em questão não é a natureza inanimada, mas quando o destino individual depende de suas relações com outras pessoas, não é de maneira alguma a regra de que o mal é punido e o bem recompensado. Frequentemente são os espertos e impíos que usufruem das boas coisas do mundo e o piedoso não usufrui de nada. São poderes obscuros, insensíveis e sem amor que determinam nosso destino. Os sistemas de recompensas e punições, que a religião descreve como governo do universo, parece não existir." Eu me pergunto quantos de nós pelo menos uma vez não nos sentimos assim. Freud parecia não estar ciente, é claro, de que na cosmovisão Biblíca o governo do universo está temporariamente em mãos inimigas. Antes de Anna Freud falecer, eu lhe perguntei sobre a dificuldade de seu pai com o problema do sofrimento, e ela expressou grande curiosidade em relação a isso. Num determinado momento ela me disse, "Como você explica o sofrimento no mundo? Há alguém lá em cima que diz, 'Você terá câncer. Você tuberculose', e distribui adversidades?" Eu disse que não sabia exatamente como responder à pergunta, mas eu sei que ela respeitava Oskar Pfister. Eu disse que pessoas como Pfister descreveriam a presença de um poder maligno no universo que é responsável por parte do sofrimento. Anna pareceu interessada nessa noção e voltou frequentemente a ela na nossa conversa. Devemos lembrar que Freud sofreu consideravelmente em sua vida, emocionalmente como um Judeu crescido na profundamente Católica Viena, e fisicamente com o câncer intratável na boca com o qual ele lutou por dezesseis anos de sua vida. Os procedimentos médicos não eram bem desenvolvidos na época e o causaram uma grande dose de dor física. Então precisamos ter isso em mente quando tentamos entender como ele se sentia. C.S.Lewis, ao longo da primeira metade de sua vida, também se descreveu, como Freud, como um "completo descrente". Se Freud duvidou de sua descrença quando estava na faculdade, Lewis se regozijava na sua descrença quando estudante em Oxford. Ele expressou um forte cinismo e hostilidade em relação à pessoas que ele chamava de "crentes" e compartilhava do pessimismo de Freud em relação a vida. Quando tinha trinta e três anos, já um membro popular de Oxford, Lewis experimentou uma profunda e radical mudança em sua vida e em seu pensamento. Ele rejeitou a cosmovisão materialista e ateísta e abraçou uma forte fé em Deus e em Jesus Cristo. Essa conversão de uma cosmovisão para outra começou uma fonte inesgotável de livros acadêmicos e populares que influenciaram milhões de pessoas.
Na segunda parte de Quando Cosmovisões Colidem, o Dr. Armand Nicholi discute as visões de C.S. Lewis sobre a vida, a dor e a morte. Aguardem...
domingo, 31 de agosto de 2008
Eu li... Anatomia de uma Dor - C.S. Lewis
C.S.Lewis
"Você nunca tem consciência do quanto de fato acredita em alguma coisa enquanto a verdade ou a falsidade dessa coisa não se torna uma questão de vida ou morte para você. É fácil dizer que você acredita que uma corda seja forte e segura, enquanto a está usando apenas para amarrar uma caixa; mas imagine que deva dependurar-se nessa corda sobre um precipício. Será que não iria primeiro descobrir o quanto na verdade confia nela?"
"Se a bondade de Deus não é coerente com o ato de nos ferir, então, ou Deus não é bom, ou não há Deus algum: pois na única vida que conhecemos Ele nos fere de um modo tal, além de nossos piores pavores, acima de tudo o que podemos imaginar. Se essa bondade for condizente com o ato de nos ferir, então Ele pode muito bem fazer isso depois da morte de maneira tão intolerável quanto antes dela."
"Aqueles que dizem que não devemos temer à Deus porque Ele é bom, será que nunca foram ao dentista?"
"Deus certamente não estava fazendo uma experiência com minha fé nem com meu amor para provar sua qualidade. Ele já os conhecia muito bem. Eu é que não. Nesse julgamento, ele nos faz ocupar o banco dos réus, o banco das testemunhas e o assento do juiz de uma só vez. Ele sempre soube que meu templo era um castelo de cartas. A única forma de fazer-me compreender o fato foi colocá-lo abaixo."
quinta-feira, 14 de agosto de 2008
Eu li... Dibs: Em Busca de Si Mesmo - Virginia Axline
Virginia M. Axline
quarta-feira, 30 de julho de 2008
Por que Esperar Pelo Sexo? Uma Análise das Mentiras que Nós Enfrentamos
A História nos ensina que as pessoas acreditam no que elas querem ouvir. Mentiras podem soar muito verdadeiras quando as pessoas estão famintas por verdade. Até mesmo sociedades inteiras se deleitam em mentiras. A inquisição foi baseada na mentira de que algumas pessoas poderiam forçar outras a mudar suas crenças religiosas. Colonizadores Americanos acreditavam na mentira de que uma raça tinha o direito de possuir, comprar e vender pessoas de outras raças. Mais recentemente, centenas de milhares de pessoas acreditaram na mentira de Hitler de que a raça Judaica deveria ser erradicada. Muitos de nós mal pode imaginar como alguém pode ter crido nessas mentiras. Mas ainda assim nós engolimos outras mentiras o tempo todo.
Nossa sociedade está faminta por intimidade. E muitas das mentiras que acreditamos na nossa cultura têm a ver com nossa fome por relacionamento. Nós queremos aceitação, relacionamentos amorosos e intimidade profunda, e ainda acreditamos na mentira de que o sexo vai satisfazer nossa fome. É verdade que somos seres profundamente sexuais, mas é hora de examinar algumas das mentiras em que nos deleitamos: a mentira de que o sexo pré-matrimonial é um dos nossos direitos inalienáveis, a mentira de que o intercurso sexual é o caminho para intimidade, e a mentira de que a abstinência pré-matrimonial é, no mínimo, obsoleta e repressiva na pior das hipóteses. Isso é tudo mentira.
Compramos essas mentiras por que somos pessoas famintas. Nós somos pessoas que necessitam de amor, de toque e compreensão num mundo de laços familiares destituídos e disfunção epidêmica. Nossos desejos certamente não são novos; são tão antigos quanto a humanidade. A diferença é que no mundo hoje as pessoas estão tentando satisfazer essas necessidades das formas mais estranhas possíveis: através de máquinas (TV’s, CD players, e computadores), através de esportes, posses materiais, instituições e sexo. Especialmente através do sexo. “Experimente pelo menos uma vez e você será satisfeito.” “Procure variedade e você não vai se entediar.” “Uma vida sem sexo é uma vida sem afeto.” A experiência sexual se tornou um direito pessoal, uma necessidade que precisa ser satisfeita e uma norma que precisa ser aceita.
A tragédia de tudo isso é que as pessoas estão morrendo de inanição emocional, e estão procurando pelos alimentos errados. E quero identificar sete mentiras que nossa sociedade criou sobre o sexo. A verdade é que o sexo fora do casamento não é tudo isso que parece ser. Não há pode de ouro no final do arco-íris.
Mentira #1: Sexo cria intimidade. Sexo é uma expressão de intimidade, não um meio para se conquistar intimidade. A verdadeira intimidade frui da comunhão verbal e emocional. Verdadeira intimidade é construída sobre um compromisso de honestidade, amor e liberdade. Verdadeira intimidade não é primariamente a relação sexual. Intimidade, na verdade, não têm quase nada a ver com os órgãos sexuais. Uma prostituta expõe seu corpo para muitos, mas isso certamente não gera intimidade.
Intercurso sexual pré-matrimonial, na verdade, pode esconder falta de intimidade. Donald Joy escreve que iniciar a prática sexual prematuramente causa um curto-circuito no processo de criação de vínculos emocionais. Ele cita um estudo com 100.000 mulheres que liga a experiência sexual precoce com insatisfação nos seus casamentos atuais, infelicidade com o nível de intimidade sexual e um predomínio de baixa auto-estima (Christianity Today, Outubro 3, 1986)
Mentira #2: Começar a relação sexual cedo no relacionamento ajuda no processo de conhecimento mútuo e a se tornarem melhores parceiros mais tarde. Intercurso sexual e intensa exploração física cedo no relacionamento não reflete o sexo na sua melhor forma. Claro que há prazer sexual para aqueles que iniciam a experiência sexual pré-matrimonial. Mas eles estão perdendo o melhor caminho para a felicidade matrimonial. Sexo é uma arte que é mais bem aprendida se desenvolvida dentro da segurança do casamento. Eu me encontrei, uma vez, com uma estudante cuja frustração com suas relações sexuais a motivou a vencer a vergonha e me perguntar na cara dura: “O sexo dentro do casamento é tão ruim quanto fora do casamento?” Ela chegara ao fim do arco-íris, procurando pelo pote de ouro, e encontrou apenas desilusão.
Quando a intimidade física irrestrita domina o relacionamento, outras partes do relacionamento sofrem. Em casamentos saudáveis, o sexo não é principal mas é colocado ao lado dos aspectos intelectual, emocional e prático da vida. Cônjuges passam menos tempo na cama do que conversado, resolvendo problemas, e em comunhão emocional. A mentira de que o sexo pré-matrimonial nos prepara para o casamento nega o fato de que a felicidade sexual se desenvolve somente através de anos de relacionamento intimo. O ápice do prazer sexual, dizem os psicólogos, geralmente vêm após dez a vinte anos após o casamento.
O bom sexo começa na mente. Depende do conhecimento intimo de seu parceiro. A Bíblia usa a palavra “conhecer” para descrever o intercurso sexual: “Adão conheceu sua esposa Eva e ela concebeu...” (Genêsis 4:1). Essa escolha de palavras eleva a sexualidade humana de mero sexo animal onde a disponibilidade é o principal requisito para uma completa e intima expressão de amor e compromisso.
Mentira #3: Sexo casual sem compromisso é divertido e libertador. Aqueles que decidem por relacionamentos sexuais rápidos estão se decidindo por um sexo que não satisfaz. O jornalista George Leonard observa que “recreação sexual casual é dificilmente um deleite – nem mesmo um farto sanduíche. É dieta de fast-food servida em marmitas. Os deleites da vida estão disponíveis apenas para aqueles que estão desejosos e dispostos a encarar a vida num nível pessoal profundo, entregando tudo, sem esperar nada em troca.” (citado por Joyce Hugget em Dating, Sex & Friendship, InterVarsity Press, p.82.) Para a mulher, particularmente, o sexo pode revelar medos escondidos e falta de confiança. O bom sexo – que pode ser um agente de cura ao longo do tempo – requer confiança, confiança que é desenvolvida melhor no contexto de um compromisso irrevogável de casamento.
Mentira #4: Se você não expressar sua sexualidade livremente, você deve ser recalcado, doente ou afetado. Esse é uma mentira que pode ser muito intimidante, mas o fato é que sexo precoce é nocivo para a saúde emocional, física e cultural. A edição de Fevereiro de 1991 do Journal of Pediatrics relata que pesquisadores da Universidade de Indiana descobriram que adolescentes sexualmente ativos são mais propensos ao abuso de álcool e drogas ilícitas, e são mais propensos a terem problemas na escola. Eles relataram que meninas sexualmente ativas eram mais propensas à depressão, baixa auto-estima, solidão e tentativas de suicídio.
Sexo pré-matrimonial pode ser nocivo para a saúde emocional do seu futuro casamento. Deixa um parâmetro de comparações, suspeitas e desconfiança. “Eu sou tão atraente (ou sexualmente atraente) como sua(eu) última(o) parceira(o)?” “Se ela não esperou por mim antes de nos casarmos, porque eu acreditaria que ela se guarda apenas pra mim agora?” “Se alguém melhor se aproximar, será que serei abandonado?”
Sexo pré-matrimonial é nocivo também para sua saúde física. Doenças sexualmente transmissíveis têm recebido bastante atenção da mídia nos últimos anos. Tempo igual não têm sido dado a opinião de vários especialistas médicos de que a abstinência extra-conjugal é, sem dúvidas, a melhorar maneira de evitar essas doenças.
Promiscuidade sexual é, também, nociva para a saúde de nossa civilização. Um estudo com mais de oitenta sociedades das mais primitivas e antigas até as mais modernas revelou “uma invariável correlação entre o nível de restrições sexuais e o nível de progresso social. Culturas mais permissivas sexualmente apresentaram menor energia cultural, criatividade, desenvolvimento intelectual e individual, e uma ascensão cultural mais lenta...´(Reo Christenson, Christianity Today, Fevereiro 19, 1982). Por que, então, nós – como indivíduos e sociedade – trocamos nossa energia, criatividade, e desenvolvimento intelectual pelo prazer sexual momentâneo? Porque nós temos crido numa mentira.
Mentira #5: Sexo é liberdade. Sexo pré-matrimonial é dificilmente uma expressão de liberdade. Jovens que se tornam sexualmente ativos em resposta à pressão de ter que ser sofisticado e independente na verdade se tornam vitimas da opinião pública. Ninguém está realmente livre se está pessoa se envolve em qualquer atividade para impressionar a maioria.
Mentira #6: Certamente Deus compreende que esse é o século 21! Como pode estar errado aquilo que a sociedade diz que é normal? As Escrituras são claras ao mostrar a relação sexual extraconjugal como pecado. Mesmo se não tivéssemos nenhuma outra evidência, a Palavra de Deus deixa claro que o sexo fora do casamento não é apenas ruim para nós mesmos, mas é também errado. No sétimo mandamento aos Israelitas, Deus disse “Não adulterarás” (Êxodo 20:14). Jesus foi ainda mais inclusivo ao descrever o mal que jaz dentro de nossos corações, incluindo a “imoralidade sexual” (Marcos 7:21). Paulo exortou os Coríntios a “se absterem da imoralidade sexual” (veja 1 Coríntios 6:18-19), e aos Efésios ele disse que entre eles não deveria haver sequer “menção de imoralidade sexual como também de nenhuma espécie de impureza ou de cobiça pois essas coisas não são próprias aos santos.” (Efésios 5:3). O autor da carta aos Hebreus escreveu, “Honrado seja, entre todos, o matrimônio e o leito sem mácula; pois aos devassos e adúlteros, Deus os julgará.” (Hebreus 13.4)
Eu não creio que Deus nos deu essas regras por ser um estraga prazeres. Mas muito pelo contrário, porque Deus nos criou e porque ele nos ama mais do que podemos imaginar, ele nos revela como ter a melhor e mais satisfatória vida sexual: dentro do casamento. Aí que o sexo é divertido! Abstinência pré-matrimonial e fidelidade matrimonial não é uma negação dos meus direitos ou meus prazeres. É escolher experimentar o sexo no contexto mais saudável e feliz possível.
Mentira #7: Por que esperar? Como você pode saber com certeza que esperar é melhor? Talvez não valha a pena esperar. Talvez seja melhor experimentar as oportunidades que você surgirem. Obediência aos mandamentos de Deus inclui confiar que ele sabe o que é melhor para nós – mesmo quando nós não entendemos totalmente seus motivos. As escolhas que nós fazemos no nosso comportamento sexual requerem fé em verdades que podemos não entender. Deus exigiu que os Israelitas obedecessem a dezenas de leis, muitas das quais eram boas para a saúde do povo mesmo eles não sabendo o por quê. Veja um exemplo de Levítico 15:2, 9-10 “Esta, pois, será a sua imundícia, por causa do seu fluxo; se a sua carne vasa o seu fluxo ou se a sua carne estanca o seu fluxo, esta é a sua imundícia... também toda a sela, em que cavalgar o que tem o fluxo, será imunda, e qualquer que tocar em alguma coisa que esteve debaixo dele, será imundo até à tarde; e aquele que a levar, lavará as suas roupas, e se banhará em água, e será imundo até à tarde”. Milhares de anos atrás, ninguém havia ouvido falar de germes e micro-organismos que transmitiam doenças. Se algum jovem tivesse reclamado da injustiça de Deus ao não deixá-lo montar o mesmo cavalo que o seu amigo que teve o fluxo, teria ele entendido se Deus tivesse explicado as doenças venéreas para ele em detalhes científicos? Não é provável. Da mesma forma, existem razões espirituais, emocionais, físicas e psicológicas para Deus ter limitado o intercurso sexual ao casamento. Alguns das razões estão além do nosso entendimento. Nós simplesmente devemos crer que Deus sabe o que é melhor para nós.
Quando vivemos dentro dos limites de Deus, nós vivemos pela fé num Deus amoroso. Pureza sexual é uma expressão de nossa confiança na bondade de Deus, uma indicação da nossa confiança em Jesus. “Vós sereis meus amigos” disse Jesus” “ se fizerdes o que eu vos mando” (João 15.14). “Fé é a certeza das coisas que se não vêem, e a convicção de fatos que se esperam” (Hebreus 11.1). Viver pela fé significa aplicar essa definição de fé a situação vivida. Nós exercitamos fé e obediência, não por causa do que sabemos, mas por causa da pessoa que nós amamos, o próprio Jesus. Mas podemos aprender através de pessoas que já fizeram suas escolhas. Eu perguntei à minha amiga Liz, uma psicoterapeuta, ‘Com qual freqüência você vê pacientes que gostariam de não ter explorado sua sexualidade tão antes do casamento?” “Ah, freqüentemente,” ela disse. Então eu perguntei, “E com que freqüência você vê pacientes que gostariam de ter ido além na intimidade sexual antes do casamento?” Seus olhos se abriram, e ela olhou pra mim surpresa e enfaticamente, “Nunca!” Essa é uma das grandes questões de fé na vida.
Se você decidir esperar, isso exigirá de você uma grande coragem e muita força. Se você decidir não esperar, você nunca saberá o que perdeu. Você não pode seguir pelos dois caminhos. Ninguém pode provar que a abstinência pré-matrimonial funciona. Eu acredito que as evidências médicas, psicológicas, e sociológicas apóiam a posição de que o sexo fora do casamento não é bom para nós. Mas em última instância, é uma questão de fé. Para homens e mulheres cristãos no final do século vinte, as escolhas que fazemos em relação ao nosso comportamento sexual podem ser uma das principais formas de Deus nos desafiar a crer. Nos atreveremos a ser diferentes? Nos atreveremos a confiar na veracidade da Palavra de Deus mesmo quando esta contradiz a maioria das mentiras ao nosso redor? Eu acredito que Deus está nos desafiando a ter esse tipo radical de fé
quinta-feira, 15 de maio de 2008
The Psychology of Atheism - Paul Vitz, Ph.D (AÚDIO)
quinta-feira, 8 de maio de 2008
Psicologia do Ateísmo - Paul Vitz, Ph.D
Texto original: The Psychology of Atheism
O título desse ensaio, “Psicologia do Ateísmo”¹, pode parecer estranho. Certamente, meus colegas na psicologia acharam incomum e até, devo acrescentar, um pouco perturbador. A psicologia, desde sua fundação há um século atrás, freqüentemente se preocupou com o tópico oposto – a psicologia da crença religiosa. De fato, em muitos aspectos a origem da psicologia moderna está intrinsecamente ligada com os psicólogos que explicitamente propuseram interpretações da crença em Deus.
William James e Sigmund Freud, por exemplo, estavam pessoal e profissionalmente envolvidos profundamente na questão. Lembre-se de A Vontade de Crer de James, como também do seu famoso As Variedades das Experiências Religiosas. Essas duas obras são tentativas de entender a crença como resultado de causas psicológicas, ou seja, causas naturais. James pode até ter sido compassivo com a religião, mas sua posição pessoal era de dúvida e ceticismo e seus escritos eram parte de uma tentativa psicológica de menosprezar a fé religiosa. As criticas de Sigmund Freud à religião, especialmente o cristianismo, são bem conhecidas e serão discutidas com mais detalhes mais a frente. Por hora, é suficiente lembrar quão profundamente envolvidos com a questão de Deus e a religião, Freud e seus pensamentos estavam.
Tendo em vista o estreito envolvimento entre os fundadores da psicologia e a interpretação critica da religião, não é de se surpreender que muitos dos psicólogos vejam com certa desconfiança qualquer tentativa de propor uma psicologia do ateísmo. No mínimo, um projeto como esse coloca os psicólogos na defensiva e os oferece um pouco do seu próprio veneno. Os psicólogos estão sempre observando e interpretando os outros e já é hora de alguns deles aprenderem a partir de suas próprias experiências como é estar sob a mira da teoria e experimentação psicológicas. Eu espero demonstrar que muitos dos conceitos psicológicos utilizados para interpretar a religião são espadas de dois gumes, que podem também ser usados para interpretar o ateísmo. O que vale para o crente, igualmente vale para o descrente.
Antes de começar, entretanto, eu quero fazer dois pontos que estão por trás das minhas pressuposições. Primeiro, eu creio que as maiores barreiras para a crença em Deus não são racionais, mas – num sentido geral – podem ser chamadas de psicológicas. Não quero ofender nenhum filósofo distinto – tanto crentes quanto descrentes – nesse auditório, mas eu estou plenamente convencido que para cada pessoa fortemente convencida por argumentos racionais existem muitas, muitas mais afetadas por fatores psicológicos não-racionais.
Ninguém pode decifrar o coração humano e seus caminhos, mas ao menos é tarefa da psicologia tentar. Dessa forma, para começar, eu proponho que barreiras neurótico-psicológicas para a crença em Deus são de grande importância. Quais são elas mencionarei brevemente. Para os crentes é importante ter em mente que motivações e pressões psicológicas que muitos podem nem sequer se dar conta, muitas vezes estão por trás da descrença.
Um dos mais antigos teóricos do inconsciente, São Paulo, escreveu, “com efeito o querer bem está em mim, mas o efetuá-lo não está...mas vejo nos meus membros outra lei guerreando contra a lei do meu entendimento, e me levando cativo à lei do pecado, que está nos meus membros” Romanos 7.18,23. Assim, me parece que tanto pela teologia quanto pela psicologia fatores psicológicos podem ser impedimentos à crença como também ao comportamento, e que esses fatores freqüentemente são inconscientes. Além disso, é razoável dizer que as pessoas variam extensamente na intensidade da presença desses fatores em suas vidas. Alguns de nós fomos abençoados com uma boa criação, um bom temperamento, envolvimento social, e outros dons que fizeram da crença em Deus algo muito mais fácil do que para muitos que sofreram mais ou cresceram num ambiente pobre espiritualmente ou tiveram outras dificuldades com as quais lidar. As Escrituras deixam claro que muitas crianças – até a terceira ou quarta geração – sofrem dos pecados dos pais, incluindo os pecados dos pais que foram crentes. Resumidamente, meu primeiro ponto é que algumas pessoas têm barreiras psicológicas para a crença muito mais sérias do que outras, um ponto consistente com a afirmação clara das Escrituras de que nós não devemos julgar os outros, entretanto somos instados a corrigir o mal.
Meu segundo ponto é que apesar de sérias dificuldades para a crença, todos nós ainda temos a livre escolha de aceitar Deus ou rejeitá-lo. Esse ponto não está em contradição com o primeiro. Talvez um pouco mais de elaboração vai esclarecer esse ponto. Uma pessoa, como conseqüência do seu passado, envolvimento presente, etc., pode achar muito mais difícil acreditar em Deus do que a maioria das pessoas. Mas presumivelmente, a qualquer momento, certamente em muitos momentos, ela pode escolher se mover em direção a Deus ou pra longe dele. Um homem pode começar com tantas barreiras que mesmo depois de anos caminhando vagarosamente em direção a Deus ele ainda não esteja lá. Alguns podem morrer antes de alcançar a crença. Nós acreditamos que eles serão julgados – como todos nós – quão longe eles viajaram em direção a Deus e quão bem amaram os outros – o que eles fizeram com o que lhes foi dado. Da mesma forma, um outro homem sem dificuldades psicológicas ainda é livre para rejeitar Deus, e sem dúvidas muitos o fazem. Assim, apesar de que no fundo a questão é da vontade do homem e de nossa natureza pecaminosa, ainda é possível investigar os fatores psicológicos que predispõe alguém para a descrença, que faz a estrada em direção a Deus dura e difícil.
Psicologia do Ateísmo: Motivações Psicológicas e Sociais
Parece haver uma crença bem difundida na comunidade intelectual ocidental de que a crença em Deus é baseada em todos os tipos de desejos e necessidades imaturas, mas o ateísmo e o ceticismo são derivados de uma observação racional das coisas como elas são realmente. Para começar uma critica dessa idéia, eu começo com a minha própria história.
Como alguns de vocês sabem, depois de uma frágil criação cristã, eu me tornei ateu na faculdade nos anos 1950 e permaneci assim durante minha graduação e meus primeiros anos como um jovem psicólogo experimental na New York University. Isto é, eu sou um convertido adulto ou, mais tecnicamente, um reconvertido ao Cristianismo que voltou para a fé, para sua própria surpresa, no final dos meus 30 anos no meio do desenvolvimento secular da psicologia acadêmica em Nova Iorque.
Não estou entrando nisso para entediá-los com partes da história da minha vida, mas para mostrar que através da reflexão sobre minha própria experiência, é claro para mim que as minhas razões para se tornar e permanecer ateu-cético dos 18 aos 38 anos foram superficiais, irracionais e sem integridade moral e intelectual. Além do mais, eu estou convencido de que minhas motivações foram, e ainda são, um lugar comum entre os intelectuais especialmente cientistas sociais.
Os principais fatores envolvidos na minha escolha pelo ateísmo – apesar de eu não estar ciente na época – foram as seguintes:
Socialização geral. Uma influência importante na minha juventude foi uma significante inquietação social. Eu estava de certa forma envergonhado de ser do centro-oeste, pois parecia terrivelmente obtuso, limitado e interiorano. Não havia nada de romântico ou impressionante em ser de Cincinnati, Ohio e de uma origem Germano-Anglo-Suiça. Terrivelmente classe-média. Além de escapar do obtuso, e segundo eu mesmo sem-valor, passado social vergonhoso, eu queria fazer parte, de fato estar confortável no novo, excitante e glamuroso mundo secular para o quão eu estava me dirigindo. Eu estou certo de que motivações similares fortemente influenciaram as vidas de um sem-número de jovens emergentes nos últimos dois séculos. Veja Voltaire, que se mudou para o aristocrático e sofisticado mundo de Paris, e que sempre se sentiu envergonhado de sua origem interiorana e não-aristocrática; ou dos guetos Judeus para os quais muitos judeus fugiram, ou da chegada dos jovens a Nova Iorque, envergonhados de seus pais fundamentalistas. Esse tipo de pressão social afastou muitos da crença em Deus e tudo com o que a crença nele está relacionada.
Eu me lembro de um pequeno seminário na minha graduação no qual quase todos os membros expressavam algum tipo de vergonha devido às pressões da socialização na “vida moderna”. Um estudante tentava fugir de seu passado Batista, um outro de uma comunidade Mórmon, um terceiro fugia de seu gueto judeu, e o quarto era eu.
Socialização especifica. Uma outra grande razão para eu querer me tornar ateu foi que eu desejava ser aceito pelos poderosos e influentes cientistas do campo da psicologia. Em particular, eu queria ser aceito pelos meus professores. Como um estudante eu estava profundamente socializado com a cultura de pesquisa da psicologia acadêmica. Meus professores em Stanford, apesar de discordarem muito entre si no que se refere às teorias psicológicas, estavam unidos em apenas duas coisas – uma intensa ambição profissional e a rejeição da religião. Como diz o salmista, “Pois o ímpio gloria-se do desejo do seu coração, e o que é dado à rapina despreza e maldiz o Senhor. Por causa do seu orgulho, o ímpio não o busca; todos os seus pensamentos são: Não há Deus”.(Salmo 10.3-4).
No desenvolver disso tudo, assim como eu aprendi a me vestir como um estudante universitário colocando as roupas adequadas, eu também aprendi a “pensar” como um psicólogo adotando as idéias e atitudes corretas – isto é, idéias e atitudes ateístas.
Conveniência pessoal. Finalmente, nessa lista de superficiais, mas não menos fortes pressões irracionais para se tornar ateu, eu devo listar simplesmente a conveniência pessoal. A verdade é que é bastante inconveniente ser um crente devoto na cultura poderosa e neo-pagã da atualidade. Eu teria que abrir mão de muitos prazeres e de tempo útil. Sem entrar em detalhes não é difícil de imaginar os prazeres sexuais que teriam que ser rejeitados se eu me tornasse um crente devoto. E também eu sabia que me custaria tempo e algum dinheiro. Haveria cultos, grupos de comunhão, tempo de oração e leitura das Escrituras, tempo gasto ajudando os outros. Eu já estava por demais ocupado. Obviamente, se tornar religioso seria uma verdadeira inconveniência.
Agora talvez você pense que razões como essas estão restritas a jovens imaturos – como eu nos meus vinte e poucos anos. Entretanto, essas razões não são tão restritas. Tomo como exemplo o caso de Mortimer Adler, um conhecido filósofo Americano, escritor, e intelectual que gastou boa parte de sua vida pensando sobre Deus e a temática religiosa. Um de seus livros mais recentes é intitulado How to Think About God: A Guide for the 20th Century Pagan (1980) (Como pensar sobre Deus: Um guia para o pagão do século XX). Nessa obra, Adler examina minuciosamente os argumentos para a existência de Deus e nos capítulos finais ele está próximo a aceitar o Deus vivo. Ainda assim ele recua e continua entre “a vasta companhia dos religiosos não-comprometidos) (Graddy, 1982). Mas Adler deixa a impressão de que essa decisão é mais da vontade do que do intelecto. Como um de seus resenhistas notou (Graddy, 1982), Adler confirma essa impressão em sua autobiografia, Philosopher at Large (1976). Nessa obra, enquanto investiga as razões para já duas vezes parar quando esteve próximo de um comprometimento religioso, ele escreve que a resposta “está na vontade, e não na mente”. Adler vai além e comenta que se tornar seriamente religioso “requereria uma mudança radical no meu estilo de vida...” e “A verdade simples da questão é que eu não desejava viver como uma pessoa genuinamente religiosa” (Graddy, p.24).²
Ai está! Uma memorável admissão honesta e consciente de que ser “uma pessoa genuinamente religiosa” seria muito problemático e muito inconveniente. Tais são as razões por detrás de muito do ceticismo dos descrentes.
Resumidamente, por causa das minhas necessidades sociais, por causa das minhas necessidades profissionais de ser aceito como parte da psicologia acadêmica, e por causa das minhas necessidades por um estilo de vida conveniente – por todas essas necessidades o ateísmo era simplesmente a melhor escolha. Refletindo sobre essas motivações, eu posso afirmar honestamente que um retorno ao ateísmo é o mesmo do que um retorno à adolescência.
A Psicologia do Ateísmo: Motivações psicanalíticas.
Como sabemos, o centro da critica Freudiana à crença em Deus é que tal crença não é confiável por causa de sua origem psicológica. Isto é, Deus é uma projeção de nossos próprios e intensos desejos inconscientes; Ele é a satisfação de um desejo derivado das necessidades infantis de proteção e segurança. Visto que esses desejos são inconscientes, não deve ser dado muito crédito a qualquer negação de tal interpretação. Devemos notar que ao desenvolver esse tipo de crítica, Freud formulou um argumento ad hominem de grande influência. É na obra O Futuro de Uma Ilusão (1927, 1961) que Freud explica sua posição:
Idéias religiosas surgiram das mesmas necessidades de que surgiram todos as conquistas da civilização: da necessidade de defender-se da impetuosa e superior força da natureza. (p.21)
Logo, crenças religiosas são:
Ilusões, satisfação dos mais antigos, mais fortes, e urgentes desejos da raça humana... Como já sabemos, a pavorosa impressão de abandono na infância fez surgir o desejo de proteção – de proteção pelo amor – que foi provida pelo pai... Dessa forma a benevolente regra de Providência Divina apazigua nosso medo dos perigos da vida. (p.30)
Vamos examinar esse argumento cuidadosamente, pois apesar da aceitação entusiástica do argumento pelos ateus e céticos não-críticos, é um argumento muito frágil.
No primeiro parágrafo Freud falha em notar que seu argumento contra as crenças religiosas é, em suas próprias palavras, igualmente válido contra todas as conquistas da civilização, incluindo a própria psicanálise. Isto é, a origem psíquica de uma conquista intelectual invalida sua veracidade, então a física, a biologia, e a própria psicanálise, são vulneráveis a mesma acusação.
No segundo parágrafo Freud faz outra alegação estranha, de que os mais antigos e urgentes desejos da humanidade são de proteção e orientação amorosa por um poderoso Pai de amor, pela divina Providência. Entretanto, se esses desejos fossem tão fortes e antigos como ele alega, era de se esperar que as religiões pré-cristãs enfatizassem Deus como um pai benevolente. Em geral, isso é bem distante do caso das religiões pagãs do mundo Mediterrâneo - e, por exemplo, ainda não é o caso em muitas religiões populares como o Budismo ou o Hinduísmo. De fato, o Judaísmo e mais especificamente o Cristianismo são em muitos aspectos distintos em sua ênfase em Deus como um Pai de amor.
Entretanto, deixemos de lado essas duas gafes intelectuais e voltemos para um outro entendimento da teoria da projeção de Freud. Pode ser demonstrado que essa teoria não é realmente parte integrante da psicanálise - e, dessa forma não tem a teoria psicanalítica como fundamento de apoio. É essencialmente um argumento autônomo. De fato, a atitude crítica de Freud em relação à religião é enraizada em suas predileções pessoais e é um tipo de meta-psicanálise - ou se origina em fundamentos sem relação com seus conceitos clínicos. (Essa separação ou autonomia em relação a muito da teoria psicanalítica muito provavelmente é responsável pela influência do argumento fora do âmbito da psicanálise). Existem duas evidências para essa interpretação da teoria da projeção.
A primeira é que essa teoria foi articulada claramente muitos anos antes por Ludwig Feurbach em seu livro A Essência do Cristianismo (1841, 1957). A interpretação de Feurbach foi popular no meio dos intelectuais europeus, e Freud, quando jovem, lia Feurbach avidamente (veja Gedo & Pollock, 1976, pp.47,350) Seguem algumas significativas citações de Feurbach que esclarecem isso:
O que o homem sente necessidade - seja essa uma necessidade articulada, portanto consciente, ou uma necessidade inconsciente - é Deus (1841, 1957, p. 33)
O homem projeta sua natureza no mundo exterior a si mesmo antes de encontrá-lo dentro de si (p.11)
Viver por meio de sonhos projetados é a essência da religião. A religião sacrifica a realidade em prol do sonho projetado. (p. 49)
Muitas outras citações de Feurbach poderiam ser usadas para descrever a religião em termos "Freudianos" como satisfação-de-desejo (wish-fulfillment), etc. O que Freud fez com esse argumento foi reconstruí-lo em uma forma mais eloqüente, e publicá-lo num período posterior onde a audiência ansiosa por ouvir uma teoria como essa era muito maior. E, é claro, de alguma forma as descobertas e a própria teoria psicanalítica foram utilizadas como se apoiassem fortemente a teoria. O caráter Feurbachiano da posição de Freud que taxa a religião de ilusão é demonstrado também em noções como "a esmagadora força superior da natureza" e a "apavorante impressão de desamparo na infância", que não são psicanalíticas em terminologia ou sentido.
A outra evidência que comprova que as bases da teoria da projeção não são psicanalíticas, vem diretamente do próprio Freud, que explicitamente afirma isso. Numa carta escrita em 1927 para seu amigo Oskar Pfister (um antigo psicanalista e pastor protestante), Freud escreveu:
Vamos ser bem claros quanto à questão de que as opiniões difundidas em meu livro (O Futuro de uma Ilusão) não são parte da teoria analítica. São minhas visões pessoais. (Freud/Pfister, 1963, p; 117)
Há outra interpretação um pouco diferente da crença em Deus que Freud desenvolveu também, mas apesar de essa teoria ter um certo embasamento psicanalítico, é na verdade, ainda, uma adaptação da teoria Feurbachiana da projeção. É a interpretação negligenciada de Freud quando ao ego ideal. O super-ego, incluindo o ego ideal é o "herdeiro do complexo de Édipo", representando a projeção de um pai idealizado e presumivelmente do Deus-Pai (veja Freud, 1923, 1962, pp. 26-28; p.38)
A dificuldade aqui é que o ego ideal não recebeu muita atenção ou desenvolvimento nos escritos de Freud. Além do mais, é facilmente interpretado como uma adoção da teoria da projeção de Feurbach. Assim, podemos concluir que a psicanálise na verdade não provê conceitos teóricos significativos para caracterizar a crença em Deus como neurótica. Freud tanto usou a antiga teoria de projeção ou ilusão de Feurbach como incorporou Feurbach em sua noção de ego ideal. Presumivelmente, essa é a razão por que Freud reconheceu a Pfister que seu livro O Futuro de uma Ilusão, não é parte integrante da psicanálise
Ateísmo como Satisfação-de-Desejo Edipiano
Apesar de tudo, Freud de certa forma está certo ao se preocupar que a crença em Deus possa ser uma ilusão por se derivar de desejos poderosos - tanto necessidades inconscientes quanto infantis. A ironia é que ele claramente proveu uma poderosa e nova forma de entender as bases neuróticas do ateísmo. (Para um desenvolvimento detalhado dessa posição veja Vitz e Gartner, 1984a, b; Vitz, 1986, in press.)
O Complexo de Édipo
O conceito central na obra de Freud, além do inconsciente, é o bem conhecido complexo de Édipo. No caso do desenvolvimento da personalidade masculina, os aspectos essenciais desse complexo são os seguintes: Por volta do período que vai dos três aos seis anos o filho desenvolve um forte desejo sexual pela mãe. Ao mesmo tempo o filho desenvolve um intenso ódio e medo do pai, e um desejo de substituí-lo, uma "ânsia por poder". Esse ódio é baseado no conhecimento que o garoto tem de que o pai, com sua força e tamanho, obstrui o caminho do seu desejo. O medo da criança do pai pode explicitamente ser um medo de castração pelo pai, mas mais tipicamente, tem um caráter menos especifico. O filho não quer realmente matar o pai, é claro, mas é presumido que o patricídio é uma preocupação comum em suas fantasias e sonhos. A "solução" do complexo deve ocorrer através do reconhecimento de que ele não pode substituir o pai, e através do medo da castração, que eventualmente leva o garoto a se identificar com o pai, se identificar com o agressor, e recalcar os pavorosos componentes originais do complexo.
É importante ter em mente que, de acordo com Freud, o complexo de Édipo nunca é totalmente solucionado, e é passível de retorno em períodos posteriores - quase sempre, por exemplo, na puberdade. Assim os poderosos ingredientes do ódio homicida e do desejo sexual incestuoso no contexto familiar nunca são removidos de fato. Ao invés disso, eles são cobertos e recalcados. Freud explica o potencial neurótico dessa situação:
O complexo de Édipo é o núcleo da neurose... O que permanece do complexo no inconsciente representa a disposição ao desenvolvimento de neuroses no adulto (Freud, 1919, Standard Edition, 17, 0. 193; also 1905, S.E. 7, p. 226ff; 1909, S.E., 11, p. 47)
Resumidamente, todas as neuroses humanas se derivam desse complexo. Obviamente, na maioria dos casos, esse potencial não é expresso em nenhuma maneira neurótica séria. Ao invés disso, o complexo é expresso na relação com autoridades, sonhos, atos falhos, irracionalidades transitórias, etc.
Agora, ao postular um complexo de Édipo universal como a origem de todas as neuroses, Freud inadvertidamente desenvolveu um entendimento racional da origem da rejeição de Deus na Satisfação-de-Desejo.
Além de tudo, o complexo de Édipo é inconsciente, é estabelecido na infância e, acima de tudo, sua motivação dominante é o ódio pelo pai e o desejo de sua não-existência, especificamente representada pelo desejo de substituí-lo ou matá-lo. Freud freqüentemente descrevia Deus como psicologicamente equivalente ao pai, então uma expressão natural da motivação Edipiana seriam desejos poderosos e inconscientes da não-existência de Deus. Logo, sob o ponto de vista Freudiano, o ateísmo é uma ilusão causada pelo desejo Edipiano de matar o pai e substituí-lo por si mesmo. Agir como se Deus não existisse é obviamente, uma máscara sutil do desejo de matá-lo, do mesmo modo num sonho, a imagem de um parente indo embora ou desaparecendo pode representar um desejo como esse: "Deus está morto" é simplesmente uma Satisfação-de-Desejo Edipiana desmascarada.
Certamente não é difícil de entender o caráter edipiano no ateísmo e ceticismo contemporâneos. Hugh Hefner, até James Bond, com sua rejeição a Deus mais suas inúmeras mulheres, estão obviamente vivendo o Édipo de Freud e a rebelião primitiva (e.g. Totem e Tabu). Assim também estão inúmeros outros céticos que vivem variações do mesmo cenário de permissividade sexual exploradora combinada com auto-adoração narcísica.
E, é claro, o sonho de Édipo não é apenas matar o pai e possuir a mãe ou outras mulheres no grupo, mas também retirá-lo de seu lugar. O Ateísmo moderno tem tentado alcançar isso. Agora o homem, não Deus, é conscientemente a fonte Última de bondade e força do universo. Filosofias humanistas glorificam o homem e seu "potencial" quase da mesma forma que a religião glorifica o Criador. Saímos de um Deus para vários deuses e agora cada um como deus. Essencialmente, o homem - através de seu narcisismo e desejos Edipianos - tem tentado fazer o que Satanás não conseguiu, se assentar no trono de Deus. Graças a Freud agora é mais fácil entender a profundidade neurótica e não confiável da descrença.
Um exemplo interessante da motivação Edipiana proposta aqui é Voltaire, um expoente do ceticismo que negou a noção judaico-cristã de um Deus pessoal - de Deus como Pai. Voltaire foi um teísta ou deísta que acreditava num Deus cósmico, impessoal de caráter desconhecido.
O questão psicológica importante sobre Voltaire é que ele insistentemente rejeitou seu pai - tanto que ele rejeitou o nome de seu pai e usou o nome "Voltaire". Não é certo de onde o nome veio, mas uma interpretação aceita pela maioria é que o nome foi construído a partir das letras do sobrenome de sua mãe. Quando Voltaire estava nos seus vinte anos (em 1718), ele publicou uma peça intitulada "Édipo", a primeira de suas peças a ser apresentada ao público. A peça reconta a clássica lenda com fortes alusões a rebelião religiosa e política. Por toda sua vida, Voltaire (assim como Freud) brincou com a idéia de que ele não era filho de seu pai. Ele aparentemente ansiava por ser de uma família aristocrática e mais importante do que sua família de classe média. (Uma expressão dessa preocupação de ter um pai mais digno é a peça Cândido). Resumidamente, a hostilidade de Voltaire ao seu próprio pai, sua rejeição religiosa ao Deus-Pai, e sua rejeição política do rei - também uma figura do pai - são todas reflexões dos mesmos desejos básicos. Psicologicamente falando, a rebelião de Voltaire contra seu pai e contra Deus são facilmente interpretadas como Satisfação-de-Desejo Edipiana, como ilusões confortadoras, e logo, seguindo Freud, como crenças e atitudes indignas da mente madura.
Diderot, o grande Enciclopedista e um renomado ateu - de fato ele é um dos fundadores do ateísmo moderno - também tinha insights e preocupações Edipianas. Freud em tom de aprovação cita a observação de Diderot:
Se o pequeno bárbaro fosse deixado por si mesmo, preservando toda sua tolice e adicionando ao pequeno sentido de criança no berço as violentes paixões de um homem de trinta anos, ele estrangularia seu pai e se deitaria com sua mãe (de Le neveau de Rameau. citado por Freud na Lição XXI de suas Lições Introdutórias (1916- 1917), S.E., 16, pp. 331-338).
Psicologia do Ateísmo: A Teoria do Pai Defectivo
Estou bem ciente do fato de que há boas razões para darmos apenas uma limitada aceitação à teoria freudiana do Édipo. De qualquer forma, é minha visão de que apesar de o complexo de Édipo ser válido para alguns, a teoria está longe de ser uma representação universal da motivação inconsciente. Visto que há necessidade de um mais profundo entendimento do ateísmo e visto que eu não conheço nenhum fundamento teórico - exceto o de Édipo - sou forçado a rascunhar um modelo próprio, ou realmente desenvolver uma não-desenvolvida tese de Freud. Em seu ensaio sobre Leonardo da Vinci, Freud fez a seguinte observação:
A psicanálise, que nos ensinou a intima conexão entre o complexo do pai e a crença em Deus, tem nos mostrado que o Deus pessoal é logicamente nada mais do que um pai exaltado e diariamente demonstra como jovens pessoas abandonam sua crença religiosa assim que a autoridade do pai não se faz mais presente (Leonardo da Vinci, 1910, 1947 p. 98).
Essa declaração não faz nenhuma afirmação sobre desejos sexuais inconscientes pela mãe, ou até algum ódio universal pelo pai. Ao invés disso, ele diz simplesmente que uma vez que a criança se desaponte ou perca seu respeito pelo pai terreno, então a crença em Deus se torna impossível. Existem, é claro, muitas formas de um pai perder sua autoridade e desapontar uma criança seriamente. Algumas dessas formas - para as quais evidências clínicas são dadas abaixo - são:
1. Ele pode estar presente, mas ser fraco, covarde, ou indigno de respeito - mesmo que de alguma outra forma for simpático ou "legal".
2. Ele pode estar presente, mas ser abusivo tanto física, sexual ou psicologicamente.
3. Ele pode estar ausente por motivo de morte ou por abandonar a família.
Unidas essas determinantes do ateísmo serão chamadas de hipótese do "pai defectivo". Para apoiar a validade dessa abordagem, eu vou concluir provendo material histórico da vida de ateus proeminentes, pois foi a partir da leitura das biografias de ateus que essa hipótese veio a minha mente pela primeira vez.
Vamos começar pela relação de Sigmund Freud com seu pai. Que o pai de Freud, Jacob, foi um grande desapontamento - ou até pior - é geralmente aceito em suas biografias. (Para acesso ao material biográfico de apoio sobre Freud veja, por exemplo, Krull, 1979, e Vitz, 1983, 1986). Especificamente, seu pai foi um homem fraco incapaz de sustentar financeiramente sua família. O suporte financeiro parece ter sido provido pela família de sua esposa e outras pessoas. Além do mais, o pai de Freud era passivo em resposta ao anti-semitismo. Freud relembra um episódio que o seu pai o contou, no qual Jacob permitiu que um anti-semita o chamasse de "Judeu sujo" e derrubasse seu chapéu. O jovem Sigmund, ao ouvir a história, ficou profundamente abalado pelo fracasso do pai e pela sua fraqueza. Sigmund Freud foi um homem complexo e em muitos aspectos ambíguo, mas todos concordam que ele foi um lutador corajoso e que ele admirava profundamente a coragem nos outros. Sigmund, quando jovem, muitas vezes lutou fisicamente contra o anti-semitismo e, é claro, ele foi um dos maiores lutadores intelectuais. As ações de Jacob como um pai defectivo, entretanto, provavelmente vão ainda mais fundo. Especificamente, em duas de suas cartas de quando já adulto Freud escreve que seu pai era um pervertido sexual e que os próprios filhos de Jacob sofriam com isso. Existem outros possíveis desastres morais que eu não me preocupei em citar.
A conexão de Jacob com Deus e a religião também estavam presentes para seu filho. Jacob estava envolvido num tipo de reforma Judaica quando Freud era criança, e os dois gastavam horas lendo a Bíblia juntos, e mais tarde Jacob se tornou cada vez mais envolvido em ler o Talmude e debater sobre as escrituras judaicas. Resumidamente, esse "cara legal" fraco e passivo, esse schlemiel, estava claramente ligado ao Judaísmo e à Deus, e também a uma séria falta de coragem e possivelmente à perversão sexual e outros fracassos que abalaram o jovem Sigmund.
Sucintamente, outros famosos ateus parecem ter tipo um tipo de relacionamento com seus pais, similar ao de Freud. Karl Marx deixou claro que não respeitava seu pai. Uma parte importante nisso foi que seu pai se converteu ao Cristianismo - não a partir de qualquer convicção religiosa - mas a partir de um desejo de tornar a vida mais fácil. Ele se converteu por conveniência. Nisso o pai de Marx quebrou uma antiga tradição familiar. Ele foi o primeiro na família que não se tornou um rabino; de fato, Karl Marx veio de uma longa tradição rabínica em ambos os lados de sua família.
O pai de Ludwig Feurbach fez algo que poderia facilmente ter ferido profundamente seu filho. Quando Feurbach tinha 13 anos, seu pai deixou sua família e abertamente foi viver com outra mulher numa outra cidade. Isso aconteceu na Alemanha no inicio do século 19 e uma rejeição pública dessa proporção seria um grande escândalo e deixaria um grande sentimento de rejeição no jovem Ludwig - e, é claro, para sua mãe e os outros filhos.
Vamos avançar cem anos e examinar a vida de uma das ateístas mais famosas da América - Madalyn Murray O'Hair. Aqui eu cito o livro mais recente de seu filho sobre como era a sua família quando ele era criança. (Murray, 1982) O livro começa quando ele tinha oito anos de idade: "Nós raramente fazíamos algo juntos como família. O ódio entre meu avô e minha mãe impedia situações como essas”.(p. 7) Ele diz que não sabia realmente o porquê do ódio de sua mãe pelo pai - mas ela o odiava, pois o capitulo de abertura conta uma briga feia na qual ela tenta matar seu pai com uma faca. Madalyn falhou mais esbravejou: "Eu vou vê-lo morto. Eu ainda te pego. Eu vou pisar da sua cova!" (p. 8)
Qualquer que fosse a causa do intenso ódio de O'Hair pelo seu pai é claro, no livro, que foi profundo e que remonta a sua infância - ao menos psicológico (e.g.p. 11) e possivelmente abuso físico é uma causa plausível.
Além do abuso, rejeição, ou covardia, uma forma do pai ser seriamente defectivo é simplesmente não estar presente. Muitas crianças, é claro, interpretam a morte de seu pai como um tipo de traição ou ato de deserção. Nesse aspecto é notável que o padrão de um pai morto é tão comum na vida de muitos ateus proeminentes.
Baron d'Holbach (nascido como Paul Henri Thiry), o racionalista francês e provavelmente o primeiro ateu confesso publicamente, ficou órfão aos 13 anos e viveu com seu tio. (De quem ele tomou o nome Holbach). O pai de Bertrand Russel morreu quando ele tinha quatro anos; Nietzsche tinha a mesma idade de Russell quando perdeu seu pai; o pai de Sartre morreu antes de Sartre nascer e Camus tinha um ano quando perdeu seu pai. (As informações bibliográficas foram tiradas de fontes de referência padrão). Obviamente, muito mais evidências podem ser obtidas para a hipótese do "pai defectivo". Mas as informações já citadas são substanciais; improváveis de serem uma mera coincidência.
A psicologia de como um pai falecido ou não-existente poderia fornecer base emocional para o ateísmo pode não ser clara a primeira vista. Mas se o pai de alguém é ausente ou fraco a ponto de morrer, ou tão indigno a ponto de deserdar, então não é difícil colocar os mesmos atributos no Pai celeste.
E por ultimo, há também a experiência precoce de sofrimento, morte, de mal, algumas vezes aliadas à raiva contra Deus por permitir que tais coisas acontecessem. Raiva precoce contra Deus pela perda do pai e o sofrimento subseqüente é ainda outra e diferente psicologia da descrença, mas estreitamente ligada com a teoria do pai defectivo.
Parte dessa psicologia é clara na recente autobiografia de Russell Baker. (Baker, 1982) Russel Baker é um famoso jornalista e escritor comediante do New York Times. Seu pai foi levado para o hospital e morreu subitamente quando Russel tinha cinco anos. Baker chorou e sofreu e falou para a governanta de sua casa, Bessie:
... Pela primeira vez eu pensei seriamente sobre Deus. Entre soluços eu disse a Bessie que se Deus podia fazer coisas como essas às pessoas, então Deus era detestável e eu não precisava dEle.
Bessie me falou sobre a paz no céu e a alegria de estar entre os anjos e a felicidade de saber que meu pai já estava lá. O argumento falhou em aliviar minha ira.
"Deus ama a nós todos como Seus próprios filhos", Bessie disse.
"Se Deus me ama, por que Ele fez meu pai morrer?"
Bessie disse que eu entenderia algum dia, mas ela estava apenas parcialmente certa. Aquela tarde, apesar de eu não ter conscientemente formulado dessa forma, eu decidi que Deus estava muito menos interessado nas pessoas do que qualquer um em Morrisonville admitiria. Naquele eu decidi que Deus não era confiável.
Após isso eu nunca mais chorei com convicção real, nem esperei muito do Deus de qualquer um além de indiferença, nem amei profundamente sem medo de que isso me custasse uma profunda dor. Aos cinco anos eu me tornei cético...(Growing Up, p. 61).
Concluo lembrando que por mais que existam motivos superficiais que prevaleçam no ateísmo do individuo, os fatores psicológicos profundos e perturbadores ainda estão presentes em muitas instâncias também. Por mais fácil que seja afirmar a hipótese do "pai defectivo", não podemos esquecer a dificuldade, a dor e a complexidade que estão por trás de cada caso individual. E para aquele cujo ateísmo foi condicionado por um pai que o rejeitou, negligenciou, odiou, manipulou ou o abusou física ou sexualmente, tem que haver compreensão e compaixão. Certamente uma criança odiar o próprio pai é algo trágico. Apesar de tudo, a criança deseja amar seu pai. Para qualquer descrente cujo ateísmo repousa em tal experiência, o crente, abençoado pelo amor de Deus, deve orar mais especificamente para que no final ambos se encontrem no paraíso. Encontrem e experimentem grande alegria. Se for assim, talvez o ex-ateu experimentará ainda mais alegria do que o crente. Pois, além da felicidade do crente, o ateu ainda terá o incremento de se surpreender rodeado de alegria e, entre todos os lugares, na casa de seu Pai.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
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Vitz, P.C., & Gartner, J. (1984b). Christianity and psychoanalysis, part 2: Jesus the transformer of the super-ego. Journal of Psychology and Theology, 12, 82-89.
NOTA DE RODAPÉ
¹Address: New York University, Department of Psychology, 6 Washington Place, New York 10003.
²Eu sei que há uma continuação para a história de Adler. Recentemente ouvi falar que há aproximadamente 2 anos atrás Adler se tornou Cristão-Anglicano.