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domingo, 21 de novembro de 2010

A Religião de Karl Marx



Essa reflexão é fruto de mais um dos inúmeros trabalhos que tenho que entregar neste final de período da faculdade. O texto baseia-se numa reflexão sobre o sexto capítulo de Filosofia da Religião de Giuseppe Staccone.

Pode-se considerar Karl Marx, ao lado de Sigmund Freud, Friedrich Nietzsche e Charles Darwin, como um dos alicerces do espírito ateísta de nossos tempos. “Religião é o ópio do povo” sentenciou Marx seguido, então, por muitos “intelectuais” contemporâneos. Entretanto, ao contrário desses outros pensadores ateus¹ citados, Marx nunca escreveu um tratado específico contra a religião. Seu espírito anti-eclesiástico e ateísta era manifesto através de suas obras.

O ateísmo parece ser um pressuposto da teoria marxista, já que a religião, mais especificamente a Igreja Romana, é alicerce da tradição e, portanto, da superestrutura da sociedade contemporânea. A revolução marxista implica a subversão desses valores da tradição e, portanto, de seu maior representante: A Igreja  Católica Apostólica Romana. Antonio Gramsci parece ter entendido isso perfeitamente no seu conceito de hegemonia e do intelectual orgânico. Este é o sustentador daquela. Assim, para que a revolução comunista procedesse fazia-se necessária a formação de intelectuais orgânicos vinculados à causa marxista. Estes seriam os responsáveis pela subversão dos valores da tradição e abririam espaço para recepção da revolução comunista. Não há verdade para eles, tal conceito é puramente burguês. O que importa é a construção de uma nova realidade que terá como fim o proletário.

Karl Marx foi influenciado pelos jovens hegelianos e sua crença na completa desassociação entre Filosofia e Teologia. Eles defendiam a completa emancipação da Filosofia do domínio da Teologia. A racionalidade encontra seu ápice aí, embora eu acredite que implícito nesse conceito de racionalidade esteja o conceito de naturalismo, isto é, a cosmovisão que concebe o universo, digamos, como uma caixa fechada onde tudo que existe e acontece encontra-se dentro desta caixa, portanto, as explicações e causas devem ser buscadas no interior dessa caixa. Não há espaço para influências externas tais como um Deus ou qualquer entidade metafísica. Essa concepção de racionalidade me parece deveras errônea. Não há nenhuma necessidade lógica do naturalismo para a racionalidade. Até porque se, de fato, houver um ser tal como Deus ou houver alguma ordem sobrenatural atuante, ou criadora, no universo fica difícil compreender como poderemos chegar a alguma conclusão racional sobre o universo e nossa existência sem levarmos em consideração tal pressuposição. Foi C.S. Lewis quem sabiamente afirmou que a última coisa que a questão de Deus pode ser é ser “mais ou menos importante”, pois das duas possíveis – e antagônicas - respostas a essa pergunta se derivam conclusões radicalmente opostas.

Se me for permitido fazer um comentário fruto das minhas convicções cristãs, cito um trecho do prefácio do livro Theology and the Kingdom of God do teólogo alemão Wolfhart Pannenberg. Pannenberg é um crítico do subjetivismo teológico de R. Bultmann e K. Barth. Para ele a teologia cristã é uma dentre outras conflitantes cosmovisões que buscam se impor e explicar o universo e a natureza humana. A Teologia é uma empreitada pública aberta ao escrutínio da razão. Traduzindo livremente:

Se por razão alguém quer dizer as ideias que constituem a sabedoria convencional, então há muito na sabedoria bíblica que é “irracional”. Jesus disse que os últimos serão os primeiros, aquele que perde a sua vida a ganhará, e outros ensinos aparentemente irracionais. Paulo afirma que é um tolo por Cristo. Tais afirmações, insiste Pannenberg, não constituem um abandono da razão. Ao contrário, o argumento de Paulo é que seus oponentes estão arrazoando a partir de falsas premissas, pelas quais ele seria julgado como tolo. Contra isso ele afirma um outro conjunto de premissas e procede a defender a racionalidade de sua posição. Da mesma forma, Jesus convidou seus discípulos a segui-lo porque seu estilo de vida era razoável.

Vemos, então, o contraste do pensamento de Pannenberg e o pensamento moderno, como também do pensamento teológico de R. Bultmann e K. Barth. A racionalidade de uma proposição depende das premissas nas quais ela está baseada, portanto, a questão metafísica sobre a existência ou não de uma ordem sobrenatural é de fundamental relevância, mas jamais o naturalismo pode ser uma exigência lógica da racionalidade. Em síntese, o que temos aqui é um conflito entre cosmovisões diametralmente opostas: o naturalismo contra o supranaturalismo.

Mas, voltemos ao texto sobre Karl Marx. Para Marx a filosofia tem sua própria confissão de fé: o ateísmo, a radical negação de todos os deuses. Disse ele:

A Filosofia, enquanto uma gota de sangue palpitar em seu coração, triunfador do mundo e inteiramente livre, não cessará de clamar com Epicuro aos adversários: Não é ateu quem despreza os deuses da multidão e sim aquele que adere às opiniões do vulgo acerca dos deuses. A Filosofia não dissimula. A profissão de fé de Prometeu, resumida nesta única frase: 'odeio de coração a todos e a cada um dos deuses', é sua própria profissão de fé, seu lema contra todos os deuses do céu e da terra que o reconhecem a autoconscncia humana como a divindade suprema. Não pode haver outro deus ao lado deste"
Discordo, como já explicitei, da exigência naturalista para o pensamento filosófico. Aqui, então, gostaria de denunciar o que me parece ser a religião de Marx: a autoconsciência humana. Como pode Marx ter essa certeza da centralidade da autoconsciência humana? Parece-me que aqui vemos um compromisso religioso de Marx e, acho que posso dizer, do Marxismo. Não seria também essa posição uma espécie de ópio? Em que se apoiaria tal proposição marxista para que possamos julgá-la como racional ou não? Parece-me que não há lá como fundamentar tal afirmação. Aqui temos uma pressuposição marxista. Uma pressuposição religiosa. Naturalista é verdade, mas ainda assim religiosa tal como Paul Tillich definiu a fé religiosa: “estar tomado por aquilo que nos toca de forma última”. A pressuposição marxista me parece tão dogmática quanto qualquer pressuposição religiosa. Isso se evidencia ainda mais nas promessas utópicas do marxismo ao sonhar com um tempo onde os homens terão tudo em “comum” sem sequer a necessidade do Estado, que será abolido por fim. Isso nada mais é do que trazer a esperança cristã de um vindouro Reino de Paz para o presente. Nas minhas limitações filosóficas não encontro diferença nenhuma entre  tal crença marxista e a religiosa.


¹ Um leitor me questionou pelo fato de eu ter colocado Darwin entre "pensadores ateus", pois ele não era ateu e sim agnóstico. Ele tem razão, Darwin nasceu anglicano, foi leitor de William Paley, mas morreu agnóstico e não ateu como eu dissera. Veja sobre a visão religiosa de Darwin aqui.
². PARINETTO, L., Karl Marx sul/a religione, ed. La Nuova Itália, Firenze, 1980 -
(é uma antologia de 585 páginas de textos marxianos sobre a religião, com relativos breves
comentérlos) - p, 148,

quinta-feira, 19 de agosto de 2010

Pannenberg responde



Qual é a sua principal preocupação com a Igreja nos próximos 25 anos?



Pannenberg: Minha principal preocupação com a Igreja é que ela continue a pregar o Evagenlho e não se adapte a padrões e interesses seculares. Algumas igrejas e muitos ministros acham que tem de se adaptar aos interesses seculares das pessoas para alcançá-las. Eu acho que o oposto é verdadeiro. Se as pessoas forem ouvir na igreja somente aquilo que elas já ouvem na televisão e leem nos jornais, não haveria nenhuma necessidade de ir à Igreja. A Igreja tem de proclamar algo diferente: a esperança da vida eterna. Ela deve proclamar a participação com o Cristo crucificado através do batismo pela fé.

Fonte: http://faith-theology.blogspot.com/2005/10/more-from-pannenberg.html

terça-feira, 6 de julho de 2010

Quando Tudo É Permitido - Wolfhart Pannenberg




Wolfhart Pannenberg, dotado de uma incrível bagagem interdisciplinar e de uma excepcional habilidade de relacionar a Teologia com as demais disciplinas acadêmicas - incluindo a Filosofia, Sociologia, História e as Ciências Naturais - é provavelmente o mais proeminente teólogo contemporâneo. Foi aluno de Karl Barth, Edmund Schlink e Gerhard Von Rad. Pannenberg rompeu com a teologia de seus antecessores alemães , como Karl Barth, Tillich e Bultmann, que não viam a resurreição de Cristo como um fato histórico e, portanto, acessível ao escrutínio racional. Pannenberg não só rompeu com esta tradição como recolocou a Teologia na busca pela verdade, retirando-a do campo do subjetivismo extra-racional. Para ele a resurreição de Cristo é a chave para a compreensão da história. Seu magnum opus, sua Teologia Sistemática de três volumes, foi recentemente traduzido para o português pela editora Paulus. Recentemente se aposentou após 27 anos como professor de Teologia Sistemática da Universidade de Munique, Alemanha, e diretor do Instituto de Teologia Ecumênica. Tradução do alemão para o inglês por Markus Bockmuehl.

Para ler outro artigo do Pannenberg traduzido neste blog:
Como Pensar Sobre o Secularismo - Wolfhart Pannenberg


Mais informações sobre Pannenberg:
1 )Wolfhart Pannenberg's Quest for the Ultimate Truth - Stanley Grenz
2) Pannenberg - Theologian and Man
3) Wikipedia
4) Blog Teologia Contemporânea


Tradução: Vitor Grandohttp://despertaibereanos.blogspot.com
vitor.grnd@gmail.com


É uma notável singularidade dos nossos dias que o assunto da moralidade e da ética seja tido como uma questão de interesse público, enquanto a questão referente a Deus seja tida como uma questão esotérica de interesse de teólogos e "pessoas que buscam esse tipo de coisa." Nem sempre foi assim, e é muito importante perguntarmos como chegamos à presente situação, e o que pode ser feito em relação a isso.

O debate público, hoje em dia, sobre valores morais é normalmente estruturado em termos de uma busca por um consenso moral que não mais é auto-evidente; de fato, a questão da moralidade não é evidente para muita gente. A busca por um consenso moral baseado numa natureza humana comum tem, por algum tempo já, substituído a função social da crença religiosa, que por muito foi tida como um fundamento indispensável à paz social. Em grande parte da história, a unidade religiosa era vista como essencial à unidade da sociedade e da cultura. Essa suposição foi abalada durante as guerras religiosas na Europa nos séculos XVI e XVII.

Como consequência das guerras religiosas, a conclusão oposta foi tirada: A paz social requer que as crenças religiosas, e desacordos sobre crenças religiosas, sejam desconsideradas. Apesar de a religião institucionalizada ter continuado por um bom tempo na Europa, a religião não mais servia a seu antigo propósito. No lugar da religião, conceitos sobre a natureza humana se tornaram fundamentais em teorias sobre a sociedade e a cultura pública.

Entre os pensadores alemães, foi Wilhelm Dilthey quem, já no final do século XIX, delineou as maneiras pelas quais, começando em meados do século XVII, a natureza humana substituiu a religião no pensamento Europeu. Sendo construídas sobre reformulações da lei natural por Hugo Grotius e Thomas Hobbes; as teorias de contrato social, conceitos de moralidade natural e religião natural se tornaram populares e foram frequentemente usadas contra a religião e moralidade reveladas. Ainda assim, por algum tempo os conceitos de moralidade continuaram a usar a crença em Deus como origem das normas morais e como o juiz final do comportamento humano. A conexão necessária entre Deus e a moralidade foi preservada, por exemplo, no pensamento de Herbert de Cherbury e John Locke. Com Anthony Shaftesbury, entretanto, o sentimento moral foi tratado como autônomo. Mesmo no caso dele, entretanto, enquanto o sentimento moral era independente da religião, seu ideal de harmonia requeria, no final, harmonia com Deus e a ordem do universo.

O século XVIII testemunhou abordagens diferentes sobre se há autonomia humana em se tratando de moral, ou se o sentimento moral depende da crença em Deus. David Hume argumentou a favor da autonomia do sentimento moral, enquanto Rousseau foi pelo outro lado. Enquanto Rousseau pensava que a consciência era a fonte de nosso conhecimento sobre os deveres da lei natural, ele também pensava que a consciência do homem está desajustada. No livro Emílio, de Rousseau, o Vigário de Savoy argumenta que a voz da consciência foi praticamente extinta na maioria de nós devido à expressiva experiência de perversão humana e injustiça. Uma purificação da consciência é requerida, e isso somente é possível se acreditarmos em Deus. Se Deus não existe, o vigário afirma, então somente os perversos estão agindo razoavelmente. Não faz sentido ser bom. Assim, o sucesso do perverso nessa vida enfraqueceria o sentimento moral do bom. Isso pode ser prevenido apenas pela crença de que há uma recompensa final além dessa vida na qual todos receberão o que lhes é devido. A religião é, portanto, de importância pública no Contrato Social de Rousseau, apesar de não ser religião revelada. Em vez disso, ele propôs uma "religião civil" com artigos suficientes de fé para motivar o comportamento moral: crença em Deus como origem da ordem social e da lei, na divina providência, e na recompensa futura.

Apesar disso ser, às vezes, menosprezado, Immanuel Kant era um admirador de Rousseau, e em sua Crítica da Razão Pura ele aderiu à ideia de que a moral pressupõe religião. Kant afirmou a autonomia da razão como a única fonte de nossa consciência da lei moral, mas em sua visão a motivação da conduta moral pressupõe uma ordem moral na qual cada pessoa vai receber a medida de alegria ou tristeza apropriada a seu mérito. Para ser assim, deve haver uma harmonia entre a ordem moral e o curso da natureza, e isso pode ser garantido apenas pelo criador que, em sua capacidade como razão máxima, é também a fonte de nossa obrigação moral. Sem a existência de Deus, a razão seria compelida a concluir que sua intuição da lei moral é pura ficção. Essa visão deixa um problema para Kant, já que torna nosso sentido moral dependente da existência de Deus, o que contradiz sua alegação da autonomia moral da razão. Em seus últimos anos, portanto, Kant se sentiu forçado a atenuar a importância da crença religiosa no sentido de obrigação moral. Ele agora argumentava que a religião é uma consequência da consciência moral, não mais uma pressuposição da obrigação moral. Neste caso, a crença em Deus e na imortalidade só exerce um papel de reconciliadora entre as exigências da lei moral e nosso desejo natural por felicidade. Isso, entretanto, parece extremamente com eudemonismo; a teoria segundo a qual o maior objetivo moral é a felicidade, que era repugnante para Kant. Não é de se imaginar por que a filosofia da religião de Kant foi logo considerada a parte mais fraca de seu pensamento, enquanto seu princípio da autonomia da razão na filosofia moral foi tido como marco épico.

II

Na situação de hoje, há poucas chances de que o apelo à autonomia da razão vá trazer amplo consenso em relação às normas morais. Mesmo Kant não esperaria que isso acontecesse, visto que ele atribuiu à religião a tarefa de introduzir os princípios morais da conduta social. Ele insistiu somente que a lei moral deveria ser o princípio hermenêutico na transmissão da crença religiosa, com o resultado de que a filosofia moral tomaria a frente na formação do consenso moral da sociedade. Seja como Kantianismo ou algum tipo de Utilitarianismo, a filosofia moral no século XIV e começo do século XX, de fato, substituiu a religião entre a aelite intelectual e aqueles influenciados por ela. Tanto as filosofias morais Kantianas quanto Utilitárias continuaram a afirmar a autoridade pública das normas morais, como também seu poder racional de persuadir.

A autoridade da filosofia moral recebeu um duro golpe, entretanto, da análise psicológica de Nietzsche sobre a genealogia dos valores morais. O que chamamos de valores morais, Nietzsche defendeu, estão na verdade a serviço de propensões, inclinações e desejos mais profundos, em especial o desejo de dominar os outros. A história da cultura é a história de uma luta entre diferentes conjuntos de normas morais. Como resultado, as normas morais são relativas, e a voz da consciência é, na verdade, a voz do contexto cultural. Essa maneira de pensar foi popularizada e reforçada por Sigmund Freud e a psicanálise, onde encontramos a doutrina do superego como fonte da consciência moral.

A relativização da antes absoluta autoridade das normas morais converge hoje com a ênfase na liberdade individual como a autoridade final da condução da vida. Na filosofia de John Locke, a liberdade é enraizada no conceito de lei. Hoje, liberdade e lei são vistas como inimigas. A lei moral e civil são vistas como limites à liberdade do indivíduo. Isso é evidente, por exemplo, na constituição do meu próprio país, Alemanha. Lá a liberdade de auto-realização é limitada por três fatores: As justificadas alegações dos outros, a lei moral, e a ordem da lei positiva. Perceba o que aconteceu, entretanto, e não preciso dizer que isso não aconteceu somente na Alemanha. Dos três fatores limitantes, o conceito de lei moral não é mais útil já que não há acordo sobre seu conteúdo e autoridade coercitiva. Disso se segue que "as alegações justificadas dos outros" não pode ser afirmada, já que não sabemos o que é e o que não é uma alegação justificada. O resultado final é que os únicos limites ao exercício da liberdade individual são as exigências da lei positiva. Moralidade e lei são fundidas, daí o que não é ilegal não é imoral. Se algo não é proibido por lei, os outros são constrangidos a tolerar o que o indivíduo considera necessário ao exercício de sua liberdade. Uma consequência nada surpreendente disso é que a lei positiva é vista, às vezes, como uma limitação arbitrária da liberdade pessoal.

A filosofia moral não oferece muita ajuda nessa situação, não desde 1903 quando George Herbert Moore em Principia Ethica reduziu o julgamento moral a intuições que não podem nem ser demostradas nem refutadas por argumentos racionais. Se esse é o caso, é razoável ver as normas morais como preferências guiadas pela emoção ao invés de assunto reservados a argumentação racional. Essa é a circunstância intelectual e cultural brilhantemente exposta por Alasdair MacIntyre em seu livro After Virtue, no qual ele mostra como o intuitivismo e o emotivismo se fortaleceram com a desconstrução das normas morais empreendida por Nietzsche. Tendo dito isso tudo, entretanto, não é preciso nos desesperar quanto ao futuro da consciência e da argumentação moral. Elas não vão desaparecer. Há várias razões para isso, e a menor não é a propensão humana a julgar a conduta alheia. Não vamos parar de julgar, em privado ou em público. Isso se dá simplesmente por nossa tendência de sermos juízes. O julgamento moral é intrínseco a nossa natureza como seres sociais. Não temos escolha a não ser julgar como as pessoas deveriam se comportar em situações diferentes. As situações exigem isso, quer queiramos julgar ou não. Não importa, ao menos neste nível, se as idéias normativas pressupostas no nosso julgamento da conduta alheia são corretas ou justas. É suficiente que tais idéias normativas são empregadas, e não dá pra fugir disso.

Reflexão sobre como julgamos pode levar a conceitos básicos de lei natural. Nosso julgamento, por exemplo, evidencia uma demanda por alguma forma de mutualidade nas relações sociais: pacta sunt servanda – ambos os lados devem manter suas promessas. Essa é a “regra de ouro” da mutualidade: O que você não quer que outros lhe façam, você não deve fazer a eles. É claro, a regra exige especificações posteriores em relação a como as pessoas estão diferentemente situadas, mas de uma forma ou de outro o princípio da mutualidade está por trás de nosso julgamento de outros. Os seres humanos têm um interesse comum nos requisitos básicos da vida social, e a mutualidade é a base do básico.

Isso não sugere que as pessoas sempre agem de acordo com a regra de ouro da mutualidade. Longe disso. É obviamente mais fácil julgar a conduta dos outros do que nossa própria conduta. Em relação à nossa própria situação, somos incrivelmente tendenciosos a clamar por exceções às regrais gerais. Isso não se dá apenas por sermos criaturas egoístas. É também por que situações individuais são, de fato, únicas e nem sempre se encaixam às regras gerais, e cada um de nós consegue mais facilmente perceber a singularidade de nossa própria situação do que a singularidade da situação de uma outra pessoa. Isso não é uma falha. É natural. Não devemos ficar surpresos pelo fato de uma pessoa poder ter uma forte consciência das regrais gerais enquanto, ao mesmo tempo, tender a clamar exceções para si mesma. A tentação, é claro, é superestimar a importância das particularidades individuais. Nosso conhecimento das normas observadas pela maioria pode funcionar como condição para clamar por exceções para nós mesmos. Afinal, nenhum de nós é maioria.


Precisamente neste ponto a dissolução da autoridade absoluta das normas morais impregnam a conduta das vidas individuais. A crise da consciência moral não é que as pessoas não mais sabem sobre as condições e requisitos gerais da vida em sociedade. A crise vem ao aplicar tal conhecimento a casos individuais, e especialmente aos nossos próprios casos. Isso inclui a questão de como a formulação e observância das normas gerais podem se tornar subservientes à preferência individual. Como resultado da falta de habilidade de concordar sobre a conexão entre as regras gerais e os casos individuais, não há consenso quanto à ideia de justiça. A justiça requer que cada pessoa ou grupo receba e contribua de acordo com seu posicionamento dentro de um sistema social. Há um cacofonia de reivindicações de justiça, tipicamente articuladas em termos de “direitos”. Mas não há nenhum consenso sobre os requisitos da justiça. Na ausência deste consenso, reivindicações de justiça parecem vazia e como moralismo auto-serviente.

III

Reivindicações discordantes sobre justiça não são modernas. Sempre houve tais discordâncias dentro de sociedades e entre sociedades, como o resultado da ruptura social e guerras entre nações. Na visão bíblica, a condição de paz duradoura é um apaziguamento das reivindicações discordantes, um apaziguamento que pode vir somente de uma autoridade superior reconhecida por todos os partidos em conflito. Em Isaías e Miqueias nós temos uma visão da peregrinação de todas as nações ao Monte Sião, onde o Deus de Israel organiza suas reivindicações discordantes e estabelece a paz eterna. Certamente a visão tem a ver com o fim dos dias. No presente, as nações do mundo não parecem inclinadas a ter suas reivindicações julgadas pelo Deus de Israel. Alguns apelam ao Presidente dos Estados Unidos, e uns poucos apelam ao Papa, mas mesmo essas nações que compartilham da herança cristã não reconhecem a autoridade do Deus de Israel para resolver suas diferenças. Nem podemos esperar que as sociedades secularizadas do Ocidentes resolvam seus conflitos internos apelando à autoridade de Deus.

Pode ser o caso de que a crise moral das sociedades seculares modernas sejam atribuídas ao fato de que Deus não é mais reconhecido publicamente como fonte das normas morais. Enquanto esse reconhecimento estava intacto, a validade absoluta das normais morais e o senso individual de obrigação para com essas normas estavam assegurados. A experiência histórica demonstra que, para sociedades e para indivíduos, a autonomia da razão não pode substituir satisfatoriamente a autoridade de Deus. Quanto a isso, Rousseau está totalmente correto. Como estava Dostoiévski, quando seu Ivan Karamazov observou que, sem Deus, “tudo é permitido”. Numa entrevista de 1970, o filósofo marxistas Max Horkheimer declarou que, ao menos no Ocidentes, tudo que é relacionado à moralidade está ligado a raízes teológicas. Podemos querer modificar isso notando que a tradição da filosofia moral remonta à Grécia clássica e, portanto não tem todas suas raízes na fé judaico-cristã no Deus de Israel. E modificar isso por notar ainda que uma disposição à benevolência, uma benevolência que se compraz na felicidade dos outros, é parte da natureza humana. Todavia, o sendo de obrigação moral cultivado pelos últimos quinze séculos não pode ser concebido a parte da fé no Deus da Bíblia.

A verdade é que nas nossas sociedades Ocidentais e secularizadas a autoridade pública da religião, principalmente o Cristianismo, não será facilmente reconstruída. A perspectiva mais promissora é por uma renovação de uma moralidade especificamente cristã dentro da própria comunidade cristã. Aqui devemos dar atenção a uma maneira cristã de viver que é claramente distinta das formas convencionais da cultura que nos circunda. Há importantes objeções ao que parece ser um voltar-se para si que foca mais o raciocínio moral no desenvolvimento de uma ética distinta para a comunidade Cristã. A mais importante objeção é que a moralidade, por sua própria natureza, está relacionada a tudo que é universalmente humano. Há algo inerentemente equivocado com uma ética sectária. O discurso moral na teologia cristã, como na filosofia, atende à natureza humana, os anseios e aspirações de todos. Não atende somente, nem em primeiro lugar, a preocupações especiais dos Cristãos. Na história da ética Cristã, a ética Cristã não é somente para Cristãos.

Esse interesse universal é grande, evidente deste os tempos dos Pais da Igreja. A ética cristã se dirige a todos os seres humanos como criaturas do único Deus; todos estão envolvidos na queda de Adão, e todos são chamados à reconciliação com Deus, libertação da escravidão do pecado e da morte, e glorificação final na comunhão com Deus, o Pai, Filho e o Espírito Santo. Essa compreensão da natureza e história da raça humana explica os imperativos missionários do Cristianismo. Isso está enraizado na crença de que toda a humanidade e todo o universo são criados pelo Deus de Israel que se revelou definitivamente em Jesus Cristo. Verdade, esse entendimento não é mais compartilhado por todos em nossas sociedades e, portanto, não caracteriza mais o espírito de nossa cultura pública. Isso é visto como um entendimento peculiar aos cristãos. Mas, todavia, é um entendimento cristão que abarca todos os seres humanos.

A ética cristã, então, não está limitada aos cristãos, mas está relacionada a situação moral e o chamado de todos. Essa é a conexão entre o particular e o universal no pensamento cristão, e é uma conexão que deve ser honrada hoje no pensamento moral cristão. Não pode haver uma virada em direção à comunidade Cristã que exclua as alegações Cristãs e as preocupações Cristãs sobre a condição universal e o destino dos seres humanos como tais. Como a Igreja Antiga integrou o catálogo clássico de virtudes à doutrina Cristã de virtude que culmina na tríade Paulina da fé, esperança, e amor, então a ética Cristã deve compreender tudo que é verdadeiro no pensamento moral além das fronteiras formais do próprio Cristianismo. Não podemos nos atrever a esquecer que João 3.16 começa com “Deus amou o mundo...” A ética Cristã digna do nome que sustenta entende a si mesma como um relato moral do e para o mundo.

Já tratamos da primeira objeção a uma ética Cristã que trata especificamente da conduta da comunidade Cristã. Uma segunda objeção surge da peculiar história do Protestantismo. Enquanto o o ensinamento moral Católico Romano tradicionalmente foi articulado em tensão com a modernidade, o Protestantismo entendeu a si como aliado ao desenvolvimento do mundo moderno. Isso é notavelmente verdadeiro no Protestantismo liberal, que é frequentemente chamado de “Protestantismo cultural” outrora dominante em muito da Europa e América do Norte. Esse Protestantismo reluta a diferir dos valores preponderantes da cultura geral. De fato, ele se vê com um interesse proprietário nesses valores. Essa atitude pode ser remontada à Reforma e, especialmente, a doutrina de Lutero de que o Cristão satisfaz sua vocação divina fazendo a obra a qual ele é chamado a fazer na esfera secular. Isso contrastava com a visão Católico Romana de que há, por exemplo no monasticismo, vocações especiais à santidade. Além do mais, e muito importante para nossa discussão sobre autoridade moral, o Protestantismo tem crédito no desenvolvimento das ideias modernas de liberdade e direitos humanos. Como resultado, os Protestantes viram a adaptação à cultura moderna não como um processo de compromisso moral, mas como um processo de fidelidade a sua herança.

Exemplos não faltam para ilustrar as maneiras pelas quais o Protestantismo se identificou com a cultura geral, mesmo quando tentava transformá-la. Essa identificação parece ser exposta quando a ética cristã torna sua atenção à comunidade da fé em vez da cultura geral. Tal atenção à comunidade é suspeita de sectarianismo, especialmente quando a ênfase está na separação Cristã dos caminhos do mundo, ou quando o mandamento de amar o próximo é entendido como uma responsabilidade de amar os irmãos e irmãs Cristãs. Ainda assim devemos acolher a possibilidade de que uma virada sectária à comunidade, e longe de uma cultura geral que está alienada de sua herança Cristã, pode contribuir muito significantemente para a renovação moral dessa cultura. Na Igreja Antiga, os cristãos viveram uma moralidade muito diferente da moral da cultura que os circundava, e sua coragem de ser diferente se tornou um forte atrativo do Cristianismo. As pessoas reconheceram que a ética Cristã era superior e digna de imitação. Não deveríamos descartar a possibilidade disso acontecer novamente.

Uma terceira objeção à proposta de que a ética Cristã deveria se direcionar à comunidade da fé surge da ideia Cristã de amor. Não requer o chamado ao amor incondicional que aceitemos pessoas assim como elas são? Isso parece incondicionalmente comprometido se discriminarmos entre os Cristãos e não-Cristãos ou fizermos exigências das pessoas. Em nome do amor, as admoestações apostólicas de não termos comunhão com pessoas que vivem em violação ao ensinamento apostólico são facilmente descartadas. Mas o amor Cristão tem um aspecto crítico. Este amor não pode ser equiparado à “aceitação” incondicional. O amor está pronto para aceitar qualquer um, mas também convoca todos a mudar. À adúltera de João 8, Jesus disse “Vá, e não peques mais.” Quando, ao contarmos a história de aceitação da mulher por Cristo, omitirmos a admoestação, quebramos a conexão entre o mandamento de amar ao próximo e o mandamento mais importante de amar a Deus. Não se pode amar a Deus sem obedecer sua vontade, e no ensinamento de Jesus o amor de Deus é tanto a fonte como o critério de nossa obrigação de amarmos os outros. As pessoas devem ser amadas à luz do destino planejado por Deus para elas.

No Antigo Testamento, o amor de Deus é expresso em sua eleição de um povo para si mesmo e em sua perseverança nesse ato de eleição. Essa é a fonte e o critério de toda obrigação moral. Pois Deus quer que seu povo eleito floresça, é requerido de todo membro da comunidade que observe as condições mínimas para o florescimento da comunidade. Isso explica a correspondência entre a segunda tábua do Decálogo e as verdades da lei natural que são essenciais à vida comunitária. Nenhuma comunidade humana é possível onde pessoas se matam, roubam as posses dos outros, violam seus casamentos, desonram seus pais, ou agridem-se mutuamente por difamações.

O ensinamento moral de Jesus era também derivado diretamente da autoridade de Deus e de seu amor, não da autoridade do ensinamento moral e legal da tradição. Em Mateus 6, por exemplo, o amor do Criador por suas criaturas é evidente no fato de que “ele faz o sol nascer sobre maus e bons, e manda chuva sobre justos e injustos”. Assim devemos seguir o exemplo de Deus, amando não somente nossos amigos, mas também nossos inimigos. Diversas vezes, Jesus ensinou que, assim como o amor do Pai celeste é expresso em seu perdão por nós, da mesma maneira estamos obrigados a perdoar os outros. Assim ele nos ensinou a orar, “Perdoai as nossas ofensas assim como temos perdoado a quem nos tem ofendido”. O perdão de Deus antecede e é a fonte e critério do nosso perdão.

Esse entendimento do amor é a contribuição Cristã ao discurso ético e à moralidade universal. O amor Cristão enriquece e fortalece as inclinações naturais dos seres humanos à benevolência, que estão sempre carentes de fortalecimento. Essa é a mais importante contribuição Cristã à vida moral em geral, também sob as condições das sociedades seculares modernas. Mas os Cristãos também precisam apontar que a benevolência e a alegria que vem com isso são evidência de um anseio mais profundo do ser humano pelo bem. O bem pelo qual o ser humano anseia não está limitado ao bem moral. É o bem entendido no sentido platônico, que significa o bem que é fonte da felicidade. É, em resumo, um anseio por Deus, a fonte última e duradoura de felicidade. Na benevolência há um vislumbre desse bem último, acompanhado pela experiência da felicidade. É um sinal do Reino porvir.

Nosso vislumbre do Reino, entretanto, não leva a indiferença as condições quotidianas da comunidade humana. Pelo contrário, onde a benevolência mútua domina, essas condições aparecem sem necessidade de alvoroço. Nas palavras de Paulo, “Assim, se alguém está em Cristo, nova criatura é; as coisas velhas se passaram, eis que tudo se fez novo.” Se a ética Cristã atende ao viver dessa nova maneira – uma nova maneira que é a satisfação de nossa natureza desde o início – o mundo pode novamente nos notar. Então, por último, nós poderemos superar essa singularidade impressionante de nossa circunstância moderna onde o questão da moralidade e da ética é vista como uma questão de interesse público, enquanto a questão de Deus é vista como uma questão esotérica de interesse de teólogos e “pessoas que se interessam por esse tipo de coisa”. Então, por último, nossa cultura pode ser renovada ao entender que não precisamos escolher entre a natureza e a religião, e que a liberdade, longe de ser limitada quando reguladas pela autoridade moral, não são possíveis sem ela.

terça-feira, 6 de abril de 2010

Promoção Teologia Sistemática - Wolfhart Pannenberg


O leitor deste blog já está ciente de que eu sou entusiasta da teologia do alemão Wolfhart Pannenberg. Assim, eu vos aconselho a aproveitarem as excelentes promoções da editora Paulus e adquirirem o magnum opus deste magnífico teólogo - sua Teologia Sistemática de 3 volumes:


Para quem ainda não o conhece, leiam estes dois artigos traduzidos por mim:

1. Como Pensar Sobre o Secularismo? - W. Pannenberg
2. Deveríamos Apoiar o Casamento Homossexual? - W. Pannenberg

Duas observações:

1) Não recebo nada da editora Paulus
2) Já que a grana aqui está curta, aceito doações dos referidos livros- e falo sério!- como presentes de aniversário (é, tá chegando!)

quinta-feira, 18 de março de 2010

Deveríamos Apoiar o Casamento Homossexual? - Wolfhart Pannenberg



Wolfhart Pannenberg, dotado de uma incrível bagagem interdisciplinar e de uma excepcional habilidade de relacionar a Teologia com as demais disciplinas acadêmicas - incluindo a Filosofia, Sociologia, História e as Ciências Naturais - é provavelmente o mais proeminente teólogo contemporâneo. Foi aluno de Karl Barth, Edmund Schlink e Gerhard Von Rad. Pannenberg rompeu com a teologia de seus antecessores alemães , como Karl Barth, Tillich e Bultmann, que não viam a resurreição de Cristo como um fato histórico e, portanto, acessível ao escrutínio racional. Pannenberg não só rompeu com esta tradição como recolocou a Teologia na busca pela verdade, retirando-a do campo do subjetivismo extra-racional. Para ele a resurreição de Cristo é a chave para a compreensão da história. Seu magnum opus, sua Teologia Sistemática de três volumes, foi recentemente traduzido para o português pela editora Paulus. Recentemente se aposentou após 27 anos como professor de Teologia Sistemática da Universidade de Munique, Alemanha, e diretor do Instituto de Teologia Ecumênica. Tradução do alemão para o inglês por Markus Bockmuehl.

Para ler outro artigo do Pannenberg traduzido neste blog:
Como Pensar Sobre o Secularismo - Wolfhart Pannenberg


Mais informações sobre Pannenberg:
1 )Wolfhart Pannenberg's Quest for the Ultimate Truth - Stanley Grenz
2) Pannenberg - Theologian and Man
3) Wikipedia
4) Blog Teologia Contemporânea



Tradução: Vitor Grando
DespertaiBereanos.blogspot.com

Pode o amor ser pecaminoso? Toda a tradição doutrinária cristã ensina que há uma coisa chamada amor invertido, pervertido. Os seres humanos são criados para o amor, como criaturas do Deus que é amor. Ainda assim essa ordenação divina é corrompida sempre que as pessoas se afastam de Deus ou amam outras coisas mais do que Deus.

Jesus disse, “Quem ama o pai ou a mãe mais do que a mim não é digno de mim...” (Mt 10:37). Amor a Deus deve ter precedência sobre o amor aos nossos parentes, apesar do amor aos parentes ser uma ordem do quarto mandamento.

A vontade de Deus sendo a estrela guia de nossa identidade e auto-determinação. O que isso significa para o comportamento sexual pode ser visto no ensinamento de Jesus sobre o divórcio. Ao responder à pergunta dos Fariseus quanto a possibilidade do divórcio, Jesus cita a criação dos seres humanos. Aqui ele vê Deus expressando seu propósito para as criaturas: a criação confirma que Deus criou os seres humanos como macho e fêmea. Assim, deixa o homem pai e mãe para se unir a sua mulher, e os dois se tornam uma só carne.

Jesus conclui a partir disso que a união indissolúvel entre marido e esposa é a vontade de Deus para os seres humanos. A união indissolúvel do casamento, portanto, é o alvo da nossa criação como seres sexuais (Mc 10:2-9). Visto que quanto a este princípio a Bíblia não é temporal, as palavras de Jesus são o critério e o fundamento para todo pronunciamento cristão sobre a sexualidade, não somente para o casamento, mas toda nossa identidade como seres sexuais. De acordo com o ensinamento de Jesus, a sexualidade humana como macho e fêmea tem como alvo a união indissolúvel do casamento. Esse padrão instrui o ensinamento cristão sobre todo comportamento sexual.

A perspectiva de Jesus corresponde à tradição judaica, apesar de sua ênfase na indissolubilidade do casamento ir além da prescrição do divórcio dentro da lei Judaica (Dt 24.1). Era uma convicção judaica que os homens e as mulheres em suas identidades sexuais são planejados para a comunidade do casamento. Isso também vale para as determinações do Velho Testamento que fogem a esta norma, incluindo a fornicação, adultério e as relações homossexuais.

As determinações bíblicas quanto à prática homossexual são muito claras e não dão margem à ambiguidade em sua rejeição a tal prática, e todas suas afirmações sobre esse assunto concordam mutuamente sem exceções. O Código de Santidade, em Levítico, sem controvérsias afirma, “Com homem não te deitarás, como se fosse mulher; abominação é.” (Lv 18:22). Levítico 20 inclui o comportamento homossexual entre os crimes que merecem pena capital (Lv 20:13, é significativo que o mesmo se aplica ao adultério no versículo 10). Sobre este assunto, o Judaísmo sempre se viu como distinto das outras nações.

Essa mesma distinção continua a determinar as afirmações do Novo Testamento sobre a homossexualidade, em contraste à cultura Helenista que não via problema algum com as relações homossexuais. Em Romanos, Paulo inclui o comportamento homossexual entre as consequências de se afastar de Deus (1:27). Em 1 Coríntios, a prática homossexual está, junto da fornicação, adultério, idolatria, avareza, bebedeira, furto e roubo, entre os comportamentos que impedem a entrada no reino de Deus (6:9-10); Paulo afirma que através do batismo os cristão se tornaram livres do relacionamento com tais práticas (6:11)

O Novo Testamento não contém nenhuma passagem sequer que possa indicar uma afirmação mais positiva da prática homossexual que possa contrabalançar essas afirmações Paulinas. Assim, o testemunho bíblico inclui a prática do homossexualismo, sem exceções, entre os tipos de comportamentos que expressam notavelmente a humanidade afastada de Deus. Esse resultado exegético coloca amarras estreitas na visão sobre a homossexualidade que uma Igreja sob a autoridade das Escrituras pode ter. As afirmações bíblicas sobre este assunto simplesmente representam o resultado negativo à visão positiva da Bíblia sobre o propósito da criação do homem e da mulher como seres sexuais.

Estes textos que são negativos em relação ao comportamento homossexual não lidam simplesmente com opiniões marginais que pudessem ser negligenciadas sem prejuízo à mensagem cristã como um todo. Ainda mais, as afirmações bíblicas sobre a homossexualidade não podem ser relativizadas como expressões de uma cultura que hoje está ultrapassada. O testemunho bíblico era deliberadamente oposto à cultura que o circundava em nome da fé no Deus de Israel, que, na criação, designou o homem e a mulher para uma identidade particular.

Aqueles que advogam uma mudança na visão da Igreja sobre a homossexualidade geralmente apontam que as afirmações bíblicas não estavam cientes de modernas e importantes evidências antropológicas. Essa nova evidência, dizem, sugere que a homossexualidade deve ser vista como um constituinte da identidade psicossomática das pessoas homossexuais anterior a qualquer expressão sexual. (Para o bem da clareza é melhor falar aqui de uma inclinação homofílica como distante da prática homossexual.) Tal fenômeno ocorre não somente em pessoas ativas na homossexualidade. Mas a inclinação não precisa ditar a prática. É característica dos seres humanos que nossos impulsos sexuais não estão confinados a um âmbito do comportamento separado; eles permeiam nosso comportamento em toda área da vida. Isso, é claro, inclui as relações com pessoas do mesmo sexo. Entretanto, justamente porque as motivações eróticas estão envolvidas em todos os aspectos do comportamento humano, nós temos a tarefa de integrá-los ao todo da nossa vida e conduta.

A simples existência de inclinações homofílicas não leva automaticamente à prática homossexual. Ao invés, essas inclinações podem ser integradas numa vida na qual elas são subordinadas ao relacionamento com o sexo oposto onde, de fato, o assunto da atividade sexual não deveria ser o centro determinante da vocação e vida humanas. Como o sociólogo Helmut Schelsky corretamente colocou, uma das realizações do casamento como uma instituição é o aproveitamento da sexualidade humana a serviço de objetivos e tarefas posteriores.

A realidade das inclinações homofílicas, portanto, não precisam ser negadas e não devem ser condenadas. A questão, entretanto, é como lidar com tais inclinações dentro da tarefa humana de dirigir nosso comportamento de maneira responsável. Esse é o problema real; e é aqui que devemos lidar com a conclusão que a atividade homossexual é um desvio da norma para o comportamento sexual que foi dada aos homens e mulheres como criaturas de Deus. Para a Igreja esse é o caso não só da atividade homossexual, mas de qualquer atividade sexual que não tem como objetivo o casamento entre homem e mulher, em particular o adultério.

A Igreja tem que viver com o fato de que, nessa área da vida como em outras, desvios da norma não são excepcionais mas, antes, comuns e difundidos. A Igreja deve lidar com todos os envolvidos com tolerância e compreensão, mas também levá-los ao arrependimento. Ela não pode abandonar a distinção entre a norma e o comportamento que se desvia da norma.

Aqui estão os limites de uma Igreja cristã que está sujeita à autoridade das Escrituras. Aqueles que argumentam que a Igreja deve mudar esta norma devem estar cientes que estão promovendo divisões. Se uma igreja fosse se deixar levar ao ponto onde deixasse de tratar a atividade homossexual como um desvio da norma bíblica e reconhecesse as uniões homossexuais como uma parceria pessoal de amor equivalente ao casamento, tal igreja não mais estaria sobre bases bíblicas, mas contra o testemunho inequívoco das Escrituras. Uma igreja que desse esse passo deixaria de ser a Igreja una, santa, católica e apostólica.

Esclarecimento
: no mesmo momento em que foi publicada esta tradução aqui neste blog, outro blog,
o BlogFiel, produziu outra tradução do mesmo artigo que pode ser vista aqui:
http://blogfiel.com.br/2010/03/devemos-apoiar-o-casamento-gay-nao/
Apesar da coincidência as traduções são diferentes e, portanto, tiveram tradutores diferentes.


segunda-feira, 22 de setembro de 2008

Como Pensar Sobre o Secularismo - Wolfhart Pannenberg


Wolfhart Pannenberg é um dos maiores teólogos protestantes do mundo. Professor de Teologia Sistemática na Universidade de Munique. Nesse artigo ele fala sobre como se deve pensar a questão do secularismo. Ferrenho defensor da aliança entre fé cristã e razão e opositor dos teólogos que desprezam o valor da história para a fé cristã. Ele afirma, entre outras coisas, que o cristão não deve temer a investigação crítica mas sim incentivá-la, visto que se a fé cristã é verdadeira nenhuma investigação crítica poderá derrubá-la a não ser por visões de mundo que pressupõe príncipios necessariamente hostis à fé Cristã que muitos teólogos adotam. Excelente artigo não só para teólogos mas para qualquer cristão culturalmente engajado.

O que quer que se queira dizer com secularização, poucos questionariam que nesse século a cultura pública se tornou menos religiosa. Isso não é apenas, como alguns sugerem, simplesmente o resultado da separação entre igreja e estado que aconteceu primeiramente há aproximadamente dois séculos antes. Tal separação não acarretou a alienação da cultura de suas raízes religiosas. Na América, por exemplo, o fim da religião estabelecida pelo estado não significou o fim do caráter predominantemente Cristão e Protestante da cultura Americana. Em outras sociedades Ocidentais, a relação entre o estado e uma outra Igreja Cristã continuou a ser efetiva até este século. Ainda assim nessas sociedades, também, nós vemos evidência de secularização, tipicamente bem mais avançada do que nos Estados Unidos. Secularização não é causada pela separação entre igreja e estado. As raízes do processo de secularização, que fez com que a cultura pública se alienasse da religião, e especialmente do Cristianismo, estão enraizadas no século dezessete.


O clima público de secularimo enfraquece a confiança dos Cristãos na verdade do que eles crêem. Em A Rumour of Angels (1969), Peter L. Berger descreve os crentes como uma “minoria cognitiva” cujos padrões de conhecimento se desviam do que é publicamente aceito. Berger escreveu sobre “estruturas de plausibilidade”. As pessoas precisam do apoio social para se assegurar que um certo relato da realidade é plausível. Quando tal apoio é enfraquecido, as pessoas precisam reunir uma forte determinação pessoal para que possa manter crenças que estão em desacordo com as crenças dos outros ao seu redor. “É possível, é claro, ir contra o consenso social que nos cerca,” Berger nota, “mas existem poderosas pressões sociais (que se manifestam como pressões psicológicas dentro de nossas consciências) que nos fazem nos conformar com as visões e crenças de nossos próximos.” Essa é precisamente a experiência de Cristãos vivendo numa cultura dominantemente secular.


Num ambiente secular, mesmo um conhecimento elementar do Cristianismo – sua história, ensinamentos, textos sagrados, e figuras formativas – se enfraquece. Não é mais uma questão de rejeitar os ensinamentos Cristãos; um enorme número de pessoas sequer tem o mais vago conhecimento de quais ensinos são esses. Isso é uma desenvolvimento notório quando considera-se quão fundamental o Cristianismo é para toda a história da cultura Ocidental. Quanto mais ampla for a ignorância em relação ao Cristianismo, maior será o preconceito contra o Cristianismo. Assim, pessoas que não sabem nem a diferença em Saulo de Tarso e João Calvino acham que tem toda certeza de que o Cristianismo foi provado como uma religião de opressão. Quando tais pessoas se interessam por religião ou “espiritualidade” – sendo esse interesse uma reação natural à superficialidade da cultura secular – elas frequentemente não se voltarão para o Cristianismo, mas sim para “religiões alternativas”.


Nessa circunstância cultural, não é fácil comunicar a mensagem Cristã. A dificuldade é exacerbada pela relativização cultural da própria idéia de verdade. Isso difere significativamente do secularismo Iluminista. Os pensadores secularistas do Iluminismo desafiaram os Cristãos a justificar suas afirmações de verdade por meio de argumentos racionais ao invés de simplesmente apelar para a autoridade religiosa. Mas ambos, Cristãos e seus oponentes criam que havia uma verdade sobre as questões em disputa. Isso não é mais crido hoje. Na visão de muitos, incluindo muitos Cristãos, as doutrinas Cristãs são mera questão de opinião que podem ou não ser afirmadas de acordo com as preferências do indivíduo, ou dependendo de se elas falam diretamente a desejos pessoais.


A dissolução da idéia de verdade – de verdade que não precisa da minha aprovação para ser verdade – debilita severamente o entendimento Cristão de evangelização ou missão. Proclamação missionária antigamente era entendida como levar a verdade aos outros, e era tanto legitima como extremamente importante. Para muitos hoje, a empreitada missionária é uma questão de impor nossas preferências pessoas e preconceitos culturalmente condicionados sobre os outros, e é, portanto não só ilegítima como moralmente ofensiva. Além das questões de missões, devemos nos perguntar por que as pessoas deveriam aceitar a fé Cristã a menos que elas acreditem que o ensinamento apostólico é verdadeiro. Mais precisamente, hoje a questão é se tem sentido afirmar que o ensinamento Cristão é verdadeiro. A idéia de verdade é absolutamente vital para a fé Cristã. A destruição dessa idéia é a chave para legitimação da cultura secular, visto que a idéia da verdade toca na maior vulnerabilidade do secularismo.

II

Secularismo e, mais compreensivelmente, a própria modernidade tem sido geralmente vista como uma conseqüência da apostasia da fé Cristã. Essa era a visão, por exemplo, do grande teólogo Protestante Suíço Karl Barth. De acordo com Barth, a cultura moderna tem sido uma revolta contra a fé Cristã cujo intento é colocar o ser humano no lugar de Deus. Há muito a ser dito em relação a essa interpretação, pois a realidade humana tem se tornado, de fato, básica na cultura moderna de uma maneira comparável ao fundamento religioso de culturas antigas. A preocupação pelos direitos humanos é um dos aspectos, o aspecto politicamente mais importante, da preocupação moderna com o homem. Assim passou-se a ver o indivíduo humano com o maior valor e critério de bondade.


É dubitável, entretanto, que esse desenvolvimento deva ser descartado em sua inteireza como exemplo de apostasia. Pode-se argumentar, também, que a forte ênfase na pessoa humana tem uma distinta origem Cristã. Nesse aspecto, o Cristianismo tem bastante em comum com o espírito moderno. Pode-se até sugerir que o espírito moderno contribuiu para liberar a consciência Cristã da distorção da intolerância. Em outras palavras, a relação entre fé cristã e modernidade é ambivalente, e não permite aos Cristãos rejeitar a modernidade de uma maneira inadequada. Embora a cultura moderna na sua guinada secularista contribuiu indubitavelmente para alienar muitas pessoas da fé Cristã, é necessário para os Cristãos, aprender a lembrar a lição ensinada pelo surgimento da modernidade, e incorporar essa lição à consciência Cristã.


A distinção entre âmbito secular e o chamado âmbito religioso ou espiritual não é nada novo na história Cristã. Nos séculos anteriores, entretanto, a distinção não dizia respeito à separação entre o secular – política, economia, lei, educação, artes – da influência espiritual da Igreja. Ao contrário, a própria distinção entre secular e religioso teve uma base Cristã. Essa base cristã foi uma consciência de que a ordem social existente era imperfeita e provisória; ainda não era o reino de Deus. Em relação a qualquer ordem social existente, o Cristianismo proveu uma modéstia escatológica. Isso coloca as sociedades Cristãs à parte de outras culturas saturadas pela religião como o Islã. Isso distingue o Império Bizantino do império Romano pré-Cristão. No período pós-Constantiniano havia um equilíbrio entre a autoridade dos bispos e a do Imperador, enquanto que na Roma antiga o próprio Imperador era o sumo sacerdote, pontifex maximus.


A distinção entre o religioso e o secular mudou novamente como um resultado da Reforma do século dezesseis ou, mais precisamente, como resultado das guerras religiosas que seguiram à ruptura da Igreja medieval. Quando em um número de países nenhum partido religioso podia impor sua fé sobre toda sociedade, a unidade da ordem social tinha que ser baseada em outro fundamento que não a religião. Além do que, o conflito religioso provou ser destrutivo à ordem social. Na segunda metade do século dezessete pessoas prudentes decidiram que, se a paz social tinha que ser restaurada, a religião e as controvérsias associadas com a religião teriam que ser quebradas. Nessa decisão surgiu a cultura secular moderna. Isso acabaria por levar ao secularismo e a cultura que é propriamente descrita como secularista.


Em séculos anteriores, a ruptura da religião teria sido inimaginável. Mesmo no século dezesseis, Reformadores e Católicos criam que a unidade religiosa era indispensável para a unidade da sociedade. Embora eles enfatizassem a importância decisiva da consciência individual em questões de fé, nem Lutero nem Calvino cogitaram a possibilidade de tolerância religiosa. O passo em direção a liberdade e tolerância religiosa foi dado primeiramente na Holanda, próximo do final do século dezesseis, para restaurar a paz entre setores Católicos e Protestantes da população. Quando William de Orange proclamou o principio de tolerância religiosa, ele pensou que estivesse agindo de acordo com os ensinamentos de Lutero sobre o apelo à consciência e a liberdade do Cristão. De fato, William tomou um passo decisivo em direção a uma reconstrução da ordem social e da própria cultura.


A velha suposição de que a unidade da sociedade requeria a unidade da religião não foi descartada por boas razões. Se os cidadãos têm que obedecer a lei e respeitar a autoridade do governo civil, eles devem crer que é moralmente correto fazer isso, que eles não estão simplesmente se submetendo ao capricho daqueles que estão no poder. Se o poder é para ser considerado legitimado, deve ser exercido em nome de alguma autoridade que está além da arbitrariedade e manipulação humana. A religião obrigava e coagia aqueles no poder como também àqueles sobre os quais o poder é exercido. De tal forma, o sujeito e o governante sentiam que estavam unidos em sua responsabilidade para com uma autoridade que estava acima de ambos.


Hoje tal visão de legitimidade moral e da ordem social parece antiquada. Essa visão antiga, entretanto, não foi rejeitada por ter sido refutada por argumentos. Mas sim, foi abandonada por razões pragmáticas: a necessidade urgente de restaurar a paz social frente aos sangrentos conflitos religiosos superou quaisquer outras considerações. Na ausência de formas religiosas de legitimar o governo, teorias alternativas foram desenvolvidas. Mas importante entre esses é a idéia de governo representativo. Ainda hoje, entretanto, a plausibilidade dessas teorias de legitimação repousa mais sobre razões pragmáticas do que sobre argumentos convincentes.

III

Após as guerras da religião, o fundamento religioso da sociedade, da lei e da cultura foi substituído por outro, e esse novo fundamento foi chamado de natureza humana. Assim surgiram sistemas de lei natural, moralidade natural e até religião natural. E, é claro, havia uma teoria natural de governo, apresentada na forma de teorias de contrato social. Tais teorias demonstraram a necessidade do governo civil para que se assegurasse a sobrevivência individual pelo preço da liberdade natural dos indivíduos (e.g., Hobbes), ou para assegurar a liberdade individual dentro dos limites da razão e da lei (e.g., Locke). Teorias que usavam a natureza humana como fundamento da ordem política, legal e cultural tornaram possível para as nações Européias colocar um fim ao período de guerras religiosas. Isso também tornou possível, talvez inevitável, a autonomia da sociedade e da cultura secular independente da influência da Igreja e da tradição religiosa.


O relato precedente do surgimento da ordem social secular está associado com Wilhelm Dilthey. Existem outras teorias, é claro. Talvez a mais conhecida seja o relato de Max Weber sobre a origem do capitalismo moderno. De acordo com Weber, o capitalismo moderno não foi produzido apenas por fatores econômicos, mas surgiu da doutrina Calvinista da predestinação e sua influência na conduta humana. Calvino ensinou que, apesar do decreto eterno de Deus ordenando a eleição ou rejeição de um indivíduo permanecer misterioso, se uma pessoa é eleita isso pode ser inferido através de sua conduta. Se ela faz as obras da regeneração, é provável que tal pessoa pertença aos escolhidos. Para o Calvinista, então, havia uma poderosa motivação para viver de uma maneira digna de um regenerado. Na vocação mundana de alguém, na observação consciente dos seus deveres para os quais é chamado, deve-se testemunhar a regeneração. E foi isso que aconteceu, Weber argumenta, o ascetismo racional dos antigos capitalistas teve sua fonte na esperança da espiritualidade Calvinista cuja origem está em outro mundo. A espiritualidade foi secularizada quando a dedicação que ela exigia foi posta a serviço da multiplicação do capital. Eventualmente, de acordo com Weber, isso produziu um sistema capitalista que funciona de uma forma bastante independente da motivação religiosa que o originou.


Outras teorias de secularização alegaram que a moderna crença no progresso é uma secularização da esperança escatológica Cristã. A esperança por um mundo melhor não é mais dirigida a outro mundo, mas se torna o projeto humano de aprimorar esse mundo. Karl Lowith argumentou que a moderna filosofia da história é de fato uma secularização da teologia Cristã da história; é uma versão secularizada da história da salvação.


A providência de Deus guiando o processo histórico em direção ao cumprimento escatológico é substituída por uma filosofia do progresso guiada pelo poder profético da ciência e da tecnologia e prometendo um futuro de felicidade mundial. A ciência secularizou a idéia teológica de lei tornando-a uma idéia de leis eternas da natureza, e a idéia de um universo infinito foi a versão secularizada da antiga crença na infinidade de Deus.


Nessas e outras teorias, um conteúdo religioso é transformado em algo imanente a esse mundo. Hans Blumenberg está entre aqueles que objetaram contra tais teorias porque elas colocavam a cultura moderna sob obrigação ao seu passado Cristão; elas sugerem que a verdadeira substância da cultura moderna pertence originalmente ao Cristianismo. Contra essa visão Blumemberg argumentou que a modernidade se emancipou das alegações opressivas da religião Cristã. Não são vestígios cristãos, mas sim a autonomia humana forma o centro da mente moderna. De fato, entretanto, essa posição não é tão removida das teorias de secularização discutidas acima. Elas, também, crêem que o legado religioso foi transformado em algo radicalmente novo – tão radicalmente novo como se pode esperar quando a humanidade toma o lugar de Deus como o centro de tudo.


Há, entretanto, uma decisiva falha em ambas as posições. Um lado alega que o processo de secularização é responsável pela transição da cultura Medieval para a Moderna. O outro explica essa transição em termos de uma emancipação de uma cultura dominada pela religião. Ambas vêem o surgimento da cultura moderna como primariamente um processo ideológico. A realidade, eu argumento, é que a transição em questão não foi, ou pelo menos não primariamente, guiada por uma ideologia. Foi a guerra civil religiosa e a destruição da paz social que tornou necessário o abandono da antiga idéia de que a cultura pública deve se basear sobre a unidade religiosa. Todo esforço para liquidar os conflitos entre partidos religiosos foram em vão. Aqueles que tentaram lidar com essa circunstância não pensavam que estavam abandonando a fé Cristã no seu esforço de encontrar uma base mais estável para a ordem social. Com relativamente poucas exceções, eles entendiam a si mesmos como Cristãos devotos, e se escandalizariam de pensar que estivessem privando as alegações de verdade cristã e a moral cristã da influência pública.


Colocado de outra forma, a emancipação moderna da religião não era a intenção, mas sim o resultado a longo-prazo de reconstituir a sociedade sobre um fundamento que não fosse a fé religiosa. Nenhuma ruptura com o Cristianismo era o intento daqueles que basearam a cultura pública em conceitos da natureza humana e não na religião. De fato, as idéias Cristãs continuaram a ser socialmente efetivas, apesar de estarem sendo gradualmente transformadas em crenças secularizadas, e não é surpresa o fato de que, com o tempo, muitas pessoas esqueceram de onde essas idéias vieram.


Pensando na relação entre o Cristianismo e a cultura moderna, é importante manter esses fatores em mente: primeiro, a modernidade não era para ser oposta a fé Cristã; segundo, a falta de tolerância entre os Cristãos no período pós-Reforma foi responsável direto pelo surgimento da cultura secular. O que os Cristãos deveriam aprender disso é a urgência em tratar suas controvérsias herdadas e restaurar algumas das unidades entre si. Ainda mais, a idéia e a prática da tolerância devem ser incorporadas no entendimento Cristão não só da liberdade, mas da própria verdade. Sem essas mudanças – mudanças que só os Cristãos podem fazer – é inútil esperar que a cultura moderna reconsidere a exclusão da religião da esfera pública. A memória do papel da religião na origem da modernidade reforça poderosamente o preconceito contemporâneo de que a religião na esfera pública é divisiva, intolerante, e destrutiva da sociedade civil.

IV

Bem no coração da cultura moderna encontramos ambigüidades que resultam de uma curiosa mescla de idéias Cristãs e não-Cristãs. O exemplo mais importante é a idéia moderna de liberdade. Há uma clara raiz Cristã na crença de que todos os seres humanos nascem para ser livres e que tal liberdade deve ser respeitada. Há um ensinamento bíblico que diz que os humanos foram criados à imagem de Deus e criados para aproveitar da comunhão com Deus. De fato, é só a comunhão com Deus que nos torna livres, de acordo Jesus (João 8:36) e Paulo (2 Coríntios 3:17). Enquanto cada ser humano é criado para aproveitar da liberdade que vem da comunhão com Deus, é só em Cristo que essa liberdade é realizada completamente através da redenção do pecado e da morte. Essa é a idéia Cristã de liberdade.


A idéia moderna de liberdade, mais efetivamente proposta por John Locke, difere da visão Cristã por focar apenas a condição natural do homem. Difere também em se apoiar sobre antigas idéias Estóicas de lei natural. Os Estóicos ensinavam que a liberdade e igualdade original dos seres humanos no estado natural se perdera por causa das necessidades de viver em sociedade. Locke pensava que a doutrina reformada da liberdade do Cristão tornou possível alegar a liberdade original como fato nessa vida. Em contraste com visões libertárias posteriores da liberdade individual, Locke cria que a liberdade pura está necessariamente unida com a razão e, portanto, positivamente relacionada com a lei. Na posição de Locke há um eco do entendimento Cristão de que a liberdade depende de estar unido com o bem e, portanto, com Deus.


A idéia predominante de liberdade nas nossas sociedades hoje, é claro, é a idéia de que cada pessoa tem o direito de fazer o que quiser. Liberdade não está ligada a nenhuma noção do bem como constituinte da própria liberdade. Por causa da incompletude da existência humana na história, qualquer idéia de liberdade envolve o risco de abuso. Mas isso não faz muita diferença na questão de se a distinção entre uso e abuso da liberdade é cumprida. Quando não é cumprida, é possível desafiar a igualdade entre liberdade e permissão. A ambigüidade construída na moderna idéia de liberdade nos ajuda a entender a ambivalência da cultura secular no que diz respeito aos valores em geral, o nervosismo em afirmar os conteúdos e padrões pelos quais a própria cultura é definida. No que diz respeito aos valores e tradições culturais, assim como alegações de verdade, prevalece uma atitude consumista. Cada um escolhe de acordo com suas preferência e suas necessidades. A separação da idéia de liberdade de uma idéia de verdade e do bem é a grande fraqueza das sociedades secularizadas.

V

Sob a influência de pensadores como Max Weber, a pressuposição dominante na modernidade é que a secularização vai continuar a impregnar todos os aspectos do comportamento social e individual, e a religião cada vez mais sendo empurrada para a margem da sociedade. Nas últimas duas ou três décadas, entretanto, tem se tornado evidente que a secularização (ou, como alguns preferem, modernização progressiva) encara problemas severos. A ordem social completamente secularizada faz surgir um sentimento de que não há sentido algum: há um vácuo na esfera pública da vida cultural e política, e isso cria violentes erupções de insatisfação. Como conseqüência, é difícil predizer o futuro da sociedade secular. Depende, em parte, de quanto tempo as pessoas estarão dispostas a pagar o preço de viver sem sentido em troca da licença para fazer o que quiserem. Até quando as pessoas se contentarem com os confortos da abundância, eles podem querer tolerar essas tensões indefinidamente. Por outro lado, as reações irracionais são imprevisíveis, especialmente quando há um sentimento de que as instituições da sociedade não são legítimas. A circunstância da sociedade secular moderna é mais precária do que queremos reconhecer. Aqueles que reconhecem o perigo insistem numa reafirmação das tradições pelas quais a cultura se definiu, e mais especificamente por uma reafirmação das raízes religiosas dessas tradições.


Tal insistência é, sem dúvidas, para o próprio interesse da sociedade secularizada. A religião como tal, entretanto, tem pouco interesse nisso. Ao contrário das ansiedades amplamente expressas poucas décadas atrás por pessoas de fé religiosa, agora é óbvio que o futuro da religião é menos precário do que o futuro da sociedade secularizada. A secularização está longe de ser um juggernaut implacável. Quanto mais a secularização e o que chamam de modernização progressiva avança, mais eles produzem uma necessidade de algo mais que possa dar sentido para a vida humana. Tal sentido se é para ser efetivo, tem que ser percebido como tendo sido concedido; não concedido para nossas vidas por nós mesmos, mas por alguma autoridade que esteja além de nossas invenções. O ressurgimento da religião e de movimento semi-religiosos que começou há poucas décadas atrás pegou os intelectuais secularistas de surpresa, mas poderia ter sido prevista (e foi prevista por alguns) como um resultado inevitável do secularismo.


Esse interesse renovado na religião, entretanto, nem sempre se volta para o Cristianismo. Em algumas sociedades, e em setores de todas as sociedades modernas, a volta para o Cristianismo parece ser a exceção. Uma razão para isso é o preconceito contra o Cristianismo como a "religião convencional" na consciência pública da cultura secular. Isso ajuda a explicar o amplo entusiasmo pelas "religiões alternativas". Outra razão do por que muitas pessoas estarão interessadas por religião, mas não pelo Cristianismo se encontra na forma em que as igrejas tem respondido aos desafios do secularismo. E isso me traz ao meu último ponto: Como as igrejas devem responder à cultura secular?

VI

A pior forma de responder ao desafio do secularismo é se adaptar aos padrões seculares de linguagem, pensamento e forma de viver. Se os membros de uma sociedade secular se voltam para uma religião, eles o fazem por estarem procurando algo além do que a cultura deles já provê. É contra produtivo oferecer-lhes uma religião secularizada que está cuidadosamente arrumada de forma a não ofender suas sensibilidades seculares. Nessa conexão, parece que as principais igrejas na América ainda tem que internalizar a mensagem de Dean Kelley em seu livro escrito há quase vinte e cinco anos atrás, Why Conservative Churches Are Growing (Porque Igrejas Conservadoras Estão Crescendo). O que as pessoas buscam na religião é uma alternativa plausível, ou no mínimo um complemento à vida numa sociedade secular. A religião que é nada mais do que "mais do mesmo" provavelmente não será nada interessante.


Eu me apresso em dizer que isso não é um argumento a favor de um tradicionalismo morto. A velha maneira de fazer as coisas na igreja pode incluir elementos que são extremamente entediantes e sem sentido. O Cristianismo proposto como uma alternativa ou complemento à vida numa sociedade secularizada deve ser tanto vibrante quanto plausível. Acima de tudo, deve ser substancialmente diferente e propor uma diferença na maneira em que as pessoas vivem. Quando a mensagem e o ritual são acomodados, quando as extremidades ofensivas são removidas, as pessoas suspeitam que o clero não acredite realmente em nada muito distinto. A apresentação plausível e persuasiva das particularidades Cristãs não são uma questão de marketing. É uma questão de o quê as igrejas devem às pessoas nas nossas sociedades secularizadas: a proclamação do Cristo ressurreto, a alegre evidência da vida nova em Cristo, da vida que supera a morte.


Por não ser um argumento a favor do tradicionalismo (tendo em mente a perspicaz observação de Jaroslav Pelikan de que a tradição é a fé viva dos mortos enquanto o tradicionalismo é a fé morta dos vivos), então isso também não é um argumento a favor do fundamentalismo. Reconhecidamente, o termo fundamentalista hoje é usado para condenar qualquer religião que ofenda seriamente as sensibilidades seculares. Por fundamentalismo eu quero dizer uma religião que, de forma ignorante afirma uma certeza, se recusando a usar a racionalidade humana. A oposição da proclamação Cristã ao espírito do secularismo deve estar sempre aliançada com a razão. Isso está de acordo com a clássica tradição Cristã que, desde os tempos da Igreja primitiva, formou uma aliança com a razão e a verdadeira filosofia para sustentar a validade universal do ensinamento Cristão.


Os secularistas estão certos ao expor a irracionalidade, o fanatismo, e a intolerância quando estas aparecem em nome da religião, mesmo quando eles o fazem para desacreditar a religião como tal. O autêntico ensinamento Cristão se apropria de tudo que é válido na cultura secular enquanto alega,e foca sua atenção sobre a verdade de que o espírito secular não é mais digno de atenção. Os Cristãos podem confiantemente fazer isso porque eles sabem que, assim como as doutrinas Cristãs outrora foram desafiadas em nome da razão e de uma abordagem racional à verdade, assim também o próprio secularismo se tornou irracional. Nas nossas circunstâncias contemporâneas, há uma grande esperança na renovação da clássica aliança entre a fé Cristã e a razão.


Os Cristãos que afirmam racionalidade, entretanto, devem estar preparados para aceitar críticas, e para cultivar uma atitude de autocrítica dentro de suas próprias comunidades. As doutrinas e formas de espiritualidade tradicionais, junto com a própria Bíblia, não estão isentas de investigação crítica. Tal investigação é necessária devido a aliança entre fé e razão. A confiança Cristã na verdade de Deus e de Sua revelação deve ser vigorosa o bastante para confiar que a verdade não vai sucumbir a nenhuma descoberta da investigação crítica. Claro que há formas de críticas preconceituosas e distorcidas que pressupõe uma visão de mundo secularista que são necessariamente hostis à fé Cristã. Para que a investigação crítica possa florescer, tais falsos criticismos tem que ser firmemente expostos e rejeitados. Como diferir entre investigação crítica e criticismo possuído pelas pressuposições do secularismo é um assunto para outro ensaio. Basta dizer que pode ser feito e deve ser feito. Meu argumento é que, se pensarmos que devemos proteger a verdade revelada de Deus da investigação crítica, na verdade estamos demonstrando nossa descrença. Tal investigação, enquanto pode as vezes apresentar suas dificuldades, irá no final realçar o esplendor da verdade de Deus. A confiança numa verdade - uma verdade exibida na proclamação e na vida - é a única resposta ao desafio do secularismo.

 
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