sábado, 19 de abril de 2008

Simplesmente escolha! Mas será assim tão simples?



Neste último fim de semana durante uma viagem com alguns amigos, numa das noites, uma questão foi levantada. Referia-se ao poder de escolha. Alguns defenderam que a vida é feita de escolhas (mas é claro), se alguém decide se drogar esse alguém o fez por escolha. Esse papo de escolha me parece mais um chavão evangélico, pelo menos no meio do qual eu faço parte, e como todo bom chavão evangélico, me gera aversão. Bom, então, a discussão acalorada se deu em torno dessa questão. Aquele que se droga o faz por escolha, não importa a vida que esse alguém teve, afinal, tantos outros “alguém” passam também por situações complicadas e não desandam por esse caminho. Da mesma forma se um jovem escolhe trilhar o caminho do tráfico ele também o faz por nada mais nada menos do que uma escolha. Mas será tão simples assim?


Eu não negaria que a vida gira em torno de escolhas, nada determina o que haveremos de ser ou não-ser. Ninguém nos obriga a pegar numa arma. Ninguém nos obriga a fazer uso de entorpecentes. Ninguém nos obriga a seguir pela vida fácil do crime. Analisando friamente poderíamos dizer que sim, a vida é feita de escolhas e ponto final. Disso eu não posso discordar. Mas será que escolher entrar para o tráfico é o mesmo que decidir comer arroz com feijão ou macarrão? Escolhas decisivas da vida são tão simples quanto as escolhas simples do cotidiano? Será que essas decisões têm todas as mesmas implicações? A decisão de um jovem entrar ou não entrar para o tráfico se resume num sim ou não?


Não podemos diminuir a responsabilidade do homem no que ele faz com sua vida. Mas também não podemos ignorar os inúmeros outros fatores que pesam em decisões como as que falamos. Vamos ilustrar essa questão. Fernando é um homem de 27 anos, viciado em cocaína e casado... com outro homem. Fernando não foi obrigado a cheirar cocaína pela primeira vez e também não foi obrigado a se tornar homossexual e morar com um homem. Fernando escolheu pela droga e escolheu pelo homossexualismo. Agora vamos voltar à infância de Fernando. Aos oito anos Fernando começa a ser abusado sexualmente pelo seu próprio pai. Isso durou até os seus treze anos. Sua mãe descobre a situação quando Fernando tinha dez anos, mas ainda assim finge que não sabe o que acontece, e ignora quando seu filho pede que ela o ajude, taxando-o de mentiroso. Fernando apesar de seu ódio pelos seus pais, acaba por gostar de ser abusado. Seus pais finalmente se separam, afinal, sua mãe não mais agüentou ser espancada pelo marido e o denunciou a polícia. Fernando agora têm um pai no cárcere, uma mãe alcoólatra, não têm dinheiro para comer e é ridicularizado pelos seus amigos da escola.


Será que essa história toda tem alguma relação com o Fernando de hoje? É claro que têm. Mas ainda assim, Fernando teve escolha de se drogar e se tornar homossexual? Sim, teve. Mas a verdadeira pergunta deve ser: será que a opção de dizer não às drogas é tão simples para o Fernando quanto é para mim e pra você que viemos de uma família saudável e um lar de amor e temos nossas cabeças no lugar? Será que alguém diria que dizer não ao homossexualismo é o mesmo para o Fernando do que é para nós? Não é, e não acredito que alguém diria que é. Justifica o comportamento de Fernando? Não, mas explica. Fernando ainda tem escolha, mas será que na situação dele faríamos a escolha correta? Fernandinho Beira-Mar teve escolha, Hitler teve escolha, Osama Bin Laden teve escolha. Mas será que se tivéssemos na posição exata dessas pessoas faríamos as escolhas corretas? Talvez seríamos seres ainda piores. Isso me faz lembrar as palavras de C.S.Lewis no clássico Cristianismo Puro e Simples. Ele nos pergunta se é mais corajoso um homem ir para a guerra ou segurar um gato no colo. A resposta parece óbvia, mas não é se levarmos em conta que para alguns ir para a guerra é um sonho, ou ir para a guerra é melhor do que sua situação atual, e não é se levarmos em conta os distúrbios psicológicos que fazem com que algumas pessoas tenham pavor de um simples gato fazendo com que para essas pessoas segurar um inofensivo gato no colo seja uma grande vitória. Alguns são tomados de ódio no seu interior, mas o máximo que conseguem é ser motivo de chacota dos outros, para outros que não têm nem a metade da maldade e do ódio no coração é conferido poder para exterminar milhares. O pior deles é aquele que é chacota dos colegas, embora, as conseqüências dos seus atos sejam inferiores a daquele que exterminou milhares, mas simplesmente por que não lhe foi dado o poder para tal, talvez se fosse, ele exterminaria milhões. Mas Deus enxerga o interior. É fácil acusar o próximo de ter feito as escolhas erradas, difícil é pensar o que faríamos na situação deles. Mas Deus não vê como vê o homem, Deus vê o coração. Para Fernando resistir ao impulso de dar o primeiro teco é milhares de vezes mais difícil do que é para o cidadão comum. Para Fernando negar seus impulsos homossexuais é muita coisa, para um homem comum é simplesmente nada. Negar um convite para entrar no tráfico para mim não é nada, para outros pode ser uma batalha muito grande. Batalha essa que talvez eu não venceria no lugar de outra pessoa. Lembremos de que a quem muito é dado muito é cobrado. Deus não cobrará de Fernando o mesmo que cobra de mim ou de você. Talvez aquele que você acusa de ser um fracassado por ter feito as escolhas erradas, para Deus, faz muito mais esforço do que você.


É fácil julgar. Julgamos aquelas escolhas que trazem grandes conseqüências, mas nos esquecemos das inúmeras e pequenas escolhas erradas que fazemos diariamente! Deus não nos julgará de acordo com o padrão de Fernando, Beira-Mar ou Hitler. Deus nos julgará de acordo com o seu padrão Absoluto e eterno. Deus nos julgará de acordo com sua impetuosa Lei. E debaixo dela todos somos culpados. Não julgueis para não se surpreender. Talvez um dia você ouvirá Ele dizer àquele que você julgou: “Parabéns! Você fez o que pode com o pouco que lhe foi dado”. Cuide para não ter que ouvir: “É isso que você fez com o muito que lhe foi dado?”. Essa abordagem farisaica de resumir os desvios de comportamento alheio a simples questão de escolha é por demais fria e condenatória. A tarefa do crente não é tacar pedras naquele que fez as escolhas erradas, mas ajudá-lo a carregar o seu próprio fardo para que com isso ele consiga fazer as escolhas certas. A graça cura, a Lei machuca. Quem não tiver pecado atire a primeira pedra. Ó se Deus fosse nos julgar como nos julgam os homens! Obrigado pela Tua misericórdia, Senhor!.


“Mulher, onde estão aqueles teus acusadores? Ninguém te condenou?

E ela disse: Ninguém, Senhor. E disse-lhe Jesus: Nem eu também te condeno; vai-te, e não peques mais.” Jesus Cristo


n’Aquele que julga retamente,


Vitor Grando

2 comentários:

Daniel Grubba disse...

Fala Vitor,
O texto ficou bastante interessante.
Deus abençoe,
Daniel

Hélio disse...

Brilhante texto, Vitor! Parabéns!

 
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